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Postado em 30-04-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 30-04-2014 13:58

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ARTIGO

Dorival Caymmi, o melhor na gente

Marlon Marcos

É certo que o baiano Dorival Caymmi ao se debruçar sobre o cotidiano da Bahia dos anos 30, ao retratar aspectos regionais do Brasil, na esteira da sua genialidade, justamente por ser bem regional, estava exercendo sem limites o caráter universal da sua obra.

Caymmi é uma espécie de verbo. Algo que alude preguiça, mas é puro movimento. Movimento sagrado da profunda observação. O maior compositor popular do Brasil, patriarca da Bahia em termos de baianidade,nesse sentido,ele se incrustou no pensamento da gente ao falar da gente filtrando informações com o seu requinte de poeta e de músico. São muitos clichês em torno das canções e nada esvazia a importância histórica que ele tem para o cancioneiro brasileiro e, extensivamente, para nossa cultura.

O frescor da sua obra é cotidiano e presente, ainda que a sua Bahia seja a idealização da sua inventividade, ou se existiu, e acho que sim,não traduza hoje em nossas ruas a beleza e a dor da negra mercando às 10 horas da noite.

Antônio Risério, de modo poético e definitivo, chamou Caymmi de utopia de um lugar. E a gente quando pensa Salvador hoje, se lamenta em termos de querer habitar uma cidade que se desenhasse próxima ao que o autor de João Valentão traduziu noticiou inventou para todos nós e espalhou em canções para o mundo.

Esse mês de abril, em Salvador da Bahia, não se deve fechar em lamentações, rosas de uma esperança invisível fecundam nosso querer: de frente a este presente natural que é a Baía de Todos os Santos, na centralidadereal da festa, nosso mestre faria 100 anos. Viver é derreter-se no cotidiano com ares de aniquilamento. Só os maiores artistas, os de trânsito centrados no popular, que tornam o cotidiano, como diz Maria Bethânia, menos vagabundo, são os que nos fazem sonhar e sair, pela arte, a favor da diversão ou da fruição contumaz da beleza.

Não consigo pensar em prosseguir sem reverenciar a memória ancestral do nosso povo. Algumas autoridades políticas atuais pensam que festejar o centenário de Caymmi é gastar dinheiro em vão; é alimentar percursos culturais que só serviram ideologicamente ao carlismo; que seu legado já foi cumprido e vamos caminhar…

Desespera saber a inviabilidade de uma Fundação na Bahia que preserve a memória deste homem, que fomente a cultura, que promova educação, que anime o nosso orgulho, por falta de vontade política de quem não tem capacidade sensível para alcançar esta dimensão: a força de uma história individual que, se bem contada e preservada, não faz personalismo e sim, dá exemplos de conquistas e criação, numa relevância que nenhum político jamais conseguirá.

Abril em 2014 é caymmiano: cadê a grande exposição em Salvador? E o show da Família Caymmi? E o festivalmusical? E o concurso de monografias? O documentário? A história a ser recontada nas escolas para redefinir a grandeza negro-mestiça que é nossa?
Dorival Caymmi só poderia instigar perguntas. Sua obra é o reflexo do mar, intensidades de cores, profundidade que todos podem alcançar, do seu jeito,a partir das limitações de cada um; o que ele fez não foi só invenção: retirou dos traços cotidianos da Cidade da Bahia somados à sua paisagem humana e natural, à sua geografia, a poesia que ainda persiste nesses instantes de agonia que vivemos na atualidade.

