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Antonio Balbino, ex-governador da Bahia:trem da memória
Foto: Jornal da Metrópole
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ARTIGO DA SEMANA

Justiça e Memória: a semana de Zavascki e Gabrielli

Vitor Hugo Soares

“- Doutor, tenho ao meu lado o Direito.

– É pouco – respondeu o juiz”.

(Raimundo Reis, antigo deputado do PSD e cronista do cotidiano na Bahia, no livro de memórias “Enquanto é Tempo”. )

Diante de dois fatos cruciais nesta encrespada semana de maio (os recuos e vacilações do ministro Teori Zavascki, do STF, no julgamento do habeas corpus dos presos da Operação Lava Jato, e do ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, no depoimento à CPI do Senado para “apurar” malfeitos na compra da refinaria Pasadena pela estatal brasileira) , recorri à releitura de “Enquanto é Tempo”, de Raimundo Reis, citado acima.

“Enquanto é Tempo”, escrito e publicado por conselho e insistência de um vaqueiro da fazenda do autor, que ainda deu a indicação do título genial para um livro de recordações pessoais, trata da vida, contada aleatoriamente ao correr do tempo e eventos. Bem ao modo e estilo livre, original e sempre surpreendente de Raimundo, mas sem se levar demasiadamente a sério nem tomar a sério demais a muita gente “metida a besta” que o rodeava na política e no poder nos bons e maus tempos que ele atravessou.Principalmente nos bons.

O relato cobre décadas da história baiana e brasileira, principalmente o tempo em que – à moda da canção famosa de Gilberto Gil – “quem governava era Antonio Balbino” , então mestre do pessedismo estadual e nacional: vai do parto complicado na chegada ao mundo do neto do poderoso Petronilo Reis (o coronel Petro), respeitado até por Virgulino Ferreira, o Lampião, em suas incursões de temido cangaceiro pelo sertão do Rio São Francisco, em Santo Antonio da Gloria, até os anos 60/70.

Nos anos da ditadura, o autor já se transformara em inquieto parlamentar da Assembléia Legislativa da Bahia e brilhava, também, na condição de um dos mais cultuados intelectualmente e lidos cronistas do jornalismo impresso e radiofônico na sua terra. Citado até por Castelinho, na célebre coluna política do Jornal do Brasil.

O livro fala de coisas do amor, da imprensa, da família, da política, do direito e aplicação da justiça, da ética, retórica e atuação prática dos homens públicos na Bahia e no país. Registre-se que “Enquanto é Tempo” é um livro publicado em 1976, pela extinta Editora União, de Salvador. Raridade que ganhei de presente de Claudio Leal, ex-repórter da revista digital Terra Magazine, atualmente cumprindo pautas de “frilas”, entre São Paulo e Paris. Textos refinados do tipo do perfil do poeta Thiago de Mello, que ele produziu na Amazônia e publicou recentemente na Folha. Primoroso trabalho de jornalismo cultural, cada vez mais raro no Brasil das celebridades de estação e ídolos de barro.

Os ainda mal explicados fatos desta semana – protagonizados pelos sisudo e aparentemente inflexível ministro Teori, no Supremo, e o economista Gabrielli, atual secretário de Planejamento do governo Jaques Wagner (PT), ex-presidente da Petrobras no Governo Lula, na CPI da estatal no Senado, são emblemáticos deste tempo temerário. Igualmente exemplar (no pior sentido da palavra) é a própria CPI de fachada, tocada a muque pelo presidente do Congresso, Renan Calheiros, e a maioria governista, sem contraditório, sem cobertura crítica da imprensa, sem reações firmes da oposição ou da sociedade, em complacente compasso de espera do começo da disputa da Copa do Mundo. Espaço amplo de esquecimento, apostam os sabidos da vez e os de sempre.

Comparado tudo isso, deste maio de 2014, das eleições gerais no Brasil, com alguns relatos do livro em questão, temos a constatação cristalina: além da enorme capacidade do autor de trafegar soberanamente entre o mítico e o real (a ponto de confundir seus biógrafos, como previa o escritor Guido Guerra antes de morrer), o livro surpreende, também, pela invejável atualidade de seus escritos e narrativas.

Para provar, vejamos o resumo de uma delas.

Num fim de tarde, no tempo em que a Assembleia baiana ainda funcionava na Praça da Sé, centro histórico de Salvador, onde hoje está a sede da Associação Baiana de Imprensa, o senador Pereira Moacir – “um dos filósofos do PSD”- fez uma observação ao autor, com ares de quem dá conselho. Isso, na hora em que Raimundo Reis era o centro das atenções de uma roda política na histórica Rua Chile, um dos lugares mais vigiados da cidade em tempos de mudanças dos ventos do poder e da política na Bahia e no País.

