======================================================

ARTIGO DA SEMANA

A Sonata da entrevista de Joaquim Barbosa

Vitor Hugo Soares

Carregada de tensão e faíscas elétricas, a entrevista do presidente do Supremo Tribuna Federal (STF), Joaquim Barbosa, que marcou o retorno do programa de Roberto D’Ávila à televisão (agora no canal privado Globo News), foi provocativa e atraente do começo ao fim. Fatos e informações do mundo da política, da justiça, da comunicação, da cultura, das relações sociais e principalmente da condição humana, espalharam-se fartamente por todos os blocos.

Ainda assim, restaram importantes lacunas jornalísticas, à espera de perguntas e de respostas. Nas questões mais gerais citadas acima, e em várias outras, mais específicas e “da hora”, a exemplo do processo contra o jornalista Ricardo Noblat. Essa questão foi tangenciada por entrevistador e entrevistado. Ficou em aberto, rondando entre dúvidas, meias palavras e vacilações de parte a parte, até se dissolver no ar.
Uma pena: para o programa, seus personagens e telespectadores.

Mas nem tudo se perde por causa disso. A impressão, no conjunto da obra, é de que algo realmente significativo aconteceu na telinha da TV brasileira. E para todos os gostos: de quem admira e de quem detesta e não tolera Joaquim Barbosa. Ou para os que ainda observam o jurista (nascido em Minas Gerais das montanhas famosas, mas encantado e atraído desde a juventude pelo planalto central onde fica Brasília), com “aquela incômoda pulga atrás da orelha”.

Afinal de contas, quando o assunto é o atual presidente do STF (o terceiro nome na escala do poder nacional, como ele próprio definiu), praticamente não existe meio termo no Brasil atual: é afago ou pancada.

Muito já se falou em notícias, notas e artigos (até internacionalmente) sobre a entrevista. Virou um dos assuntos mais destacados da semana na mídia e na opinião pública e já foi repetida por duas vezes pela emissora que a produziu. Não vale, portanto, remoer detalhes, levantar suposições ou tentar interpretar e analisar silêncios eventuais.

Estas linhas são, basicamente, para tentar dar relevo ao que o jornalista considera um dos momentos mais marcantes e emblemáticos do programa. Exatamente o último bloco, no qual Joaquim Barbosa fala das suas preferências musicais, e sugere a “Sonata a Kreutzer”, de Beethoven, como trilha de encerramento da sua conversa com o apresentador.

Esta parte foi praticamente deixada de lado nas análises e críticas sobre a entrevista. Preciso registrar e reconhecer que a minha empolgação com este pedaço do programa de TV decorre talvez de experiências intelectuais próprias e de recordações de um tempo marcante de vida pessoal.

Era (antes da mudança para Salvador no começo dos dramáticos anos 60) estudante de fim do ginasial e começo do curso secundarista no Colégio D. Bosco (comandado por padres salesianos e uma referência nordestina de qualidade de ensino), localizado na cidade pernambucana de Petrolina (PE). Meus passos e pensamentos então eram comandados pela curiosidade e o desejo da transgressão na cidade vibrante e progressista do fim dos anos 50.

Bebia Cuba Libre já, misturava a dança do bolero com o Rock, mas me alimentava de leituras de romances variados, dos discursos flamejantes de Miguel Arraes e dos sermões ardentes do bispo D. Avelar Brandão Vilela, que reencontraria anos depois na Bahia. Ele Arcebispo de Salvador e cardeal primaz do Brasil. Eu, incômodo repórter e chefe de Redação da Sucursal do Jornal do Brasil.

Minha curiosidade, naqueles dias no sertão, voltou-se para um caixote no quarto dos fundos da casa na beira do Rio São Francisco, onde meu pai guardava seus livros mais “perigosos”. Em geral, de autores russos. Ele estava de viagem na capital, ou trabalhando em Juazeiro (BA), do outro lado do rio , não lembro bem.

Só sei que aproveitei para vasculhar os “livros secretos” de meu pai e das descobertas que fiz em seguida. Como ferro em brasa, elas me marcariam a carne e o espírito durante anos e até hoje. Não farei aqui uma lista dessas publicações, mas revelo que entre elas estava o romance de Lev Tolstói, “Sonata a Kreutzer”, um dos tesouros literários da minha juventude.

