Waltinho Queiroz com a mortalha do Jacu

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CRÔNICA

A mortalha furada

Gilson Nogueira

O Ôôôô!!! de Bel Marques invade o espaço da sala onde minha mulher o vê na TV Aratu. O heróico Canal 4, a tevê do galinho, que, hoje, como eu, deve estar com uma saudade retada dos carnavais que tinham, sem tirar nem por, a essência do Carnaval. Ou seja, cheiro de povo, em cada canto. A Aratu com gosto de Gincana da Primavera que não sai do ar sabe disso.

Junto ao som do chicleteiro mor ouço o de um tamborim solitário pedindo socorro. É o samba sozinho subindo a ladeira que vai dar no Campo Grande, imagino, enquanto organizo a bagunça do viajante que chega carregado de paixão por sua terra.
O sambinha menino tem um resto do Carnaval, no repique do couro fino, que não queria morrer. Lembrava-me o Quebra Flandre e, logo depois, a charanga do Broco do Jacu, entre outros grupos revolucionários e transgressores, no bom sentido da palavra, anunciando, sem querer, os últimos acordes da festa que viria a se tornar mote publicitário para encher os cofres dos marqueteiros de ocasião, ou, como poderia dizer Tasso Franco, jornalista que integrou, como eu, a famosa turma de 1971 da Ufba, dos “ os dendê no sangue”.

A felicidade tinha ritmo. E fantasias. A Bahia não se vestia de abadás padronizando a mesmice sem graça. E possuía os caretas, os incríveis foliões que perguntavam “ Você me conhece? ” às criancinhas nos braços das mamães. Era um baile de amor e alegria, na sensacional passagem dos personagens vestidos de ilusão, de sábado até terça-feira, nas ruas e avenidas da capital do berimbau.

Não havia campanhas contra a violência, que se limitava a porradas com a duração de um acorde do Trio Jacaré. Até que o Carnaval da avenida aberta para os sonhos de rei baixou o pano, para nunca mais, sem forças para enfrentar o poder dos irracionais superiores.

Ficou, no espaço, principalmente, o do centro da Cidade de São Salvador, uma mortalha, furada pelas traças, resistindo ao tempo, pendurada na janela de uma casa velha, acreditando que poderá, um dia, voltar a ser o uniforme da autenticidade da festa, hoje, um espetáculo midiático, sem gosto de nada.

Até os que estão acostumados a sair do chão com as mãozinhas para cima se assustam como eu estou, agora, tremendo feito vara verde, ao escutar o som do motor do helicóptero da polícia. É Carnaval ou uma guerra, meu rei?

Gilson Nogueira é jornalista, bamba de muitos carnavais e colaborador do BP

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