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Postado em 22-05-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 22-05-2014 12:07

Semente

Sérgio Ricardo/1973

Cada verso é um semente
No deserto do meu peito
E onde rompe a grama verde
Vou deitando o desalento

No largo de alguma boca
No rasgo de algum sorriso
No gesto de algum lampejo
Na rima de um improviso
Nas curvas de uma morena
Na reta do meu desejo
Na relação entre corpos
Na paz do último beijo

Cada verso é uma semente
No deserto do meu peito
E onde o verde não verdeja
Não deito o meu desalento

Na rasgo dos grandes feitos
No largo de um só caminho
No brilho dos castiçais
No canto do passarinho
No garfo do deus-diabo
Na faca dos divididos
Na taça dos taciturnos
No prato dos oprimidos

Cada verso é uma semente
No deserto do meu peito
Mas se do ventre do verde
Não verdece algum rebento

No rasgo do meu poema
No largo de imagens mortas
Num gesto claro de outono
Na rima de folhas soltas
Na curva de novos versos
Na reta da revivência
Na relação dos desertos
Eu cravo a minha insistência

Hoje o verso é uma semente
Do meu peito num deserto
Verde que te quiero verde
Mas não há verde por perto
————————————————
“Semente”, Sérgio Ricardo, para ouvir e pensar em dias de reinado da Fifa. E fora dele! ”
(Gilson Nogueira)

===================================
Cantemos com o poeta de Marília(SP), Sergio Ricardo, mesmo território de nascimento e poesia de Luiz Fontana:

“Hoje o verso é uma semente
Do meu peito num deserto
Verde que te quiero verde
Mas não há verde por perto”

BOA TARDE!

(Vitor Hugo Soares)

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 22 Maio, 2014 at 12:32 #

Caro VHS

Essa semente tem cheiro de Marília e sonhos.

Da esquina da Avenida Sampaio Vidal com a 9 de julho, bem no centro, onde mora um vento insistente.

Um vento que, em nos anos 60, insistia em levantar saias plissadas de normalistas.

Ali perto, o Café Yamato, aberto em 1953, nos bules pequenos o segredo do melhor café, sempre coado na hora. Comparado ao sabor do café de Dona Luiza, minha mãe.

Os sonhos?

Alguns perdidos, na verdade, confesso, quase todos, restou apenas o mais tímido, aquele que insiste em acreditar no sortilégio dos luares.

Aquele que me acompanhava nas matinées do Cine São Luiz ou do Cine Marília.

Lauren Baccal, Sophia Loren, Bardot, Cardinalle, a sensualidade atrevida de Jean Seberg, o frescor do olhar de Natalie Wood. E a indefectível bala pipper.

Hoje o verso é uma semente perdida. Mas ficou a trilha, ficou o Sérgio Ricardo, ficou o violão, ficaram os sonhos perdidos em alguma rima distante.


regina on 22 Maio, 2014 at 15:34 #

como seria bom se essa semente, elas nunca se perdem de todo, seguisse germinando e a gente tivesse o privilégio de ler o Poeta de uma forma consistente, além dos comentários… uma poesia, um artigo, uma leitura, uma idéia lida ou vista pelo olhar astuto e crítico do Fontana, de uma forma permanente ou, ao menos, regular/oficial de primeira página!!!


vitor on 22 Maio, 2014 at 17:20 #

A ideia é ótima, Regina.
Na parte que toca ao BP, vai a palavra do editor: Só depende de Fontana, o poeta ou o analista, ambos igualmente brilhantes.

É só ele dizer que topa e o tapete vermelho será estendido para recebe-lo no Bahia em Pauta.

O vinho da celebração você manda da Califórnia.
TIM TIM

Hugo


luiz alfredo motta fontana on 22 Maio, 2014 at 18:03 #

Caro Vitor

Cara Regina

Afagos, especialmente de quem admiramos tem um efeito mágico em nosso coração. Cura feridas e amaciam cicatrizes, renovam o humor e mantém, senão a crença, a possibilidade de acreditar.

Vitor, ainda lembro da primeira impressão ao deparar com seus “artigos da semana” no Blog do Noblat, naquela ocasião eu iniciava o Blogbar do Fontana, atendendo a necessidade de ir além de comentários e tertúlias naquele espaço, que sofria a divisão entre viúvas de FHC e candidatas à comensais nos banquetes do PT, tentando umas e outras demarcarem territórios nesta bobagem nacional de disputa entre iguais com bandeiras diversas apenas nas cores.

Logo após me tornei leitor do BP que teu destino e fé inaugurava.

Pura magia, teu texto, tua visão poética, teu coração, e a Bahia. Esta Bahia que embora distante, habita meu imaginário, renova a energia, quando esta mitiga em minha alma cansada. Encontro ainda em Caymmi, nos atabaques, nos ventos que deslizam em suas marés, a fé que habita a casa desconhecida de Xangô, a luta simbólica de Ogum, a força de Iansã, a beleza serena de Nanã.

Apoiado em tua generosidade, em tua imensa fraternidade, a cada dia, respiro suaves aromas de dendê. Percebo, e respiro as nuances.

Encontrei em tua pauta a suavidade dos Soares, a presença notável de articulistas outros, que por ai transitam, tornei-me fiel seguidor. Atento leitor.

A Regina extrapola a hospitalidade dos Soares, e mima este poeta, testemunho do coração enorme que pulsa suavidades na Califórnia mítica, na São Francisco que ela transforma em quintal de Salvador.

Agradeço, acanhado em mimos, e afirmo, apenas quero permanecer como teu leitor, teu amigo, teu admirador e comentarista eventual, sorvendo cadinhos de carinho e brindando os momentos em que o BP acolhe meus resmungos, misturados à poesia que veste e desnuda este paulista, como, fossem eles, dignos.

Tim Tim!!!!


vitor on 22 Maio, 2014 at 23:28 #

Seja feita a sua vontade, poeta! Emocionado com o depoimento, renovo o brinde.
TIM TIM!
Regina, mantenha o vinho dos melhores vinhedos de Napa e Sonoma na temperatura ideal para ser sorvido. Até um dia, até talvez, até quem sabe…

(Hugo)


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