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Brasil, com ou sem futebol

Gilson Nogueira

Aos cinco anos de idade, ouvi, pela primeira vez, um grande silêncio. E ele dizia, “não chore, futebol é assim mesmo, quem canta de galo, antes do jogo terminar, se lenha, ou melhor, aprende a lição, queira ou não queira, para o resto da vida”.

O tempo passou. E aquele choro escondido de minha mãe deu para não esquecer, jamais. Foram lágrimas verdes e amarelas. A alegria derreteu-se no seu rosto.Até hoje, nos seus 90 anos de vida, de divina sabedoria, minha mãe fala, baixinho, sem maquiagem, sorrindo, do desastre brasileiro, no Maracanã, contra o Uruguai, na final da Copa de 1950, com a voz pontuando o célebre “o que passou, passou”, no conformismo natural de quem não precisa de remédio para deletar da cabeça o que não vale a pena.

Eu falei cabeça? Pois é, nela estão os neurônios que poderiam explicar, agora, os motivos dessa maresia, nas ruas de Salvador, a oito dias da estréia da Seleção no mundial de futebol da Fifa. Alíás, não precisa dizer mais nada. Até o sapo que fazia o maior barulho em uma boca de lobo na minha rua sabe as razões.

No calendário da bola, em uma semana, a Seleção entrará em campo, em busca do Hexa. Nunca, em tempo algum, testemunhei tamanha indiferença popular, em período de participação brasileira no mundial de futebol. Por isso, ao ver a bandeira do Brasil tremulando na janela de algum automóvel, em alta velocidade, escuto-a, também, a me dizer:

“ Acredite em mim, eu sou maior do que os corruptos brasileiros! Eu sou o maior que eles! Eu sou o povo do Brasil, esse gigante pela própria natureza, em busca da nossa grande vitória! Com ou sem futebol!”

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador de raiz do Bahia em Pauta

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