Bahia:”encurralado por profissionais da venalidade”
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ARTIGO

O tabuleiro do Bahia

Claudio Leal

Não deve ficar entre os muros da província a decisão do Esporte Clube Bahia de divulgar os gastos do clube com jornalistas e cartolas afeiçoados a regalias subsidiadas pela grana do torcedor. Com a lista das patuscadas nas excursões tricolores, o mandato de Fernando Schmidt oferece um gesto a ser seguido por outros clubes brasileiros, igualmente encurralados por profissionais da venalidade, mantidos por dirigentes que atrasam os salários de jogadores e funcionários, mas podem sangrar as finanças da empresa em fronhas de luxo.

A medida desagradou apenas aos habituais brucutus das rádios baianas, presenteados sem maiores cerimônias com publicidades estatais, no velho e renovado esquema de escambo político, esse lodaçal que reivindica ancestralidade na “chronique scandaleuse” da França do século XVIII. Diretor da Biblioteca de Harvard, o excepcional historiador Robert Darton conclui em “O diabo na água benta”, a respeito da arte da maledicência de Luis XIV a Napoleão, que as práticas da mídia de massa, na difusão de calúnias e escândalos, estendem um princípio formulado nas tipografias manuais de séculos atrás. A esse parentesco deve ser colada uma nota de degradação, porque o financiamento de detratores de direitos humanos e do bom jornalismo não coincide com as bases do Estado moderno.

A lista dos “jabazeiros” e das despesas do Bahia é uma radiografia dos desatinos da cartolagem, ainda outro dia acariciada pela criação de uma loteria federal que lhe sanasse as dívidas. Mas não só expõe as estripulias. Tem efeitos múltiplos. Como contou com o apoio majoritário da torcida, constatado nas redes sociais, a atitude obrigará o Bahia a não recuar nas próximas temporadas. E, sem esperar decisões semelhantes, constrange os governos que patrocinam microfones. Alvo de achacadores momentaneamente entregues a opiniões não-remuneradas, o Tricolor merece palavras de encorajamento da Associação Baiana de Imprensa (ABI) e do Sindicato dos Jornalistas da Bahia, ora silenciosos, embora estatutariamente comprometidos com a ética profissional.

Uma palavra a mais: é inspirador o trabalho do gerente de comunicação do clube, Nelson Barros Neto, um dos responsáveis por esse levantamento de despesas, digno de quem não esquece os princípios do jornalismo, nem da transparência pública. Torcedores e jornalistas acompanharão os desdobramentos de seu gesto, para que não sofra rasteiras – políticas ou publicitárias.

Claudio Leal é jornalista.

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Comentários

Rosane Santana on 12 Março, 2014 at 7:23 #

Caro Cláudio, há desconfianças de que a lista anunciada de há muito por Sidonio Palmeira e’ seletiva. Só expõe peixe pequeno. Sou a favor da lista completa!


Rosane Santana on 12 Março, 2014 at 7:39 #

Complemento: que se abram todas as caixas pretas de “financiamento” feitos a jornalistas no pais, inclusive, os valores recebidos individualmente pelo “meninos” do Franklin Martins, para criar blogs e produzir conteúdos favoráveis ao governo petista. Pelo que se comenta nos bastidores, as cifras milionárias. Transparência já!


Graça Azevedo on 12 Março, 2014 at 9:57 #

Texto impecável e esclarecedor.

Que venham as listas, todas, e não, como sempre, aquelas mais palatáveis.
Para futebol, política, sentimentos, tudo enfim, transparência sempre, para todo lado que se olhe, sem “seletividade”.


Chico Bruno on 12 Março, 2014 at 10:08 #

A atual diretoria do Bahia tem que implantar um Portal da Transparência para mostrar que é diferente da diretoria anterior.


vitor on 12 Março, 2014 at 10:40 #

Chico Bruno

Na mosca, Chico. Excelente sugestão. Tomara que não só o Bahia, mas o Vitória e os responsáveis pelo grandes clubes do futebol brasileiro estejam atentos ao exemplo do Tricolor baiano, como assinala Claudio Leal em seu firme e brilhante texto. A ABI e o Sinjorba, ainda em selêncio, também.

Transparência ! É isso que fará a diferença e limpará o lodaçal e a cumplicidade no futebol, na política, na imprensa, nas empresas e nos governos no País.

Grande abraço

Vitor Hugo


Claudio on 12 Março, 2014 at 10:56 #

Chico, excelente ideia mesmo.

Pelas informações que tenho, a lista foi fruto de uma pesquisa interna, com base em documentos que estavam no clube. E a divulgação não se deve a Sidônio. Abraços gerais.


Olivia on 12 Março, 2014 at 11:00 #

Completo, Claudio. Vida segue, diria nosso saudoso João Saldanha. Viva!


Rosane Santana on 12 Março, 2014 at 11:24 #

Cláudio,
Sidonio andou divulgando aos quatro cantos que possuía a lista e que ia divulgar. Foi muito comentado o assunto, inclusive, nas redes sociais.


Claudio on 12 Março, 2014 at 11:37 #

Rosane, sei que Sidônio anunciou a lista, mas ela foi exposta ao conselho do clube e, pelo que apurei, o marqueteiro não participou da pesquisa dos gastos. Aliás, ontem, segundo relatos de jornalistas no Twitter, ele começou a recuar em entrevista a rádio baiana. Outros setores do clube mantiveram a posição.


Rosane Santana on 12 Março, 2014 at 12:01 #

Beleza, obrigada pela informação.


Claudio on 12 Março, 2014 at 16:38 #

Recomendo a leitura do texto do repórter Bruno Queiroz, da CBN. Bom testemunho, para compreender a engrenagem e tentar transformá-la: https://m.facebook.com/photo.php?fbid=603394946415318&set=a.388197977935017.98279.100002344549896&type=1&comment_id=1839906&offset=0&total_comments=1&ref=m_notif&notif_t=photo_comment

Gostei do gesto.

É melhor mudar o sistema clubes/mídia do que vilanizar, individualmente.


Olivia on 13 Março, 2014 at 8:10 #

Muito digno, também gostei. Ponto pra Bruno.


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