Lula na Pirelli, em Milão…
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…E em Roma, com Renzi

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ARTIGO DA SEMANA

O avião, volta de Bachelet, volteios de Lula e FHC

Vitor Hugo Soares

O misterioso sumiço do Boeing da Malaysia Airlines, na rota Kuala Lumpur- Pequim, completa seis dias quando escrevo estas linhas e segue assombrando o planeta. Enquanto não se esclarecem os fatos, se multiplicam as dúvidas, suspeitas e especulações sobre o que efetivamente aconteceu com o avião e seus 239 ocupantes.

Tudo até aqui parece intrigante e contraditório em um ambiente mundial (a partir dos Estados Unidos) contaminado pela espionagem desenfreada e dominado por uma furiosa ideologia da exaltação cega de um poder tecnológico que, aparentemente, “sabe, vê e pode tudo”. Lorota.Só aparentemente, demonstra a Babel planetária destes dias, a partir do desparecimento do Boeing 777, “tão moderno, que só falta falar”.

Qualquer que seja o desfecho de tudo isso, um fato se impõe desde já: Estamos todos diante de um destes episódios raros (inéditos?) que mexem com todas as pessoas, em todos os sentidos, em torno do mundo.

Os ingrediente de suspense são dignos dos melhores e mais terríveis romances do gênero; ou dramas cinematográficos sobre teorias de conspiração, e “trillers” de horror. Ou grotesca tragicomédia aérea de erros e encontrões investigativos de todo lado, desinformação e incompetência geral dos países envolvidos nas buscas do avião e das causas que levaram ao seu estranho sumiço.

“Em toda minha vida profissional, várias vezes voando no, em geral, espaço de brigadeiro e sem armadilhas da rota simples e tranqüila Malasia-China, jamais vi um caso tão estranho e merecedor de análises no campo da segurança aérea quanto este”. A afirmação é de um dos mais experientes pilotos de linhas aéreas comerciais norte-americanas, em entrevista na CNN em Espanhol. Se não bastasse tudo isso, a evaporação do bólido, mergulhada em breu, dúvidas e suspeitas de todo lado, enquanto escrevo na sexta-feira, serviu ainda para outras cositas mas, como dizem os portenhos, nesta semana para não esquecer. Por exemplo, para obscurecer, nublar ou camuflar fatos relevantes da política no Brasil e na América Latina.

Pela relevância em sí, ou porque não receberam da imprensa a devida atenção e espaço, vale a pena tentar recuperar e contextualizar três dessas notícias.

A primeira, o regresso triunfal e histórico da socialista Michelle Bachelet à presidência do Chile. Com as presenças de Dilma Rousseff, do Brasil; Pepe Mujica, do Uruguai e Cristina Kirchner, da Argentina (entre outros chefes de Estado) e a ausência de Nícolás Maduro, da Venezuela – cada dia mais enrolado no xale da louca – as festividades da posse, entre Valparaíso e Santiago, foram de arrepiar, na transmissão da CNN.

Com direito a imagens marcantes: a entrega da faixa presidencial, o abraço caloroso e o beijo de afeto e admiração,- protagonizadas pela senadora socialista Isabel Allende. Filha de Salvador Allende (presidente legitimamente eleito, mas derrubado brutalmente pela ditadura militar implantada por Augusto Pinochet). Primeira mulher a presidir o Congresso do país andino à beira do Pacífico.

Que vitória democrática completa! Carregada de simbolismos contra o golpismo, a violência repressiva, a tortura mais selvagem, o terror político de estado, e a intolerância boçal impostos ao Chile e a América Latina durante décadas.

O segundo fato teve registro ainda mais precário na imprensa brasileira, embora merecedor de especial destaque na mídia européia. Refiro-me à visita do ex-presidente Lula à Itália.

No começo da semana, enquanto PMDB e PT se estapeavam e se agrediam mutuamente em feroz guerra de poder e cargos, em Brasília e no resto do País, Lula desembarcava tranqüilo no Velho Continente, “para cumprir agenda privada”, como registraram os jornais de Roma, Lisboa e Madri. A viagem do ex-presidente foi à convite da fábrica italiana de pneus Pirelli.

