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Postado em 05-06-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 05-06-2014 00:19

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DEU NO JORNAL PÚBLICO, DE LISBOA

OPINIÃO

Maria Amélia Martins-Loução

O dia 5 de Junho é, desde 1972, o Dia Mundial do Ambiente. Foi criado a partir de uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, em resultado da Conferência de Estocolmo organizada pela ONU, de 5 a 7 de Junho desse ano, onde se discutiram as consequências para o planeta de um “desenvolvimento humano a qualquer custo”.

Para as Nações Unidas, este dia é um convite à reflexão e ao desenvolvimento de atividades que levem a população a ponderar sobre o impacto do homem no ambiente. Mas, mais do que iniciativas, é urgente colocar em prática ações concretas e transversais que levem os problemas reais ao conhecimento dos cidadãos. Lembro três iniciativas que contemplam a formação, cidadania e associativismo, que podem vir a constituir verdadeiros agentes de mudança.

1. Formação. Durante o mês de Maio/Junho terminam diferentes iniciativas financiadas pelo Ciência Viva, direcionadas a jovens estudantes do ensino básico e secundário. Dois destes projetos tiveram o apoio de investigadores do Museu Nacional de História Natural e da Ciência e docentes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Um teve como público-alvo o ensino secundário e o outro, o primeiro ciclo do ensino básico. A importância destes projetos reside na ligação entre diferentes níveis hierárquicos de ensino, um dos objectivos dos programas educativos da União Europeia. Estas interacções oferecem aos jovens estudantes novas oportunidades de aprendizagem sobre problemas reais, ao mesmo tempo que facilitam a integração e compreensão dos problemas científicos, a sua abordagem metodológica e o conhecimento responsável sobre ações a desenvolver em prol de uma sociedade inclusiva.

2. Cidadania. Teve início este ano o estudo de opinião sobre sustentabilidade e uso eficiente dos recursos e que pretende dar voz aos cidadãos portugueses sobre temáticas como a reindustrialização, desenvolvimento sustentável, “economia verde”, sustentabilidade energética. Para além do estudo de opinião, baseado nos resultados de um inquérito que cobriu setores distintos da sociedade portuguesa, o projecto liderado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa tem vindo a promover debates de norte a sul do país. O objetivo é estimular a cidadania ativa com base na divulgação científica. Financiada pela União Europeia e promovida pelo Centro de Informação Europeia Jacques Delors, esta iniciativa pode diagnosticar a percepção dos portugueses sobre os problemas ambientais e as suas propostas de ação e, simultaneamente, levar o conhecimento científico ao debate público.

3. Associativismo. A recém-criada Associação Portuguesa de Lixo Marinho, APLM, procura apoiar uma das grandes preocupações das Nações Unidas sobre o impacto dos lixos marinhos nos ecossistemas. Estima-se que existam 100 milhões de toneladas de plástico flutuando nos mares e oceanos que afetam os ecossistemas e a sua sustentabilidade. Este movimento associativo nasceu no seio da academia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, em resultado da investigação desenvolvida no âmbito de dois projectos europeus, que permitiram avaliar e testar, cientificamente, o impacto dos lixos marinhos nos habitats marinho, costeiro, estuarino e águas interiores. A APLM pretende contribuir de forma ativa para a sensibilização, consciencialização e co-responsabilização da sociedade para valores de consumo sustentável. Através da divulgação científica, debates e acções formativas, pretende fomentar a cidadania com práticas de solidariedade e preservação ambiental.

Como estas três, muitas outras iniciativas abundam por todo o país. Tal como as Nações Unidas preconizam, devíamos clamar bem alto a necessidade de olhar o planeta como se tratasse de uma ilha ameaçada pela subida da água do mar. Cabe ao Governo legislar sobre matéria de ambiente, fiscalizar e exigir o seu cumprimento e aos media a divulgação e publicitação de iniciativas que possam constituir verdadeiros agentes de mudança. Mas a sociedade terá de saber responder e apoiar estes desafios de forma consciente e responsável. Para isso, cabe às universidades divulgar e disseminar o conhecimento científico para permitir “agir glocal”, ou seja, levar os cidadãos a compreender que, ao desenvolverem acções locais, estão a promover repercussões globais. A grande maioria dos problemas ambientais reais podem ser minimizados com posturas individuais. No entanto, desconhece que, ao optar por uma selecção de produtos alimentares locais e da época, está a diminuir o impacto dos transportes e, consequentemente, as emissões de carbono e as necessidades de energia. O mesmo se passa com a apatia do público perante a necessidade, compulsiva, de comprar tudo embalado, em nome da segurança alimentar. Nem tudo seria necessário, e ao “permitir” essa prática estamos a colocar mais plástico em casa e no ambiente. Será importante que, ao longo deste dia e de muitos outros, cada um de nós pense em ações concretas de como minimizar o nosso impacto no ambiente. Este é o convite das Nações Unidas para este Dia do Ambiente.

Professora catedrática da Universidade de Lisboa

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