– Você tem um grave defeito como político. Possui uma memória privilegiada – alertou.

Pura verdade. Quando era deputado, o autor de “Enquanto é Tempo” sabia de cor e salteado o Regimento Interno da Assembleia Estadual. Assim, deu muito trabalho ao “amigo velho”, presidente Orlando Spínola, “no encaminhamento de polêmicas e explosivas questões de ordem”.

Conta Raimundo que foi, certa vez, de navio (Vera Cruz) ao Rio. No meio do caminho houve uma festa com muitas brincadeiras e participação dos passageiros. Cada um tinha que subir ao palco e fazer o que soubesse. Chegando a sua vez, Reis anunciou que iria declamar “Os Lusíadas”, a epopeia poética de Camões sobre os feitos dos navegadores portugueses, de fio a pavio. Muitos duvidaram, mas ele começou a plenos pulmões:

“As armas e os barões assinalados, que da ocidental praia lusitana, por mares nunca dantes navegados, passaram ainda além de Trapobana”… E foi em frente, sob olhares de incredulidade e admiração.

Resumo da história, que a ode é muito longa: Raimundo Reis saiu do palco nos braços de brasileiros e portugueses empolgados, passageiros como ele da incrível viagem do Vera Cruz. Todos gritavam: “Viva Portugal”. “Viva o Brasil”.

Sobrava então ao autor de “Enquanto é Tempo” a memória que faltou ao conterrâneo professor da UFBA, José Sérgio Gabrielli, ao falar na CPI do Senado sobre a efetiva participação e responsabilidade da companheira petista Dilma Rousseff, atual presidente da República, no nebuloso episódio da compra da Refinaria de Pasadena, quando ela presidia o Conselho Nacional de Petróleo.

Ou as informações que faltaram ao “duro” juiz Teori Zavascki, , motivo alegado para o recuo em julgamento de habeas corpus, da decisão de mandar soltar todos os presos pela Polícia Federal na escandalosa Operação Lava Jato, um dia depois de tirar da cadeia o ex-diretor da estatal metido no rolo. Este, continua em casa, leve e solto. Provavelmente, cuidando bem da memória (ou não?) para o caso de ter de contar o que fez e o que sabe.

Grande Raimundo Reis!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 24 Maio, 2014 at 8:37 #

Caro VHS

Neste ano sob os cuidados de Xangô e Iansã, é sempre prudente lembrar que JUSTIÇA é conceito divino, o poder judiciário “cuida” do tal “direito”, conceito diverso e distante do sagrado.

O titubeio de Teori é lição exemplar de como o improvável é conquistado em meio difuso e prenhe de neblina.

O que restou da atitude do ministro?

Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras, tido pela mídia como detentor de verdades explosivas, até então acuado em grades, foi solto.

Dirão os distraídos: Foi solto pelo juiz federal Sérgio Moro, responsável pelo caso no Paraná em atendimento à veneranda decisão de Teori, antes que esta fosse mudada.

Dirão os mais atentos: Teori decide, recua, e no intervalo entre as duas “judiciosas” decisões, entre o sim e o não ministerial, apenas Costa obtém o inesperado.
Quase que se houve o suspiro de alívio em meios aos salões frequentados por possíveis alvos de destempero de um réu acuado.

Digo eu: E daí? Decisões equivocadas, erros, idas e vindas, hesitações, demoras senis, são próprias do cotidiano da magistratura tupiniquim. Teori será repreendido pelo fato? Claro que não, até mesmo juiz em começo de carreira, erra, comete agressões ao ordenamento, quando muito, por vezes, o tribunal competente, conserta após exasperante demora, normalmente contada em anos, e nada acontece, afinal o poder é vitalício. E, repetindo para não confundir desejo com realidade, JUSTIÇA pertine ao repertório dos Deuses, não às decisões e ações dos chamados “operadores do direito”.

Pior, para evitar o a proximidade dos cidadãos aos meandros do processo em tela, Zavascki decretou o sigilo, ferindo de morte o princípio da publicidade, tornando sombrios os meandros das decisões e/ou revelações contidas no caso.

Resta a pergunta, singela, quase que pueril:

O juiz federal Sérgio Moro, ao soltar Costa de forma simultânea ao pedido de reconsideração de Teori, o fez como tradução fiel da máxima “os anéis em troca dos dedos”?

Nunca saberemos a resposta.