Recordo bem: a capa era o desenho de um casal, com os traços e as marcas do “realismo soviético” nas artes gráficas. O que me deixou fascinado. A ponto de me desligar do resto do mundo em volta, e começar a leitura ali mesmo, ao pé do caixote aberto de livros de seu Alaôr.

O final da conversa de Joaquim Barbosa com Roberto D`Ávila trouxe todo o passado de volta. Sonata a Kreutzer, o livro, em resumo, foi qualificado em seu lançamento, como Um Ensaio sobre o Ciúme. Trata do relacionamento do homem e da mulher em uma sociedade em mudança na Rússia do final do século XIX. Em tela, no embate dos personagens, afloram questões universais e ainda presentes. Em particular, os preconceitos, a moralidade das relações entre os homens e mulheres e os fatores que influem no comportamento. Dos simples instintos aos decorrentes da própria educação, do cotidiano da vida e das convenções sociais.

A novela se passa numa viagem de trem que atravessa a Russia, onde vão se juntando ao casal outro passageiros. A inspiração de tudo, porém, está na música, à qual Tolstói era imensamente sensível. Afinal, os sentimentos exaltados que o romance sempre provocou, dentre o fora da Russia, e a polêmica desatada até nos Estados Unidos, só encontra paralelo na famosa peça musical de Beethoven, conhecida como Sonata a Kreutzer, composta em 1803.

A música que o ministro Joaquim Barbosa evocou e sugeriu para encerrar sua entrevista na Globo News, “não apenas inspirou o título do livro de Tolstói, mas constitui um dos seus motivos centrais”, registra um crítico literário.

Empolgante evocação de Joaquim Barbosa. Vale a pena ler e ouvir de novo. Confira.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 29 Março, 2014 at 4:56 #

Entre conflitos, reações inesperadas, truculências, e inspirações diversas.

Caro VHS

Fiquemos, inicialmente, em Beethoven e na sonata, tal qual fez Joaquim Barbosa, que citou a música e não o livro.

Camila von Holdefer, em artigo facilmente achado na internet resume e ilustra os acontecimentos que permearam a execução e posterior publicação da sonata.

Cito um trecho:

“Na primavera de 1803, o compositor foi convidado a apresentar em Viena uma sonata inédita para piano e violino. Seu acompanhante neste instrumento foi um jovem mulado, George Bridgetower, filho de mãe polonesa e pai negro, ex-escravo nas Antilhas, que uma vez na Europa tornara-se valete dos Esterházy, família da aristocracia austro-húngara. O afro-polonês revelou-se desde cedo um prodígio ao violino, tendo sua precocidade comparada à de Mozart.

Para o concerto de Viena, Beethoven entregou a parte do violino poucas horas antes da apresentação. Ainda assim o espetáculo foi um sucesso. Dizem os relatos que, a certa altura do primeiro movimento, após uma passagem dificílma para o piano, Bridgetower teria inesperadamente recriado o mesmo trecho ao violino, obtendo a aprovação entusiástica de Beethoven, que se ergueu do teclado, correu até ele para saudá-lo, e voltou a tempo de continuar tocando. A performance foi tão arrebatadora que, em seguida, Beethoven anunciou que dedicaria a obra a Bridgetower — e escreveu na partitura: Sonata per un mulaticco lunattico.

Mais tarde, quando bebiam juntos, o jovem violinista, que, segundo consta, exercia grande atração junto às mulheres, fez um comentário de cunho particular sobre uma dama conhecida de Beethoven. Enfurecido, este pediu de volta a partitura e rasurou a dedicatória, intutulando-a mais tarde Sonata a Kreutzer, em homenagem a Rodolphe Kreutzer, tido então como o maior nome do violino na Europa. George Bridgetower faleceu em 1860, num asilo para indigentes em Londres, inteiramente esquecido pelo mundo musical — e Kreutzer, por sua vez, ao receber a partitura desta que é uma das sonatas mais célebres da história da música, considerou-a impossível de ser tocada e jamais apresentou a obra em público.”

Da leitura de Camila, resta a indagação:

Terá sido este peculiar entrevero a motivação de Barbosa?

Afinal nele um afro-polonês é alvo da fúria intempestiva de um autêntico caucasiano, gênio mas furibundo.

Nunca saberemos, especialmente pela simples razão que citar clássicos, virou forma de demonstrar cultura e refinamento nem sempre existentes.

Barbosa desperta amor ou ódio? É afago ou pancada?

Talvez para petistas e tucanos.

