Família faz um selfie antes da abertura da Copa, na Arena Itaquerão (SP)
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DEU NO tERRA MAGAZINE

Antonio Prada

Faltam poucas horas para a bola rolar e apesar de tanta hipocrisia e tanto oportunismo, de todos os lados, como frisou bem Luiz Gonzaga Belluzzo a Bob Fernandes (leia no TM a entrevista), a Copa já deixou um legado, que são as demandas por um país melhor. Eu acrescentaria um outro, nascido das tramas maquiavélicas e sujas do futebol, o bairro de Itaquera, que nunca mais será o mesmo, assim como a região que o cerca.

Na véspera de abertura da Copa, enquanto Felipão e Neymar sorriam e brincavam na concorrida entrevista coletiva, centenas de trabalhadores maquiavam o ainda inacabado estádio e vários serviços funcionavam precariamente, como a conexão de internet e o restaurante do centro de mídia habitado por mais de 1000 jornalistas, o bairro fervia.

Milhares de pessoas orbitavam ao redor da arena, como que embriagadas pela materialização da Copa. Cores e sotaques entrelaçados. Turistas-torcedores, de várias nacionalidades. E a população local, que já adotou a área como ponto de encontro e de celebração. Ao redor, e pela artéria Radial Leste que une a região ao centro, pontos comerciais e residenciais não hesitam em gritar pela Copa, com bandeiras nas janelas, enormes pinturas em fachadas e um clima de festa.

A euforia pela Copa e pelas transformações no bairro não é unânime, claro. Há milhares de desalojados, que ainda tentam brigar pelos seus direitos. Aluguéis em geral já estão em média 25% mais caros, pressionados pela inevitável especulação imobiliária.

Mas entre lados, prós e contras, há um inevitável orgulho no ar. Não há como negar. No metrô lotado que liga o centro da cidade ao bairro, que recebeu o primeiro trem em 1875 e em 1920 passou a ser um distrito autônomo de São Paulo, uma senhora com o filho no colo, com brilho nos olhos e o estádio enquadrado na janela do trem, celebra para um passageiro ao lado: “estou muito contente. Nunca esperava que isso acontece algum dia. O bairro andava triste e cansado. Agora está diferente. Não sei se vai durar. Algo muito importante vai acontecer do lado de casa. Queria que meu pai estivesse vivo para poder ver isso. Quando ele chegou aqui era uma região rural, sem esperança”.

Itaquera, da perifa e das chácaras, encontra o mundo. E o mundo encontra Itaquera. Do outro lado do mundo. Seria muito mas fácil, mas prático, mais confortável, mais razoável e muito mais econômico escolher o Morumbi. No lado rico da cidade. Mas as mazelas do futebol elegeram Itaquera. Da classe C. Do vai Corinthians.

Qual o legado da Copa? Itaquera, que em tupi significa “pedra que dorme”, pode ter a resposta. E acordar.

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