Na terça-feira, em Milão, Lula fez palestra e visitou as instalações da empresa, “e conversou com a direção da multinacional sobre a situação do Brasil e da América do Sul”, segundo registro jornalístico italiano. A Pirelli, no Brasil, opera cinco fábricas (Santo André, Campinas, Sumaré, Gravataí e Feira de Santana) e emprega mais de 12 mil pessoas, segundo a empresa.

No dia seguinte, com a política italiana também pegando fogo, o brasileiro foi recebido em Roma pelo primeiro-ministro, Matteo Renzi, com quem almoçou. Do encontro sabe-se apenas que Lula presenteou Renzi com uma camisa oficial da Seleção Brasileira. O principal líder petista brasileiro evitou falar com a imprensa ao deixar o local do encontro. Ponto de interrogação.

Por fim, o volteio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo, nas feéricas comemorações dos 20 anos do Plano Real. No instituto tucano que leva o seu nome, FHC fez a abertura e o encerramento do seminário “20 anos depois do Plano Real: um debate sobre o futuro do Brasil” e mandou ver.

Garantiu que “há, sim, oposição no País, ao contrário do que alguns afirmam e muitos acreditam. Além disso, falou de “um Brasil sem rumo”, no governo Dilma, onde, segundo ele, a coalizão política foi substituída pela “cooptação”. Um chamado explícito para a briga.

Paro por aqui. Mais não digo. Apenas reflito, com a frase preferida dos franceses para situações assim: “Amaldiçoado seja, quem pensar mal dessas coisas”

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Cida Torneros on 15 Março, 2014 at 1:17 #

Excelente artigo!


luiz alfredo motta fontana on 15 Março, 2014 at 8:33 #

Caro VHS

Sejamos, pois, amaldiçoados!

Michelle Bachelet, “o retorno”, como toda sequência padeceu, e padeceu pelas manchas do sangue que jorra na ruas da Venezuela, ao menos, muito de bom senso, evitou a tal “cúpula” de presidentes de ocasião em sua festa, Dona Dilma, nosso “Salsichão na Grelha”, estava pronta ara brilhar, munida, é claro, de relatórios exuberantes do tal Marco Aurélio “Top Top” Garcia, Contentou-se, a precavida Michelle ,com anódina reunião de chanceleres, o que em se tratando de América Latina e sua incipiente política externa, é sinônimo de nada.

Já Lula continua desfrutando de seus inúmeros patrocínios, e desandou aditar regras na Itália. convenhamos, ele pode, afinal no nosso país das jabuticabas, impera o “sistema eleitoral” invejado por qualquer governo europeu, especialmente nestes tempos bicudos, em que o eleitor insiste em votar nas oposições,. Imaginem a Europa curvando-se ao sucesso de eleições decididas em pesquisas e confirmadas em urnas isentas de recontagem. O paraíso tem nome, e é uma urna virtual.

Em meio a este interlúdio em terras italianas, Dona Dilma, a fiel escudeira, arma e aplica mais um estupendo estelionato eleitoral. Mantém sua promessa de tarifa baixa, financiando os custos de energia elétrica, sabe-se lá com que juros, e prometendo, cinicamente só autorizar aumento em 2015, quando espera estar confortavelmente eleita.

Triste é imaginar que teve essa inspiração delitiva em seu descanso em praias baianas. Caymmi não merecia esse desaforo.

Por fim FHC, o “gongórico entediado”, busca no vácuo político, renovar as plumas de tucanos prenhes de ressaca metroferroviária.

Amaldiçoados seremos!

Tim tim!

Xangô nos proteja!


luiz alfredo motta fontana on 15 Março, 2014 at 8:53 #

Amaldiçoados 2

Estranho PMDB, quando enfim, mesmo que com razões, por óbvio censuráveis, revolta-se e esperneia, dando, ao menos, cores e emoções fortes à pífia política nacional, mesmo assim, seus ditos e louvados “dissidentes”, submergem no maior silêncio.

Excesso de zelo, com seus conceitos de certo e errado, pode ser sinônimo de mera alienação. O que dizem Simon, Jarbas, e que tais, sobre estas emboscadas entre Dona Dilma e Cunha? Fazem companhia ao aturdido Sarney?

Em tempo:

No comentário anterior cabe a errata:

“estava pronta ara brilhar” = …estava pronta para brilhar…

“e desandou aditar regras” = ….e desandou a ditar regras….


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