CRÔNICA

Junho de Copa, de santos e de balões

Janio Ferreira Soares

Apesar de todos os esforços que o pessoal da Globo vem fazendo para o Brasil entrar no clima da Copa, o que se percebe, a apenas 5 dias do seu início, é que, definitivamente, algo mudou no país do futebol.

Além das poucas ruas enfeitadas, das raras bandeiras brasileiras estendidas nos parapeitos das janelas e do quase inaudível “pra frente Brasil” de agoniadas eras, o que se vê, até o momento, são os mais de 200 milhões de brasileiros num misto de torcida e prontidão, logicamente querendo que Neymar arrebente contra os gringos, mas, acima de tudo, desejando também um transporte público bacana que os leve pra casa a tempo de assistir os Simpsons na TV; que no dia seguinte seus filhos sigam em total segurança para excelentes escolas públicas de tempo integral; e, finalmente, quando o velho esôfago pedir arrego depois de tantos jogos regados a churrasco e cerveja, que neguinho seja atendido num belo hospital público, com a mesma presteza que a turma do Sírio Libanês dispensa a Lula, Dilma e FHC durante seus exames de rotina.

Mas enquanto esses desejos permanecem apenas no campo das hipóteses desse velho Brasil (onde as fofocas eletrônicas pululam, as políticas rasteiras campeiam e as propagandas imbecis imperam), uma silenciosa garoa me faz mudar o rumo da prosa e, mais uma vez, me vejo forçado a abrir o velho baú onde mora o resfolego da sanfona, para saudar os maneirismos que resistem nas trincheiras onde hibernam os junhos. E aí, meus amigos e minhas amigas (dá-lhe, Saldanha!), quando eles acordam e se instalam, como esse que hoje completa sua primeira semana de vida, o sertão deixa de ser aquele eterno campo-santo coberto de ossadas sem lápides, para se transformar num delicioso prato de canjica salpicada pela canela da felicidade.

Mês regido pelos simpáticos Antônio, João e Pedro, santos festeiros por natureza, junho encurta os dias e alonga as noites; faz chover de mansinho; provoca ajuntamentos de pés sob lençóis de lã; deixa a caatinga mais verde do que aquele que veste a poesia de Leminski; e provoca em mim aquela sensação de estar sendo repetitivo (quem nunca, que atire a primeira redundância), fato que me obriga a conferir velhos artigos, atualmente convivendo com um monte de tralhas e boletos que a gente vai guardando em caixas e sacos plásticos, provavelmente temendo que a Coelba cobre de novo aquela conta de energia de maio de 1973 – paga no Baneb -, ou que o Ricardo enlouqueça de vez e coloque seu nome no SPC pelo não pagamento de uma das 24 prestações daquela TV de plasma comprada para assistir a Copa de 2010, cujo carnê só foi quitado totalmente no mês da abertura das Olimpíadas de 2012.

E, entre convites de aniversários que não fui, livros de Paulo Coelho que não li e cartas de amor que eu não mandei, encontrei, sim, alguns artigos que falam da minha emoção de sentir o cheiro dos filhos ausentes na trezena de Santo Antônio da Glória; de ver Gil cantando “… olhando pra Paulo Afonso eu louvo os nossos engenheiros…”, num entardecer de junho de 2007, calmamente sentado nas pedras do cânion do Rio São Francisco; dos pequenos fragmentos de luz dos balões passando por cima das cumeeiras das casas dos povoados daqui; das inúteis rezas pra Irmã Dulce amarrar os pés de Maradona…

Enfim, como diria o meu xará da vassoura, me vejo na obrigação de dizer-lhe que, de alguma forma, sou um plagiador de mim mesmo e, provavelmente, sê-lo-ei de novo, todas as vezes que as cores, os cheiros e as garoas de junho tornarem a bater no vidro da janela do meu quarto de dormir.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco, bem no portal de entrada do Raso da Catarina..

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