Mas certamente causa estranhamento para os que ainda prestam atenção nas escorregadelas autoritárias do ministro. Na reação beirando a truculência quando contrariado, no desprezo revelado aos jornalistas que não se aproximam indicados por “Gracies” ou munidos dos salamaleques e mesuras de estilo, tão presentes nos tribunais deste país sem tradição.

Articulistas sofrem da carência por ídolos e heróis e vislumbram em personagens contraditórios essas virtudes.

De resto, mesmo o maior dos fãs de Barbosa não encontrará nas laudas exaustivas e, sobretudo, exaustas de Barbosa, sequer um rastro efêmero da genialidade de Tolstói.

Abraços!!!

Tim Tim!


luiz alfredo motta fontana on 29 Março, 2014 at 5:35 #

luiz alfredo motta fontana on 29 Março, 2014 at 8:59 #

Seguindo o conselho do ministro

Disse Barbosa: vejam meu curriculum!

Fiz isto, na página do próprio STF.

Aqui transcrevo:

“Joaquim Benedito Barbosa Gomes

Antes de sua nomeação para o Supremo Tribunal Federal, o Ministro Joaquim Barbosa exerceu vários cargos na Administração Pública Federal. Foi membro do Ministério Público Federal de 1984 a 2003, com atuação em Brasília (1984-1993) e no Rio de Janeiro (1993-2003); foi Chefe da Consultoria Jurídica do Ministério da Saúde (1985-88); foi Advogado do Serviço Federal de Processamento de Dados-SERPRO (1979-84); foi Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores (1976-1979), tendo servido na Embaixada do Brasil em Helsinki, Finlândia; foi compositor gráfico do Centro Gráfico do Senado Federal.

Paralelamente ao exercício de cargos no serviço público, manteve estreitas ligações com o mundo acadêmico. É Doutor e Mestre em Direito Público pela Universidade de Paris-II (Panthéon-Assas), onde cumpriu extenso programa de doutoramento de 1988 a 1992, o qual resultou na obtenção de três diplomas de pós-graduação. Cumpriu também o programa de Mestrado em Direito e Estado da Universidade de Brasília (1980-82), que lhe valeu o diploma de Especialista em Direito e Estado por essa Universidade.

É Professor licenciado da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ensinou as disciplinas de Direito Constitucional e Direito Administrativo. Foi Visiting Scholar (1999-2000) no Human Rights Institute da Columbia University School of Law, New York, e na University of California Los Angeles School of Law (2002-2003).

É assíduo conferencista, tanto no Brasil quanto no exterior. Foi bolsista do CNPq (1988-92), da Ford Foundation (1999-2000) e da Fundação Fullbright (2002-2003).

É autor das obras “La Cour Suprême dans le Système Politique Brésilien”, publicada na França em 1994 pela Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence (LGDJ), na coleção “Bibliothèque Constitutionnelle et de Science Politique”; “Ação Afirmativa & Princípio Constitucional da Igualdade. O Direito como Instrumento de Transformação Social. A Experiência dos EUA”, publicado pela Editora Renovar, Rio de Janeiro, 2001; e de inúmeros artigos de doutrina.

Nasceu em Paracatu, MG, onde fez os estudos primários no Grupo Escolar Dom Serafim Gomes Jardim e no Colégio Estadual Antonio Carlos. Cursou o segundo grau no Colégio Elefante Branco, de Brasília. Fez também estudos complementares de línguas estrangeiras no Brasil, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Áustria e na Alemanha.”

E a dúvida continua.

O Ministro, como tantos outros foi membro do Ministério Público.
Como é normal e quase obrigatório, aqui neste nosso Brasil varonil, membros da magistratura e do MP costumam expandir seus ganhos na carreira acadêmica, e isto vale para todos os rincões em que funcione alguma instituição de ensino que detenha em sua grade o curso de direito.

Ressalte-se que o ministro por diversas vezes afastou-se do serviço rotineiro para cursos no exterior, com a benesse da viúva. Também nada excepcional, muitos ingressam na carreira com este fim precípuo.

Por fim, tal qual Tóffoli, foi nomeado por Lula ministro do supremo. Salvo engano, desconhece-se, fora as especulações que já custaram ao Noblat um processo, os motivos que levaram Lula à esta escolha. Acrescente-se ainda que Lula não passou para a história como detentor de grandes acertos em suas escolhas. Vide José Dirceu, acabou na Papuda.

Consulta feita, nada acrescentado.

