O livro revelador de Paulo Cesar Araújo

==========================================

O magistrado exemplar que deixa a Corte

========================================

ARTIGO DA SEMANA

PAÍS DO INSÓLITO E DOS ESCÂNDALOS

Vitor Hugo Soares

O tempo passa, o tempo voa. Embora até a instituição financeira e a caderneta de poupança dos versos da propaganda famosa tenham virado pó e pesadelo há muito tempo, o País parece inabalável e arraigado em sua “cultura e tradição” de paraíso do insólito e dos escândalos.

Fatos que marcaram esta última e surpreendente semana de maio de 2014, demonstram isso, sobejamente. E registre-se que não está incluída, na relação, o anúncio inesperado e desalentador, na quinta-feira, 29, da aposentadoria precoce do ministro Joaquim Barbosa. Ele deixa ao mesmo tempo, no fim de junho que vem, a presidência do Supremo Tribunal Federal (cujo mandato se esgotaria no final do ano) e o posto de membro singular da Corte Suprema do Brasil, onde poderia permanecer, se o desejasse, por mais quase 11 anos.

Este caso, é preciso repetir, não se inclui em nenhuma das duas categorias citadas no título e na abertura deste artigo. As razões pessoais alegadas pelo próprio Joaquim Barbosa, para o seu afastamento, são dignas e aceitáveis, principalmente as razões de saúde. A situação se aplica mais ao rol das perdas e danos gerais do Brasil destes dias.

Perdas e danos nos limites do Poder Judiciário e muito além deles: Da guarda sem titubeios da Constituição à firme aplicação das leis (a exemplo do que ficou evidente no caso do Mensalão); da sensibilidade política, da inteligência, conhecimento e cultura, à conduta ética e inabalável coragem cívica das personalidades marcantes. Retas e avessa aos salamaleques e tapinhas nas costas.

Um doce de coco, de temperamento, evidentemente que Joaquim Barbosa não é. Isso seria exigir demais e já tem gente de sobra fazendo esse papel por aí. O fato é: sua saída é um baque, cuja amplitude e consequências ainda são impossíveis de avaliar, mas cujos efeitos logo o País e a sociedade começarão a sentir e pesar. A conferir.

De volta então aos episódios referidos no começo.

No primeiro caso, o insólito da flechada do indígena na perna do policial militar, durante os protestos em Brasília, nas imediações da “arena” do Planalto. No segundo, o novo (sem novidade nenhuma) depoimento blindado por todos os lados e sem contraditório, da presidente da Petrobras, Graça Foster. Lastimável encenação, do começo ao fim.

O terceiro fato é o perfil jornalístico primoroso de Paulo Cesar de Araujo – autor da biografia não autorizada do cantor Roberto Carlos, – que acaba de lançar um livro mais explosivo ainda, narrando os bastidores do processo que proibiu a venda de sua obra no País. Texto assinado por Camila Guimarães e publicado na edição comemorativa do 16º aniversário da revista Época. Neste caso, o insólito e o escândalo se entrelaçam a cada página.

Lá pelos anos 70, quando a ditadura apregoava maravilhas do “milagre econômico brasileiro”, eu trabalhava no Jornal do Brasil. Gostava de tirar uns dias a cada ano, para viajar pela Argentina e Uruguai. Ver profissionalmente e viver pessoalmente a vida naqueles anos loucos, nas duas margens do Rio da Prata, entre Buenos Aires e Montevidéu.

Na época, regimes discricionários e opressivos dominavam praticamente todos os principais países da América Latina. Sobre essas nações, na mais ampla e vergonhosa cumplicidade, sobrevoavam livremente os “especialistas” da Operação Condor, uma das mais terríveis e desumanas experiências de repressão, interrogatórios e torturas em qualquer tempo. Nas funduras dos regimes, mortes, desaparecimento, choro e ranger de dentes.

Ainda assim, havia resistência e esperança. Temperadas com bom vinho, ótima carne e muita utopia, que regavam conversas e “informes” clandestinos nos cafés, bares, hotéis, estâncias e feiras de antiguidades. Mal comparando, algo parecido com aqueles legendários e incríveis personagens do filme Casablanca, um Cult universal do cinema.

Aliás, para mim, a romântica capital uruguaia sempre se constituiu em uma espécie de Casablanca da América do Sul. Sem Bogart, Ingrid Bergman e o pianista Sam, evidentemente. Fascinava-me em Montevidéu aquele ambiente de conspiração política dos exilados que lá se abrigavam, misturado com as lembranças saudosas e comoventes de seu País, do outro lado da fronteira, mas inalcançável para eles. Coronel Dagoberto Rodrigues e dona Lourdes (falei sobre eles por telefone recentemente com o poeta Thiago de Melo emocionado na outra ponta da linha), jornalista Paulo Cavalcante Valente, Leonel Brizola, dona Neuza Goulart e tanta gente mais.

