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Brizola:história exemplar para dias
de desesperança

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ARTIGO DA SEMANA

FHC e Barbosa: a quinta-feira triste

Vitor Hugo Soares

Quinta–feira, 27 de fevereiro. Brasília, seus signos e emblemas de poder desfilam na sede do Supremo Tribunal Federal. Em Salvador, a muitos quilômetros de distância, o carnaval de 2014 começa a tomar conta das ruas, avenidas e becos. O contraste é evidente mas, de um lado e do outro, o jogo político em ano eleitoral é o pano de fundo, de tudo.

Desde o tempo do falecido ex-governador Antonio Carlos Magalhães é assim: a folia tem oficialmente seis dias na Bahia, por decreto publicado no Diário Oficial. E atrás dos trios elétricos e nos camarotes, onde desfilam eleitores e candidatos – artistas e propagandistas fazendo a ponte – é a política, a grana e as mais estranhas transações que comandam.

Agora ACM Neto (DEM) é o prefeito da capital e tem a faca e o queijo do jogo da sucessão nas mãos, nas hostes das oposições no estado. Navega na crista da onda da aprovação popular em todas as pesquisas de opinião (política e administrativamente) e a festa se inicia prometendo uma animação como há muito não se vê na terra do avô dele. O governador Jaques Wagner (PT), em maré vazante de fim de governo, corre atrás, e faz esforço dobrado para empurrar o secretário Rui Costa, pesado candidato por ele escolhido à sua sucessão.

De volta ao cenário de Brasília, na quinta-feira, 27. Vejo pela TV Justiça, em transmissão ao vivo para o País, que o pleno do STF acaba de apreciar os embargos infringentes, recusando a imputação, por 6 a 5, do crime de formação de quadrilha a mais de meia dúzia de condenados do Mensalão, que já estão presos por corrupção e outros crimes. Entre eles, três maiorais do PT: José Dirceu, José Genoino e Delúbio.

Contribuíram decisivamente para a reviravolta no STF, desde a véspera, dois ministros que não participaram da primeira fase do julgamento histórico: Luis Roberto Barroso e Teori Zavascki. Com jeitos peculiares de “pongar” no bonde andando, eles viraram o jogo quase na hora do apito final.

O presidente do Supremo, relator do Mensalão, Joaquim Barbosa, acusa o golpe visivelmente. Lastima e reage bem ao seu feitio: sem firulas, com palavras contundentes e tom de “alerta à Nação e à sociedade brasileira”. Aponta para a nova maioria que acaba de se formar na Corte brasileira.

“Esta é uma tarde triste para o Supremo Tribunal Federal”, diz Barbosa. E expõe suas razões: “Porque, com argumentos pífios, foi reformada, foi jogada por terra, extirpada do mundo jurídico, uma decisão plenária sólida, extremamente bem fundamentada, que foi aquela tomada por este plenário no segundo semestre de 2012”, acrescenta, de pé, apoiado na sua poltrona de magistrado, como se estivesse sendo apunhalado, também, pelas dores da coluna que há anos o atormentam.

Desligo a TV e corro para o computador à procura de detalhes e das repercussões da “virada”. Mas o que vejo primeiro e mais me chama a atenção é a Frase do Dia no alto deste Blog do Noblat.

“O Brasil precisa de ar novo, sangue novo. Minha geração já passou. Nós já morremos”. São palavrasdo ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, recolhidas do discurso do principal líder do PSDB. Feito um dia antes, no Senado, na sessão especial comemorativa dos 20 anos do Plano Real.

FHC, reconhecidamente, é um tucano otimista e figura bem humorada e mordaz. Além de político inteligente e hábil, que não costuma bater prego sem estopa. Vale o esforço de tentar decifrar o sentido da “frase do dia” e é aconselhável, aos seus aliados e adversários, que isso seja feito no contexto geral do discurso dirigido aos parlamentares reunidos no Senado para ouví-lo.

A deduzir pela frase em sí, no entanto, fica a impressão de FHC ter sido contaminado, também, pelo clima de pessimismo que rondou o Planalto Central do Brasil nesta semana de pré-carnaval. Ou então ele não quis perder a piada, coisa provável e bem ao seu estilo. O futuro dirá, pois o tempo apesar dos trompaços e reviravoltas, continua a ser o senhor da razão. E o artífice principal da composição das nuvens. Na política ou na justiça.