Como não sou petista, nem tucano, continuo estranhando os rompantes autoritários do citado ministro, nem quero relembrar em detalhes,o tratamento dado ao colega Eros Grau, que acabou respondendo com um chute no fígado, relembrando ocorrência policial que em nada enaltece o tal curriculum.


vitor on 29 Março, 2014 at 11:55 #

Fontana

Agradeço muito suas considerações sobre o artigo. Talvez, mais valiosas e úteis (intelectualmente) que o próprio artigo.

Você tem razão, na entrevista a Roberto D`Avila, o ministro Joaquim Barbosa fala da música de Beethove, não do livro de Tolsoi.

Do livro quem fala é este jornalista, tocado por suas lembranças da juventude e em memória do saudoso pai, inveterado ouvinte de boa música e leitor de bons livros.

Só uma coisa mais: Pelo exposto no próprio texto, para mim a Sonata a Kreutzer (música e romance) são inseparáveis. Ambos, reveladores.

TIM TIM!!!


luiz alfredo motta fontana on 29 Março, 2014 at 12:10 #

Tim Tim!!!

Concordo

E acrescento

Autoritarismo, truculência, e Barbosa, parecem ser, salvo engano, expressões que se equivalem.

Fiquemos com a sonata e com o pequeno romance.

Abraços!


vitor on 29 Março, 2014 at 13:24 #

Fontana

Poeta, um pedido do BP:repita, por favor, o link da Sonata a Kreutzer, a música. O que vc postou na área de comentários não está abrindo. OK?.

TIM TIM!!!


Graça Azevedo on 29 Março, 2014 at 14:41 #

Lembrando Cecília Meireles, “tenho fases como a lua”. Agora a fase é de andar escondida. Então prefiro livros e boa música, como os citados.As notícias e entrevistas me entristecem e tiram o que me resta de esperança.


luiz alfredo motta fontana on 29 Março, 2014 at 15:56 #

tente via gogle, digite na busca :

sonata a kreutzer semente logos

será o primeiro link a aparecer


luiz alfredo motta fontana on 29 Março, 2014 at 15:58 #

luiz alfredo motta fontana on 29 Março, 2014 at 16:01 #

luiz alfredo motta fontana on 29 Março, 2014 at 16:06 #

e por falar em sonata a kreutezer, veja esse vídeo da apresentação no Teatro Municipal de Mauá do Espetáculo “Sonata a Kreutzer – Um Incomensurável Abismo de Incompreensão, adaptação da Cia Teatral LUPA para a Novela homônima de Leon Tolstói.

http://www.youtube.com/watch?v=hZ85a90hMfs


Mariana Soares on 29 Março, 2014 at 17:58 #

Maravilha de artigo, meu irmão! Gostei tb da entrevista! Sou da turma que gosta do Barbosa, embora não tolere a sua (dele) intolerância com as opiniões contrárias, tampouco as grosserias praticadas com os colegas e com quem não comungue de suas idéias.


regina on 29 Março, 2014 at 23:31 #

Li este pequeno/grande livro há poucos dias, depois e devido à entrevista do repórter Roberto D’Ávila ao ministro Joaquim Barbosa no seu primeiro programa na GloboNews e adorei! Tolstoi é um gênio, e aqui não é somente minha opinião mas um fato há muito adquirido para aqueles que o leram. Publicado pelo autor em 1889 cujo título provem da sonata criada por Beethoven, incide sobre vários temas recorrentes na sociedade, relações conjugais e a influencia dos filhos, o casamento e o divórcio, ciúmes, altercações constantes devido à monotonia de uma relação duradoura e desinteressante… a maneira como Tolstoi relata esta história de constante suspense cativa o leitor e o livro é devorado em um abrir e fechar de olhos….

A sonata, outra maravilha do não menos gênio Beethoven, tão extraordinariamente interpretada por Oistrak, neste vídeo escolhido pelo Fontana, são coisas que vou ter, ao fim e ao cabo, que agradecer ao ministro que nem amo nem odeio, apenas acho seus modos e comportamento não condizentes com o posto que ocupa.

E por falar em livros, ministro e entrevista, vou sair agora atrás do livro/presente do jornalista D’Ávila ao ministro Barbosa, “O ócio criativo” do sociólogo italiano Domenico de Masi, regalo este que o ministro olhou com desdém e o colocou de lado sem agradecer…

“Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu tempo livre, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo. Ele acredita que está sempre fazendo as duas coisas ao mesmo tempo” (Domenico de Masi, O Ócio Criativo).


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos