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CRÔNICA

Notícias da Copa, em Salvador

Aninha Franco

Para cada jogo da Copa que aconteceu no Brasil, chegaram milhares de
acompanhantes dos seus times, com curiosidade sobre a terra visitada e
dinheiro para fazer o percurso. E um dos objetivos do governo, em
2007, quando concorreu à Copa da Fifa no País, e construiu,
reconstruiu e reformou 12 estádios para algumas cidades que não precisarão
deles nunca mais, era mostrar o Brasil, ainda desconhecido, ainda com
a capital em Buenos Aires, ainda produtor de mulatas & futebol, ao
Planeta. Ok.

Em Salvador, os gringos chegaram e se instalaram na única Urbis da
Cidade, dona dos primeiros e melhores zócalos do Estado, maltratada
pelo governo estadual há sete anos e dois meses, e por ele maquiada há
dois meses para cumprir sua função receptora. Mas, além de assistir
aos jogos, os gringos quiseram, e era o previsível, conhecer sua
cultura, as criações do seu terroir, sua gastronomia, memória, arte,
entretenimento. Aí, foi um desperdício. – “Queremos conhecer a
gastronomia local por um preço razoável”, me pediu um casal
suíço/peruano, e eu os levei ao Café Gourmet, lotado, para saborear
uma moqueca de carne. “Os holandeses estiveram aqui?”. Ouvi dos
holandeses que invadiram o Pelourinho, em festa, diversos dos de 1624.
“Quem é Calabar?”. Fui ouvindo de Odaccar e Michael, enlouquecidos com
as obras de Frans Post (1612-1680) e Albert Eckhout (1635-1664),
registros preciosos do Brasil do século 17.

Alguns tentaram trocar as passagens para assistir ao festival de
música da cidade, que nada mais era que os festejos de São João, que a
Fifa nem queria. No mais, os restaurantes que recebiam em outros
idiomas, além do brasileiro, e que esperavam uma copa, receberam
batalhões de sedentos e famintos, em momentos inacreditavelmente
únicos, como o espanto de um holandês, com uma lata de Skin nas mãos,
de como um rótulo laranja pode conter uma coisa tão ruim.

Brasil, Bahia, Brasil, o processo de globalização avança na velocidade
da luz. É péssimo não ter identidade no Planeta. Despertar a
curiosidade e o espanto com o quê? Mas quem tem, como nós, a
baianidade manifesta na gastronomia, no idioma, no gestual, na música
e na memória, tem mais que identidade. Tem personalidade. E ter tudo
isso e não saber usar, é como viver no paraíso e ignorar que a
serpente só dá cartão de visita e diz onde mora a quem importa. Pra quem não
importa, a Natureza é morta.

Aninha Franco é premiada autora teatral, cronista e poeta da Bahia

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Comentários

Rosane Santana on 22 junho, 2014 at 14:55 #

Na veia!


luís augusto on 25 junho, 2014 at 10:11 #

Caro Vítor, parabéns por essa aquisição do BP. Será que ele foi mesmo banida de A Tarde? Ou se retroagirem e publicarem sua crônica censurada ela voltará?


vitor on 25 junho, 2014 at 11:26 #

Luiz

Só A Tarde ou a própria cronista podem responder à sua interrogação.

O que o editor deste site blog antenado no mundo e no Por escrito pode dizer é que o Bahia em Pauta não cabe em si de tanto contentamento e honra com a presença de Aninha Franco em suas hostes. Temporária ou permanentemente.

Abs. Vitor Huho


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