Gil com Marina: sucessão além das aparências

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ARTIGO DA SEMANA

Sucessão e o equilibrista Gilberto Gil

Vitor Hugo Soares

No carnaval que passou, o artista Gilberto Gil transitou entre a Bahia e Pernambuco com a naturalidade de quem se sente em casa, nas duas pontas emblemáticas da geografia nordestina. Em ambas ele soltou o seu canto universal e fez o seu discurso políticoazeitado na técnicados melhores equilibristas em cima do arame.

Ou do muro, para quem preferir. À moda dos emblemáticos versos de “Tá Combinado”, a composição do conterrâneo, parceiro e amigo do peito, Caetano Veloso, o santamarense do Recôncavo baiano, com um pedaço do coração também pernambucano.

O fato é que música e política andaram sempre juntas e entrelaçadas durante a passagem recente do autor de “Aquele Abraço” pelas duas capitais essenciais do Nordeste – cultural e politicamente falando. Nas ruas, nos aviões da “ponte aérea”, nas rodas públicas e nas conversas de bastidores no Camarote 2222, que o cantor armou com Flora, a mulher e empresária, no coração da festa em Salvador e Recife.

Lá e cá o artista deitou e rolou: Articulador arguto desde o tempo dos bancos estudantis no Colégio Maristas de Salvador e da Faculdade de Administração da UFBA, além da marcante presença e liderança que sempre exerceu na construção do pensamento e da ação do movimento da Tropicália (o pensador e poeta pernambucano e amigo, Jomard Muniz de Brito, que o diga), Gil demonstrou nestes dias “de pique”, como dizem os soteropolitanos, estar em plena forma, apesar dos mais de 70 no couro.

Nas margens do Rio Capibaribe, ou na beira da praia do Farol da Barra, juntinho das ondas da Baia de Todos os Santos, o artista e agitador político-cultural, ex-vereador verde da capital baiana e ex-ministro da Cultura do governo petista de Lula, frevou, sambou e falou, bem ao seu estilo e maneira. Fez a festa de alguns, desagradou a outros, mas isso é do jogo democrático.

Do jogo e do Carnaval, tempo, em geral, das melhores polêmicas brasileiras, desde a época do Entrudo e das marchinhas e frevos de rua.

Gil aproveitou:

Dirigiu louvação em pencas para a amiga e companheira de ideais ambientalistas, Marina Silva, da Rede; prometeu apoio na campanha presidencial de Eduardo Campos (PSB); fez festa para a capacidade política e de gestão do prefeito ACM Neto (DEM); lançou acenos de simpatia democrática para o governador petista Jaques Wagner, mas revelou que se seu título de eleitor ainda estivesse em Salvador, votaria na senadora Lídice da Mata, a candidata socialista ao governo da Bahia nas eleições sucessórias deste ano.

A salada tropical servida na festa seria, talvez, o suficiente para consagrar um astro qualquer do equilibrismo. Mas isso ainda é pouco em se tratando do autor de “Super Homem”, um mestre na arte de caminhar sobre arames, cordas ou muros.

Na quinta-feira pós-carnaval, o repertório de Gil ainda não estava esgotado. Pelo contrário. Em entrevista ao editor de Política da Tribuna da Bahia, Osvaldo Lyra, publicada na edição impressa do diário baiano, o artista palanqueiro exercitou, ainda com mais incrível poder e habilidade para dar nó em pingo d’ àgua, o seu aparentemente inesgotável arsenal de rematado equilibrista.

No entanto, provocador e polemista também, e dos bons, quando quer:

No plano local, por exemplo, previu que apesar do estado de graça em que vive atualmente o prefeito ACM Neto com a população da capital, a oposição ao PT e seus candidatos (Paulo Souto ou Geddel Vieira Lima, no palanque comandado por Neto, e a senadora e ex-prefeita Lídice da Mata, no palanque de Eduardo Campos) terão dificuldades de chegar fortalecidos ao interior.

“Jaques Wagner é um governo muito bem avaliado no Estado da Bahia, no interior. Ele fez muita coisa na área de estradas, transportes e ajuda ao agricultor. O governador foi muito prejudicado na capital, principalmente por causa das greves (da PM e dos professores)…, registra Gil, na resposta a uma pergunta na entrevista da TB.

Perguntado se Wagner terá dificuldades para eleger Rui Costa, o petista que o governador escolheu para ser o seu sucessor, Gil negaceia: “Não sei”, disse, entre risos. Mas sem fugir da raia e aproveitando a deixa para jogar um pouco de álcool e aumentar a fogueira do debate político nacional da sucessão:

“Isso é uma discussão que sempre volta: se Lula ia ter dificuldades de eleger o sucessor por causa disso e daquilo, por conta do Mensalão… Se a Dilma vai ter facilidade para se eleger ou não, enfim, isso é uma discussão que volta sempre. Isso alimentamuito a própria relação da imprensa e do papel que ela tem, junto ao público. Essas interrogações alimentam esse trabalho, mas não se sustentam em nada”, dispara Gilberto Gil, sempre antenado com as melhores parabólicas e sempre surpreendente, mesmo quando se imagina que o artista baiano esteja prestes a perder o equilíbrio.

Resumo da ópera, como diz o jornalista, publicitário e blogueiro Chico Brunoo: Terreiros em chamas, de Salvador a Recife, passando por Brasília.Aprovando ou discordando do que ele pensa e diz,no entanto, seria recomendável a governistas e oposicionistas, ouvir e analisar o que o equilibrista Gilberto Gil anda falando.

Ou não? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

vangelis.a on 8 Março, 2014 at 2:08 #

Só resta o iô, iô, iô. A voz dele já foi pras cucuias há tempos, literalmente… UI!


luiz alfredo motta fontana on 8 Março, 2014 at 9:12 #

Caro VHS!

Este “paulista” pede socorro!

“Rei morto, rei posto
Devo estar disposto
A conhecer o interessado
Na minha solidão
Minha desilusão
Na vaga aberta na minha paixão”
(Gilberto Gil – A Notícia)

O “clown” continua cumprindo sua sina,
resistir aos mimos é tarefa descartada.

Gil, que deixou saudades daquele violão atrevido, acomodou-se como “triunfo” de Lula. Foi servido em cerimônias neste “mundão” afora, em acordes dissonantes, como é de lei.

Para quem achou belo o tal “Barba”, nenhum mistério em encantar-se com Lídice, aquela que passou os últimos anos elogiando Wagner, toda semana, da tribuna do Senado.

Posar com Marina pode render alguma trilha sonora em alguma manifestação verde. Ou seria amarela?

Aceita-se repúdio ao olhar distante deste “paulista”, as aspas admitem o pejorativo, mas, nada além de discursos semanais, em louvor de Wagner, foi visto. Lídice, desculpem, é apenas isto, e não combina com a leveza, a ligeireza, o brilho, do som daquele Gil que realmente conta, antes de servir Lula, o “Barba”.

Socorro Oswald de Andrade:

“Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.”


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