Dorival Caymmi é o melhor da gente, pois está na beleza sagrada de gaiaku Luiza de Cachoeira, nas gentes em fila para festejar Iemanjá no 2 de fevereiro; no tabuleiro da preta baiana que não lembro o nome, igual a outra baiana na Praça da Sé; está no silêncio perdido de nossas ruas, na cor negro azul do mar; Caymmi está na emissão linda de Gal Costa, na poesia viril de Caetano, na música de Gil, na voz nos gestos nas pulseiras e na mão falante de Maria Bethânia… Caymmi está vivo em Virgínia Rodrigues, Laila Garin, Tiganá Santana, Neojibá, Rumpilezz, Marilda Santana, Stella Maris, Jussara Silveira, Baiana System, Carlos Barros, Dão, Aila Menezes, Daniela Mercury, Mariela Santiago, Claudia Cunha, Juliana Ribeiro, Sandra Simões,VérciaGonçalvez, Cascadura, Márcia Short, Manuela Rodrigues e Mariene de Castro.
Ouço Caymmi em Ana Paula Albuquerque e leio Caymmi na poesia marítima de Karina Rabinovitz, na urbana de Kátia Borges, na religiosa de Lívia Natália… Vejo Caymmi no jornalismo de Claudio Leal, nos comentários sobre cinema de Júlio Gomes e nos filmes de Cláudio Marques, no teatro de Gil Vicente, nos escritos de Marielson Carvalho.
Vejo Caymmi no povo da Bahia, e só isso já é motivo de sobra para festejar os seus 100 anos. Com galhardia, meus doutores.

Marlon Marcos é poeta, jornalista e antropólogo
email: ogunte21@gmail.com

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http://youtu.be/oMtFQ6mE-co

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Comentários

Marlon Marcos on 30 Abril, 2014 at 15:06 #

Obrigado, meus mestres Caymmi, Vitor Hugo, Claudio Leal e Olivia Soares


Gilson Nogueira on 30 Abril, 2014 at 16:17 #

Enquanto Caymmi espia a festa em sua homenagem, no canto reservado aos deuses da canção, acima das nuvens, em Salvador, vem-me, na brisa atlântica que sopra as velinhas do bolo de 100 anos de nascimento do mestre maior da música baiana, uma lembrança doce desse soteropolitano cujo semblante tem algo de santo.
O Santo Dorival Caymmi está no altar de minhas melhores recordações. Dentre elas, o dia em que o conheci, ao lado de sua mulher, Stela, em sua residência, na Pituba, quando, jovem, batalhando eu os primeiros trocados na vida, como estudante.
Foi assim, acabara de tocar sua campainha, para saber se, naquela casa, havia crianças, em idade escolar, objetivando ao preenchimento de um questionário elaborado por um futuro empreendimento educacional a ser implantado no bairro.
A missão foi para o espaço, diante do sorriso celestalmente azul de Caymmi, cujos cabelos brancos deram-me a impressão que eu estava flutuando diante de Deus.Caymmi sorriu, ao lado da mulher amada o sorriso mais longo de minha vida. E, até hoje, o tenho, como uma benção, um presente pro resto da vida.
Ouvindo o Canto de Obá, sugiro, em tempo, ao Governo da Bahia, que transforme em um monumeto ( a ser edificado em Itapuã) o excelente anúncio comemorativo, estampado, hoje, no Correio, em homenagem ao filho de Dona Aurelina e Seo Durval.


Cida Torneros on 1 Maio, 2014 at 1:26 #

Ahhh, que texto lindo sobre o lindissimo Caymmi , seu centenário e sua (nossa) Bahia! Ai, minha mãe Menininha! Ai que saudades eu tenho da Bahia! Mas ele pegou um ita no norte e veio pro Rio morar! Um bom lugar pra se amar Copacababa, posto 6, colonia dos pescadores, uma sucursal da Bahia que Caymmi instalou pra nós, cariocas! Eita sujeito porreta! Antenado nas marés, sabedor dos segredos do mar, do amor e com jeito de calmaria… bom mesmo que a luz de Caymmi se reflita em tanta gente porque, como ninguém, ele cantou o que é que a bahia tem!


Cida Torneros on 1 Maio, 2014 at 1:27 #

Bahia, com maiúscula!


Graça Azevedo on 1 Maio, 2014 at 10:54 #

Texto e comentários emocionados e emocionantes. Nada a acrescentar.


Olivia on 1 Maio, 2014 at 14:13 #

Perfeito, Marlon Marcos. Viva o Buda Nagô!


Gilson Nogueira on 3 Maio, 2014 at 13:36 #

QUE SEJA ERGUIDO O MONUMENTO A CAYMMI, EM ITAPUÃ, BAHIA!!!


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