Laudas e laudas serão produzidas, citações doutrinárias, jurisprudenciais, ritos, salameques de estilo, tudo será apresentado em horas tardias e esperadas, menos o que norteia as decisões equivocadas de detentores do poder. Isto, tal qual a JUSTIÇA, não é do alcance do cidadão comum.

Vida que segue, laudas que se arrastam…

Tim Tim!!!


vangelis.a on 24 Maio, 2014 at 9:24 #

O revisor está atento!

Tapobana = Ceilão = Sri Lanka


José Umberto on 24 Maio, 2014 at 9:31 #

Lucidez e transparência com sabor tropicalista de cortes elíptico-temporais cinematográficos.


vitor on 24 Maio, 2014 at 10:36 #

José Humberto:

Que bom registrar a passagem por estas bandas do BP de um dos meus críticos de cinema favoritos (na era Glauber, na Jornada de Guido Araújo , do bravo Jornal da Bahia e sempre). Apareça mais. Melhor ainda se mandar algum texto para o Bahia em Pauta publicar. Obrigado e grande abraço carregado de afeto e admiração.


Janio on 24 Maio, 2014 at 11:18 #

Queridíssimo Vitor, acabei de ler essa maravilha de texto juntamente com minha tia Aldinha, que tava aqui do meu lado tranquilamente traçando sua bananinha cozida com um café batido no pilão, um velho costume trazido dos tempos em que (ela sempre gosta de contar) Mundinho vivia declamando poesias reais e inventadas pelas ruas de Santo Antonio da Glória.
Ela lhe manda um afetuoso abraço, enquanto eu me curvo diante do seu texto e de Van der Reis, “um dos mais brilhantes descendentes da família real holandesa”, como ele gostava de brincar.


vitor on 24 Maio, 2014 at 11:48 #

Meu poderoso Santo Antonio da Glória (palavra de ateu que acredita em milagre), quanta alegria e emoção você me traz com esse comentário!. Alda ao seu lado! Que maravilhoso e inesperado mergulho nas águas do rio da minha aldeia. Mil beijos e abraços para Aldinha.Com aromas de flor de Muçambê e tamarineiros da minha Gloria querida.Gratíssimo a vc, Janio.


luís augusto on 24 Maio, 2014 at 13:03 #

Caro amigo, ainda adolescente lia as crônicas de RR no Jornal da Bahia e sentia que ali estava algo “diferenciado”, como se diz hoje em dia.

A mesma sensação que tive ao ler pela primeira vez um artigo do também citado Cláudio Leal, que na época tinha 25 anos, um intelectual denso, desses de causar inveja a pretensiosos como eu, infelizmente, pouco “lido”, como antes se dizia.

Lembro de uma de suas crônicas (de RR) em que ele concluía: “É preciso tomar pelo menos duas doses de uísque para perdoar os sem amor, os filhos de pais de desconhecidos” e mais um segmento que a memória não pôde resgatar.

Já atento ao que viria a ser o “politicamente correto” dos últimos tempos, estranhei, pois que culpa poderiam ter os pobres fetos da paternidade irresponsável? Precisei de décadas para concluir que ele se referia, figurativamente, aos “filhos da puta” que sempre existiram, na acepção apenas ofensiva da expressão.

Embora seja assunto, creio, de domínio público, vale a pena lembrar que RR requisitou do governador Lomanto um navio da Bahiana para levar a Cuba voluntários que a defenderiam dos mercenários de Kennedy.

E que ACM, ao tentar salvá-lo da lista de cassações da ditadura de 64, argumentava ao general de plantão na 6ª RM que RR era apenas “um brincalhão”.

“É, mas ele só brinca à esquerda”, redarguiu o gorila, canetando-o sem piedade.

No mais, obrigado pelo primor do seu texto e da sua memória também.


vitor on 24 Maio, 2014 at 13:17 #

Luiz Augusto

Maravilhosos mesmo são os seus comentários, a exemplo deste no no BP. E os textos onde aprendo a escrever, diariamente, lendo o blog Por Escrito, que vc edita. Bravo!!!

Em tempo:RR era, de verdade, figura brilhante, rara e mítica, como a Bahia de sua vida e de seus escritos.
Obrigado.Com admiração,

Vitor Hugo


vangelis.a on 25 Maio, 2014 at 9:18 #

VHS,
Livros não devem ser raros tem que circular, especialmente para os mais jovens. Digitalize essa edição e mande cópias para os amigos. Quero uma também…


luís augusto on 25 Maio, 2014 at 10:08 #

Vitor, assim você acaba me conquistando, assim eu acabo me entregando…

E mande uma cópia do livro pra mim também.


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