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Legado de dignidade

JC Teixeira Gomes

Escrevo meus artigos sob o sufoco da periodicidade excessiva de 15 dias, contrária à instantaneidade do jornalismo, e portanto devo ser cauteloso na escolha dos temas, para não ficar desatualizado. Um deles poderia parecer já superado, mas comporta ainda algumas análises: as vaias e os xingamentos que a presidente Dilma recebeu na abertura da Copa.

Vaias são apenas o oposto de aplausos. Constituem o recurso legítimo dos insatisfeitos. O excesso são palavras ofensivas, que devem ser evitadas. Muitos daqueles, porém, que continuam a mostrar-se indignados com os palavrões contra Dilma Rousseff, e me refiro especialmente aos militantes e simpatizantes petistas, são os mesmos que há longo tempo vêm atacando, com as palavras mais duras e desrespeitosas, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, xingado e até ameaçado, num autêntico dilúvio de insanidades.

A paixão política é o caminho mais curto para a irracionalidade e para o fanatismo. Ainda há pouco, li neste jornal um artigo em que um professor universitário insistia na ardilosa tese de que as críticas ao PT partem das “elites” insatisfeitas contra as políticas populares do partido, inclusive o Bolsa Família.

Em primeiro lugar, não nos esqueçamos de que, com o correr dos anos, nenhum partido no Brasil se mostrou tão identificado com as “elites” de banqueiros e empreiteiras como o Partido dos Trabalhadores. Aos primeiros, deu as regalias incomparáveis dos empréstimos consignados e do fortalecimento da aposentadoria privada, obtendo do Congresso e da Justiça precisamente aquilo que combateu durante todo o reinado de Fernando Henrique Cardoso: a aprovação da reforma da previdência. Aos segundos, entre outros regalos, entregou a generosa construção dos estádios mais caros do mundo para a orgia da Copa, com a rica cornucópia das obras complementares.

Não deixa de ser grotesca a insistência petista de denunciar as “elites”, ao lembrarmos das alianças de Lula com a fina flor do reacionarismo político nacional, gente do nível de José Sarney, Collor, Calheiros e – imaginem! – Paulo Maluf, que ainda agora, com festas, voltou a apoiar publicamente o PT em São Paulo, para a disputa do governo, como antes o fizera na eleição do prefeito petista. É cinismo demais. Fatos como esses explicam por que militantes da maior seriedade, com larga tradição de honra na luta política, tais como Arruda Sampaio, Heloísa Helena, Chico Alencar, entre tantos outros, abandonaram indignados os rumos do partido no poder.

Quanto ao Bolsa Família, os brasileiros não estão absolutamente contra medidas que reduzam a miséria e as desigualdades históricas. Estão, sim, contra a utilização do paternalismo para a obtenção de vantagens eleitorais, para o prolongamento do domínio partidário montado sobre a manipulação das esmolas disfarçadas.

Está prestes a sair do STF o ministro Joaquim Barbosa, por anunciada aposentadoria. Para todos os brasileiros que não se conformam com o império da corrupção impune, o ministro deixará uma imagem de competência jurídica, um legado de honra, firmeza e dignidade.

JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia.Texto publicado originalmente no jornal A Tarde/BA 28/06

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