Enquanto reflito sobre estas coisas, a memória me reconduz aos anos 70, quando a Operação Condor, de triste lembrança, sobrevoava as ditaduras que grassavam em praticamente toda a América Latina.Trabalhava então no Jornal do Brasil. Andava de férias no Uruguai, pouco antes da ditadura local decretar a expulsão do ex-governador Leonel Brizola, que iria parar nos Estados Unidos do governo Jimmy Carter, na penúltima etapa de seu longo exílio.

Levado com Margarida (minha mulher e também jornalista) pelo querido amigo e exilado brasileiro Paulo Cavalcante Valente, fomos à estância onde o líder gaúcho vivia com dona Neusa e família no povoado de Carmem, província de Durazno. Um jantar à luz de lampião de gás, seguido de conversa rica, informativa e instigante, que entrou pela madrugada.

Sob pressão das ditaduras do Brasil e do Uruguai, com os agentes da Condor rondando sua casa, sua vida, sua família, Brizola durante a conversa parecia desanimar, às vezes, mas nunca perdia o fôlego. Horas antes, havia pedido para fotografá-lo. Queria guardar uma imagem da visita. Ele recusou com um sorriso amistoso. E falou com Margarida, com a câmera já engatilhada:

“Eu sou o passado. Fotografe minha neta Laila (filha de Neusinha, que mal começava a andar). Ela é o futuro”.

O visionário político brasileiro estava enganado, picado talvez pelo mosquito do pessimismo daquela época de trevas no continente. Dias depois ele foi expulso pela ditadura uruguaia e recebido pelo governo democrata de Carter. Passou em seguida por Portugal e retornou ao Brasil nas asas da abertura. Nos braços do povo foi eleito governador do Rio de Janeiro. Fez escolas e continuou fazendo história e brigando até morrer muitos anos depois. Até o Sambódromo, coração e pulmão do carnaval carioca, que comemora aniversário este ano, ele construiu com Darcy Ribeiro.

Uma boa história, talvez, para o ministro Joaquim Barbosa e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Quem sabe, depois do carnaval passar, as nuvens serão outras no País? . Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luís augusto on 1 Março, 2014 at 9:07 #

Caro Vitor, mesmo conhecendo de sua viva voz esse relato, jamais deixo de me emocionar com ele.

Diz-se que o PT não apoiou a Constituição, o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas o grave mesmo foi a adversidade imposta a Brizola, o “populista”, o “caudilho”, o “centralizador” que queria construir “pensões” para a juventude brasileira.

Nem quando foi vice de Lula, para perder, ele serviu. “Não nos ouviam”, exclamava Brizola com sua boa-fé, tempos depois, comentando a campanha.

Agora, se apropriam do Getúlio sempre renegado e até do cadáver de Jango.


luiz alfredo motta fontana on 1 Março, 2014 at 9:42 #

Caro VHS

Enfim um carnaval em cinzas.

Festejo, que é bom, só na Papuda.

FHC?

O que usurpou um plano econômico do governo Itamar? Ou o que viveu de patrocínio da Fundação Ford, até unir-se a Covas, e surrupiar Ulisses, com a participação, alegre e insana, de Franco Montoro, fundando o tal partido representado pela graciosa ave vestida em “black tie”, mas com um espantoso bico carnavalesco?

Dirceu triunfa, enquanto seu comandante supremo exita entre manter o poste ou dar à cara. Fará campanha com o codinome “Barba” em homenagem ao Tuma?

Por fim esse bloco canhestro fantasiado de togas imensas.

Os novatos pagam o pato, mas e as “Roses” e Carmens Lúcias” que deram o caminho socorrendo “Lewandowskis”e “Toffolis”, na resistência franciscana ao reconhecimento de “quadrilha”?

Barroso o melífluo, e Zavascki, o circunspecto, apenas retribuíram o que Fucks não cumpriu. em boa linguagem futebolística, “mataram no peito”.

Voltando ao FHC, sua maior contribuição foi criar e embalar a tal “governabilidade”, em cujo nome, “Sarneys” e “Renans”, posam de destaques no Planalto Central, não importando quem está de plantão com a tal faixa presidencial.

O resto é só cinzas, inclusive as da minha geração.


Rosane Santana on 1 Março, 2014 at 10:01 #

Caro Luis,
Belos registros acrescentados aas memórias de Vitor. Nada como a História!


luís augusto on 1 Março, 2014 at 14:18 #

Ró-Ró, pior vai ser o juízo final, para todos nós! Mas não tenha medo que eu já estou tremendo.


Rosane Santana on 1 Março, 2014 at 23:52 #

Triste Brasil, amigo!


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