http://youtu.be/3kRIybECiA0

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CRÔNICA

A Grande Beleza em pleno Carnaval

Janio Ferreira Soares

Ainda sob o impacto dos cortantes diálogos desferidos pelo escritor Jep Gambardella na esplêndida Roma em A Grande Beleza (que amanhã deverá ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro), me pus a refletir às várias formas de encantos que cada um, ao seu modo, cultua, que vão muito além das concepções idealizadas pelo traço humano ou pelas intervenções da natureza.

Para nós sertanejos, por exemplo, é comum o belo extrapolar as fronteiras do concreto e surgir em forma de aromas, sons e gradações, que podem até soar alheios a olhares urbanos, mas não aos sentimentos dos que vivem em torno de suas fontanas di trevis de solos rachados e de seus farpados coliseus, repletos de animais dizimados por gladiadores vestidos de seca. Abaixo, floreio alguns exemplos de alumbramentos imateriais vistos e pinçados em papos ao redor de uma fogueirinha clareando uns três vira-latas de viés, desses que não se cansam de abanar os rabos a cada palavra parecida com seus nomes.

Recordo do velho João Vaqueiro tragando seu cigarro de palha com o charme de um Gambardella aboiador, falando do fascínio em ver suas galinhas ciscando ao som de uma porteira rangendo ao vento, enquanto um tum-tum de uma mão de pilão pisava uma paçoca de carne, que logo mais faria companhia a um bule de café para os de casa e quem mais chegasse. Lembro também de Iran, na solidão absoluta de sua roça no Raso da Catarina, admirando a vastidão dos baixios amarronzados, sentado sob uma algaroba quase despida de folhas, que triscava suas bajes num cajueiro em flor, vizinho de um coqueiro brandindo em sua palha um delicado ninho de pêga, cujo requinte arquitetônico merecia um tema tocado pelo Kronos Quartet em tributo ao pássaro que o criou.

Voltando ao filme, Gambardella, autor de um único romance, ao ser perguntado quando escreveria o segundo, diz: “não consigo. Roma me desconcentra”. Taí uma boa desculpa para os que cobram meu livro. Como escrevê-lo diante das luas de março, das cores de abril, dos cheiros de maio, das trezenas de junho, desse sertão, enfim?

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Comentários

Cida Torneros on 1 Março, 2014 at 12:43 #

Vou ver logo, se puder, no domingo, em pleno carnaval carioca! Sua abordagem me faz rever a Roma que me desconcentrou em 2011, quando lá cheguei, aos 61 de idade, e era como se tivesse 21, uma paixão incontida e a sensação de dever cumprido. Talvez a grande beleza esteja mesmo no sertão, no sonho, na história, no cinema, e, agora, na saudade da Roma eterna, misteriosa, venturosa, e, sobretudo, bela! Obrigada!


Olivia on 1 Março, 2014 at 21:12 #

Deixe de onda, Janinho, seu livro é muito esperado, ande logo. Bjs


Janio on 2 Março, 2014 at 7:42 #

Bjs, Cida e Olivinha.


Luiz do Campo Grande on 2 Março, 2014 at 10:57 #

Meu caro Janinho: continuo na grande expectativa de seu Livro, destacando-se as deliciosas crônicas. Se não se constituir uma ofensa, permita-me dizer-lhe que colaborarei no que possível para tamanha e tão aguardada empreitada (desde que acompanhada da degustação de vinho que continuo esperando a presença do nosso Vitor Hugo das barrancas do velho Chico).


Janio on 3 Março, 2014 at 8:45 #

Abração, querido Luiz.


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