Dilma e Borges em Salvador : depois do afago, a queda.

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ARTIGO DA SEMANA

Queda do Ministro e a dentada de Suárez

Vitor Hugo Soares

A pancada pelas costas que recebeu, esta semana, da presidente Dilma Rousseff, deve ter doído mais na pele e na alma de Cesar Borges – ex-governador da Bahia e ex-senador da República, retirado abruptamente do Ministério dos Tranportes do governo petista -, que a dentada do atacante da seleção uruguaia, Luis Suárez, no ombro do jogador italiano Chiellini.

No primeiro caso, uma manobra política do pesado jogo nacional de poder em curso no país, com vistas às eleições presidenciais deste ano. No segundo, um fato de repercussão mundial, registrado pela câmera de um cinegrafista da TV Globo, na partida que mandou a seleção da Itália de volta para casa, ainda na primeira fase desta tão espetacular quanto polêmica e desconcertante Copa do Mundo de 2014, disputada no Brasil.

Ainda no meio da intensa fumaça dos festejos juninos no Nordeste, junto com as mega-celebrações dos jogos do Mundial, Borges foi apeado quarta-feira, 25, do comando dos Transportes. Crucial e sempre problemática pasta do governo petista, onde até então ele só havia recebido elogios rasgados. A ponto de ser chamado de “o melhor ministro dos Transportes” pela sisuda mandatária do Palácio do Planalto, em suas mais recentes e frequentes passagens pela Bahia.

Borges, um ex-carlista (seguidor de carteirinha do falecido todo poderoso Antonio Carlos Magalhães) foi trocado no cargo, a pedido do comando de seu atual partido, o PR, pelo antecessor no posto, o também baiano e perrepista Paulo Sérgio Passos. Ato polítitico, eleitoral e cirúrgico, aparentemente executado sem uso de anestesia, depois de uma conversa de pé de ouvido e um aperto de mão palaciano da presidente. O médico ACM não teria feito melhor.

“Isso dói, e dói mais que uma mordida”, lamentam desde quinta-feira pelos cantos, amigos e aliados do ex-senador Cesar Borges. Dói, ainda mais cruelmente, quando alguns deles recordam das duas mais recentes visitas da presidente Dilma a Salvador, para participar de comícios eleitorais mal disfarçados em “agendas administrativas”: A inauguração da Via Expressa e a entrega, em fase de testes monitorados, dos primeiros sete quilômetros de trilhos do “metrô calça curta!” (a expressão é do próprio governador petista Jaques Wagner, em discurso no dia da festa de entrega).

Nas duas ocasiões, causaram inveja e provocaram ciúmes em históricos companheiros petistas, os abraços e sorrisos agradecidos de Dilma, as imagens e expressões afetuosas de simpatia mútua. Somados aos renovados aplausos e elogios explícitos em pronunciamentos públicos e entrevistas, ao seu então ministro dos Transportes, descartado esta semana, e arrumado às pressas em um cargo de consolação na área de administração dos Portos no País.

Em abril, por exemplo, quando esteve no estado para inaugurar a Via Expressa da capital, a presidente deu uma entrevista exclusiva na Radio Metrópole, em um dos programas de maior audiência em todas as classes no estado, comandado pelo radialista Mário Kertész, ex-prefeito de Salvador.

Na conversa com Kertézs, depois do programa que teve forte repercussão local e nacional no terreno da sucessão, a figura de Cesar Borges, político e gestor, foi elevada às alturas pela presidente. “O melhor ministro dos Transportes”, assinalou Dilma, sem rodeios. Em seguida, fez rasgados elogios à lealdade pessoal e ao profissionalismo de Borges.

Na época, vale lembrar, o PR já estava publicamente rachado, e uma parte da agremiação não fazia a mínima questão de esconder o desconforto e descontentamento com o governo federal. A turma escancarava para gregos e baianos, que Borges, embora filiado ao partido, não era nome de agrado do comando do PR para os Transportes.

Dilma fez questão de deixar claro, então, que o ex-governador gozava da sua inteira confiança, demonstrando a cada momento que a situação do partido de Borges não teria nenhuma interferência na continuidade da presença dele em seu governo. Na festa do Metrô de Salvador, as imagens e demonstrações de mútua confiança e lealdade entre Dilma e Borges foram ainda maiores e repetidas. A ponto de provocar ciumeiras gerais nas hostes petistas e aliadas, a começar pelo ex-secretário Rui Costa, claudicante candidato do PT à sucessão do governador Jaques Wagner.

Vale lembrar ainda: o notório ex-deputado Waldemar da Costa Neto, recolhido na Papuda entre os presos condenados do Mensalão, ainda demonstra preservar voz ativa e muita força no comando do PR e das barganhas do partido para garantir apoio à reeleição da atual ocupante do Palácio do Planalto.

Na terra de Cesar Borges, quase ninguém duvida de que a boca e os dentes de Waldemar estão por trás da mordida no pescoço de Borges, que determinou esta semana a sua queda do ministério do governo petista.

Diante das circunstâncias, mais que a mordida do uruguaio Suárez, o episódio soa com o timbre e os versos de “Fado Tropical”, notável composição de Chico Buarque e Ruy Guerra:

“Quando me encontro no calor da luta/ Ostento a aguda empunhadora à proa,/ Mas meu peito se desabotoa. /E se a sentença se anuncia bruta/ Mais que depressa a mão cega executa,/ Pois que senão o coração perdoa./ Ai essa terra ainda vai cumprir seu ideal/ Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.

Ou não? A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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