Paulo Valente sempre me dizia nas conversas do exílio: “Baiano, uma coisa que me espanta nas notícias do Brasil, é a capacidade inesgotável de produzir fatos insólitos e de absorver escândalos. Cada semana um escândalo novo e maior substitui o anterior e tudo segue no vai da valsa”, dizia o jornalista alagoano/carioca, que embarcara com Brizola nas primeira levas de exilados brasileiros para o Uruguai.

Recordo ao ler a reportagem da Época sobre o livro de Paulo Cesar de Araújo, “O réu e o Rei –minha história com Roberto Carlos em detalhes”. Um desses detalhes narrados pelo autor é emblemático. Ao final do julgamento, depois que os advogados da editora Planeta aceitaram o acordo que proibia a venda do livro sem consultar Araujo, o juiz Térsio Pires tirou de uma bolsa um CD de sua autoria e entregou a Roberto Carlos. “Também sou cantor e compositor, com o nome de Thé Lopes. Gostaria muito que você ouvisse e desse sua opinião sincera”.

Mais não digo, nem precisa. A não ser que o ministro Joaquim Barbosa vai fazer falta ao deixar a Corte. Muita falta.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia m Pauta.

E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 31 Maio, 2014 at 14:47 #

Caro VHS

Por sorte a temporada de loas ao “herói nacional” está terminando.

Com a aposentadoria e a nova vidinha em Miami, o ministro poderá viver sem constranger jornalistas, com sua natural e habitual truculência. Nenhum foca precisará chafurdar no lixo.

E meu caro VHS, um ponto que sei tocar tua sensibilidade, ninguém mais precisará fingir esquecer a Lei Maria da Penha. Eros Grau não permanecerá só na sua lembrança.

Prefiro a vidinha sem heróis e o desfile diário das fraquezas e vilanias dos personagens.

Dá menos medo, o contrário lembra, em muito, enredos sombrios dos que sonham em ser apenas pequenos ditadores de ocasião.

Quanto à justiça, repito só para não esquecer, é atributo divino, não tem relação nenhuma com o nossa pobre, parca, morosa e envergonhada administração do direito.

Vida que segue!!!

Tim Tim!!!


luiz alfredo motta fontana on 31 Maio, 2014 at 17:33 #

Caro VHS!

Todo mundo na infância conheceu algum coleguinha que na hora do aperto dizia: “não brinco mais, vou para casa, minha mãe está me chamando!”

Normal, sempre acontecia, só era chato quando o “fujão” era o dono da bola.

Chato, mas não era caro, não era oneroso, não atingia o patrimônio sempre escasso de nossas “mesadas”.

Pois é!

Barbosa, não quer mais brincar, dizem as más línguas que o motivo é evitar ser comandado por Lewandowski. Fazendo pouco caso da formula nada democrática, é verdade, que o levou a presidir o STF. A tal antiguidade. Como é sabido o Judiciário é o menos democrático dos poderes, e desde o primeiro dia os ministros já sabem data e hora de ascender ao posto máximo. Salvo as deserções dos que os antecedem, como no caso presente.

E quanto custará a deserção?

Por baixo, considerando que Barbosa só fará 70 anos em outubro de 2024, desprezando-se os meses que faltam para seu aniversário, temos 10 anos, ou 120 meses ao custo de R$ R$ 29.462,25/mês, ou seja R$ 3.575.470,00, que algum afortunado por indicação de Dilma, face ao abandono de Barbosa, irá perceber no período.

Saudades dos fujões da minha infância.

Não custavam nada e ainda eram motivo de chacotas.


Jadilson Rodrigues on 1 junho, 2014 at 1:11 #

Esconder provas no Inquerito 2474, desrespeitar Ministros, subverter a Lei de Execução Penal, perseguir presos, violar a Lei da Magistratura ao ter empresa em nome dele, usar dois pesos e duas medidas quando o caso envolvia o PT e o PSDB é defender a Justiça e a Constituição? Pedir aumento do salário dos ministros para 40 mil e depois se aposentar sabendo que se aprovado ele vai receber também?
Joaquim Barbosa já vai tarde e a Justiça e a Serenidade retornam ao STF! A história vai mostrar o serviço que ele prestou as elites!


Graça Azevedo on 1 junho, 2014 at 13:48 #

Não gosto de gente que se promove muitas vezes passando dos limites éticos. Não tolero homem que bate em mulher.
E me dói, aposentada do INSS, ver como os “honestos”, dos tres poderes, são capazes de garantir o futuro sem nenhum escrúpulo. E somos nós que devemos passar privações em nome da “segurança da previdência”.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos