Paquito

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DEU NO SITE TERRA MAGAZINE

TUDO MISTURADO/JEQUIETCONG

Paquito

“A gente não escolhe ser artista, a gente é escolhido”, disse a meu amigo Iasbeck sobre o fato do seu filho ser músico. E, além da arte em si e do prazer do artesanato, artista não tem que realizar ações burocráticas e inúteis, a princípio. Apenas a princípio, porque, hoje, diante de editais de cultura, o artista e o produtor sensível se veem às voltas com exigências que se coadunam mais com a profissão de estatístico, por exemplo: precisar a quantidade de público que vai consumir o seu produto artístico, seja dvd, cd ou instalação.

E tem aquelas divisões entre justificativa, resumo, descrição e objetivos, empobrecedoras pra quem se dedica a encontrar a palavra exata e simples quando compõe uma canção. As planilhas orçamentárias vem com tantas especificações quanto aos itens do projeto, que as empresas e o Estado tem que promover workshops pra ensinar como se faz. Fosse simples, não precisava tanto, né?

Por isso mesmo, só acreditando fazer parte do contigente judaico-cristão que crê no sofrimento como prévia de um destino de eleição pra suportar as horas despendidas em fornecer informações absurdas e inúteis. Talvez um dia, como a gente lembra do tempo em que as grandes gravadoras mandavam no mercado da música, a gente também se recorde da era dos editais: “quanto clichês usávamos pra definir coisas que, a princípio, não se definem”? Se a era dos editais se seguiu ao tempo das majors do disco como um meio de apoiar o que não tem lugar mais definido de mercado, vê-se que há exigências análogas às das grandes gravadoras, e até mais desconectadas da realidade do fazer artístico.

Pois foi saindo de uma dessas semanas de autoflagelação que, caminhando e respirando o ar matutino da Vitória em direção à praia, me dei conta, distraidamente olhando as manchetes de jornal em bancas de revista – que eram o google da minha adolescência, pois naquelas cabaninhas se vende e se encontra de tudo -, das palavras de Pelé conclamando a população brasileira a separar a seleção brasileira de futebol das mazelas do país.

Desde que nasci, o futebol no Brasil parecia existir sob o signo do sagrado, sem situação social ou política que o maculasse. Agora, às vésperas da Copa, promessas e inícios de protesto como se viu na recente Copa da Confederações. Desmandos da Fifa, falcatruas na CBF: as notícias a respeito do jogo fora de campo, em que se envolve o futebol, só contribuem para o desencanto atual com a prometida festa. Mudamos? Crescemos? Acordamos? Sonhamos em vão?

Na mesma banca em que li a tal manchete, perguntei ao vendedor se ele estava animado pra Copa, e a resposta foi:

– Não dá, tá tudo misturado, o que a gente vive e o futebol!

A primeira Copa em que torci conscientemente foi a de 1974, seguindo-se ao estardalhaço de 1970 quando tinha apenas seis e só sabia cantar a música de Miguel Gustavo, hoje tão relacionada à ditadura militar que dá vergonha de cantar. Depois veio a de 1978, com Coutinho e o que Millôr chamou de “invictória”, pois o Brasil não perdeu nenhum jogo, mas também não levou a Taça.

Quando chegou 1982, eu já tinha desistido de torcer e fazia de conta que não ligava, assistindo aos jogos com minha turma recém-saída do secundário. O Brasil perdeu pra Itália, fiquei gozando os amigos mais apaixonados, mas era só cena, pois o que nunca me esqueço é da paixão genuína de meu amigo Genebaldo, quase morrendo diante da derrota brasileira. Na Copa seguinte, Genebaldo não desistiu e ficou em frente à tv, quase correndo com Careca em um dos jogos, e gritando:

– Vai, Careca! Vai, vai…

E Careca foi, mas não chegou, ou não fez o gol.

A lembrança de meu amigo diante da televisão me comove mais que as multidões que se vê nos estádios e telas. Talvez porque multidões não tenham cara, e ali, mesmo acompanhado, ele estivesse só. Os outros amigos não estavam ligando muito – aquela seleção de 86 parecia ser a rebarba de 82 – mas ele ficou até o final, acreditando.

Mesmo sentido uma nostalgiazinha de adolescente, com o frisson que rolava quando se aproximava o período da Copa, com a nossa decepção ancestral e cumulativa, após tanto tempo – e uma transição democrática feita a remendo, sem resolver nossas questões mais básicas – dá pra ser como Genebaldo e torcer genuinamente pelo Brasil no futebol?

Paquito , musico, compositor e interprete, foi gravado por Maria Bethânia, Jussara Silveira e Sarajane. Produziu, com J. Velloso, os cds Diplomacia, de Batatinha e Humanenochum, de Riachão. Gravou os cds Falso baiano e Bossa trash

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