Joaquim Barbosa, “de alma leve”, faz “selfie”
com jornalistas na saída do Supremo

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ARTIGO DA SEMANA

Joaquim Barbosa: signos de uma saída à francesa

“Que cegos estamos em meio de tanta luz”

Jean-Jacques Rousseau, em Carta a D`Alembert sobre os espetáculos. Recolhido da antologia de textos “Contra La Prensa”, do jornalista argentino Esteban Rodríguez.

É inútil fazer de conta que nada aconteceu de mais relevante, esta semana, no Planalto Central do Brasil, além do resultado da mais recente pesquisa de opinião divulgada pelo Datafolha, cujos números caíram como gotas de bálsamo sobre a presidente Dilma: a candidata à reeleição e o seu governo, ao mesmo tempo.

Exagera, também, os que imaginam, e até proclamam, que o fato mais importante destes dias foi o ex-ministro José Dirceu ter deixado a cela no presídio da Papuda, na quarta-feira. Ou o primeiro dia de trabalho, na quinta-feira (3), do ex-ministro chefe da Casa Civil do Governo Lula, em seu novo emprego, com salário na faixa dos R$ 2 mil, condução de automóvel para o CPP – Centro de Progressão de Penas do DF, e regalia de uso livre do telefone celular.

Nada mal, como se vê, para um condenado do Mensalão. Portanto, em princípio, um preso comum.

Mas é imperativo reconhecer a relevância jornalística e o interesse público da notícia. Tanto pelo comportamento do apenado, quanto pelo ineditismo das imagens e os significados explícitos e implícitos que expressam e traduzem.

Especialmente para núcleos petistas inconformadoscom a ausência demorada, em seu seio, do líder e mentor. Daí a intensa vibração observada nas redes sociais, e os foguetes soltados na capital e no interior da Bahia, na quinta-feira, mesmo já tendo passado as festas juninas no Nordeste e não sendo dia de jogo da seleção na Copa .

Fazer escolhas é da essência da vida, da política e do jornalismo. Isso inclui até mesmo – a exemplo do que fazem alguns – apostar em que o barulho e a fumaça espalhados de ponta a ponta do território nacional e do planeta por esta espetacular e arrepiante Copa do Mundo, disputada na terra do futebol, vai zerar tudo. Cegar, ensurdecer e alienar a sociedade quase por inteiro. A ponto de soterrar de vez e levar ao esquecimento definitivo, o impacto e as repercussões de outro fato crucial da semana, também registrado em Brasília.

Refiro-me, evidentemente, à desconcertante saída, à francesa, do ex-ministro Joaquim Barbosa do comando do Supremo Tribunal Federal. Ao mesmo tempo, o definitivo encerramento da sua exemplar carreira profissional na magistratura, como guardião das normas da Constituição brasileira e implacável aplicador da punição judicial aos queas transgridem, além de severo zelador pelo cumprimento efetivo das penas aplicadas.

Que o digam os condenados do histórico e polêmico processo do Mensalão, página maior e mais significativa da passagem do ministro Barbosa pela Presidência da Suprema Corte de Justiça.

Este é, também, um caso incomum, inédito mesmo na larga história do Poder Judiciário nacional. A saída de Barbosa foi um ato emblemático. Carregado de eletricidade e executado em um cenário perfeito para observação das reações humanas. Daquelas mais grandiosas e superiores, às mais primárias e rasteiras: Caráter, dignidade, princípios, inveja, ciúme, desfaçatez, cumplicidade, grosseria… Tudo transmitido em rede nacional pela TV Justiça, complementado por flashes de repercussão de outras emissoras em canais abertos e privados.

Uma sessão para a história. Plena de signos destinados a produzir discussão, polêmica e, principalmente, conseqüências a curto, médio e longo prazo. A começar pelas atitudes e desempenho do personagem principal: o juiz Joaquim Barbosa.

A saída foi levada a efeito durante uma sessão normal de trabalho no tribunal. Coerente com as palavras do discurso de chegada no posto de comando: “Vamos ao trabalho, a justiça tem pressa e a sociedade brasileira não pode mais esperar”.

Uma despedida bem à maneira, jeito e estilo do magistrado que detesta salamaleques, tapinhas nas costas, ou homenagens formais, elogios fáceis, discursos temperados na retórica plena de frases óbvias, autocomplacentes, vaidosas, que em geral passam ao largo das questões de princípios e não resistem a meia hora, depois que o homenageado vira as costas e deixa a cena. Ele próprio abriu mão de seu discurso de adeus no STF.

Homem do exemplo concreto, mais que das palavras, Joaquim Barbosa fez o inverso das despedidas comuns e previsíveis. Ainda no plenário, seguiu na contramão da maioria dos colegas e votou contra a aplicação, nas eleições gerais deste ano, de uma regra do TSE, considerada inconstitucional pelo próprio Supremo. Ao argumentar, bateu boca com o ministro Dias Toffoli, atual presidente do TSE, que conduzirá as eleições de 2014. E bateu duro:

“Tem-se banalizado no nosso sistema a seguinte prática, das mais bizarras: o Tribunal declara inconstitucional, mas ao mesmo tempo modula efeitos da decisão [determina a partir de quando vale] e mantém o status quo. Tenho notado quanto pode ser nefasta essa prática, que tem potencial de perenizar nossas mais críticas mazelas”, atirou Barbosa.

Depois da sessão, de quase três horas, saiu à francesa do salão. Antes, apenas avisou que era a sua última sessão na presidência. ”Não gosto de homenagens”, explicou.

Aparentando um bom humor raramente visto, Joaquim Barbosa reapareceu logo depois. Conversou por 15 minutos com a imprensa, recebeu abraços e aplausos de servidores e visitantes do prédio da Corte. Até topou fazer um “selfie” com jornalistas.

Por fim, Joaquim Barbosa deu adeus e seguiu em frente. O resto é com o tempo, o soberano senhor da razão.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 5 julho, 2014 at 13:38 #

Caro VHS

Sou daqueles que acreditam que Dirceu e seus asseclas, combinam com grades e algemas.

Sou contudo, daqueles que acreditam que Barbosa é apenas uma alma tosca envolta em toga suprema por obra e graça do exibicionismo de um Lula qualquer.

Mas, respeito o tempo, o soberano senhor da razão como teu artigo muito bem pontuou.

Assim, penso no Zé, não o Dirceu, o Zé que pode ser da Maria, da Joana, ou da Helena, que tendo entregue seu destino numa petição inicial de lavra de um ” doutor advogado”, que lhe coube a pouca verba, deverá esperar, 10, talvez 12, quem sabe 15 anos para uma decisão final deste escárnio nacional chamada tutela jurisdicional.

Não penso em Barbosa em Miami, recitando Baudelaire em alemão, ou francês, mas sim no Zé, na sua ação perdida entre tantos recessos, férias e quejandos, tão a gosto destes senhores e suas togas.

Deste Zé ninguém fala, ninguém tece loas, ninguém abençoa.

Este Zé somos eu e você VHS.

E o Tempo, continua senhor da razão.

Tim Tim!

Acredite, nada foi acrescentado, exceto o exercício de louvar quem, talvez, não mereça sequer ser aplaudido.


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