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CRÔNICA

Dilma e os picolés de Senegal

Janio Ferreira Soares

Passava um pouco das 22 horas da quarta-feira, 11/06, quando conseguimos ligar o enorme telão montado na Vila do Forró. Logo após, Reginaldo, um simpático baiano da empresa que o instalou, começa uma silenciosa batalha para sintonizar um canal digital que vagueia pelos ares de Paulo Afonso. Depois de várias tentativas, finalmente Regi consegue capturá-lo e, como num prenúncio de um sonho bom, a primeira coisa que surge na tela é o sorriso de Bruna Marquezine. Muitos curiosos se aproximam, elogiam a qualidade da imagem e perguntam por que a novela está sem som. Explico que é apenas um teste e eles seguem em frente.

Perto da meia-noite, com a Vila praticamente vazia, sento próximo a uma casinha cenográfica e fico observando o clarão dos pixels iluminando centenas de bandeirolas que, quando açoitadas pelos ventos invernais, sibilam freneticamente como se fossem pássaros de plásticos querendo ganhar os céus do sertão. De repente ouço uma voz metálica vinda do nada. É o velho Senegal, uma folclórica figura dessas bandas, que vive com um megafone na mão e uma cartela de tarja preta no bolso. Ele pergunta o nome da garota que está decorando uma barraca e ela, desconfiada, responde: “Giza”. Ele então liga o megafone e diz que vai recitar uma de suas poesias inspiradas em velhas canções. “Giza, eu te conheço não sei de onde. Não sei se foi no ônibus da Rua da Frente ou numa boutique da Rua São Francisco. Te lembra, Giza, daquele sorvete de João Mariano? ”. A nova “Menina do Lido” sorri, e Senegal, antes de sumir na noite com a mobilidade de um astronauta de mármore, promete voltar pra vender picolés na hora do jogo.

A quinta-feira amanhece como se a chuva e o sol disputassem um concurso de quadrilhas conduzido por alguém do Clima Tempo (“adiante, cavaleiro solar, solta teus raios pra mostrar quem é o rei do firmamento! ”). (“Volta, dama da garoa, pra trazer sustança a este sertão sofredor! ”). Caminhões descarregam caixas e mais caixas de cervejas e alguns barraqueiros reclamam da energia; das barracas; de São Pedro; de Deus; do mundo. Regi se aproxima com um monte de fios e um cigarro entre os dedos. Pergunto-lhe se está tudo certo e ele, soltando fumaça pelo canto da boca como um personagem de um filme francês rodado no Pelô, responde: “bote fé, papá! ”.

O som é ligado e uma voz dá início ao famigerado “alô, som, 1, 2, 3, tss, tss, testando! ”. Imediatamente me lembro de quando meu tio Lindemar foi vender sua velha difusora e assim que o comprador começou com essas mugangas, ele, sem aguentar a chatice, falou: “pode levar, pode levar, que depois a gente acerta qualquer valor”.

Perto das 16 horas Galvão Bueno chama o indefectível Olodum e, não sei se pelo déjà vu ou pela apreensão da estreia, tenho a impressão de ter visto o plasma de Michael Jackson flanando entre tambores, baquetas e dreadlocks. A chuva dá uma trégua e os torcedores começam a chegar com suas bandeiras e vuvuzelas. Araucárias de araque desfilam trôpegas sobre o psicodélico piso do Itaquerão, enquanto Dilma é xingada pela torcida. Senegal encosta e diz, baixinho: “esse pessoal não sabe com quem tá mexendo. Tenho informações de que Dilma é faixa preta Shotokan. Repare só no seu olhar de ninja! ”, e sai anunciando seus picolés no velho megafone com as alcalinas pedindo penico: “pra Croácia tem de mangaba; pra Felipão tem de limão; e pra Neymar tem de cajá”. Acredito que, em solidariedade a uma assustada presidente, ele não arriscou nenhuma rima com os de caju e os de umbu.

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Comentários

archibaldo on 12 outubro, 2014 at 0:54 #

Caro Jânio: sou um modesto clínico geral, não nos conhemos, mas tenho um “randicap”: leio suas “leras” n’A Tarde. |hoje, após ler “O segundo turno da Nalvinha”, figuei com a certeza, nítida impressão, que se nos batermos um dia, vamos perceber que já nos conhecíamos a longo tempo (nada transcendental!). Coisas banais, apenas sentidas pelo vento chega.
Archibaldo


Luiz do Campo Grande on 22 novembro, 2014 at 9:52 #

Aquele Zé da Silva sabia das coisas! Janista de 4 costados: Janio, Jane. Quando leio suas saborosa crônicas, lembro-me muito dele com aquele vigore preto, no Bar do Miguel, escutando as musicas escolhidas pelo Zé Laet. Belos tempos, sob as suas memórias. O Cote du Rone aguarda-o com aquele atum que acabo de trazer da velha Lisboa. Grande abraço do Luiz do Campo Grande


Luiz do Campo Grande on 22 novembro, 2014 at 9:53 #

Eu quis dizer bigode e não vigore


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