Villaró: o artista na Casa Pueblo, em Punta BaLlenas

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CRÔNICA

A partida de Villaró da Casa Pueblo

Maria Aparecida Torneros

A semana aqui está corrida e o carnaval invade minha cidade, o Rio de Janeiro. Alheio-me ao dito festejo, por opção e certo cansaço. Encontro-me em fase vagarosa da vida, ensimesmada, ainda que isolada em pequenos instantes para chorar perdas de pessoas chegadas e o acompanhamento da avançada velhice materna, com seus percalços e aceitação.

Minha vida tem sido, ultimamente, um ir e vir de reflexões e cuidados de saúde, além de certa decepção existencial que busco consolar com leitura constante, boas recordações, alguns telefonemas com vozes queridas, a prática da meditação, as orações cotidianas e o testemunho de teatro ora politico, ora judicial, ora midiático, que me cercam.

Pois bem, entre os livros que tenho relido, hoje acordei disposta a rever a doçura das páginas fortes de um exemplar que comprei em 2010, autoria do artista uruguaio Carlos Paes Vilaró, quando conheci sua Casa Pueblo, em Punta Ballena.

Pois reli, sentada na espreguiçadeira da minha calçada, por duas horas seguidas, 77 páginas e dei uma paradinha para tomar uma água.

Entrei em casa, liguei o tablet, mexida com palavras que voltaram a me emocionar, onde ele descreve sua saga, em 1972, de busca ao filho que estava desaparecido em virtude da queda de um avião na cordilheira dos Andes, no Chile. O jovem viajara com sua turma para jogar rubgy e sofrera o acidente. Um pai fervorosamente ávido do reencontro empreendeu viagem e foi atrás do milagre acreditando em indícios que lhe chegaram até via paranormal holandês que indicou que o jovem estava vivo.

O episódio comoveu a humanidade na época, porque , ao serem resgatados os sobreviventes, constatou-se que para viver, tiveram que se alimentar de carne humana, no cume de montanhas nevadas, perdidos da civilização, na esperança de serem vistos por alguma das equipes de busca.

Pois , ao acessar o google, agorinha, e ver noticias sobre o talentoso e aventureiro pintor , eis que sou surpreendida pela notícia da sua morte ocorrida na última segunda-feira, na Casa Pueblo, aos 90 anos.

Fico sentida e ao mesmo tempo sensibilizada com a sintonia de um homem cujo testemunho me ressurge em admiração.

Volto ao livro, destaco um trecho do seu final:” meus olhos se encheram de lágrimas. A dor e a alegria se misturam… Foi por intermédio da minha voz que o país soube da verdade… ”

Depois de meses , os sobreviventes foram encontrados, e o pai louco como era chamado Carlos Villaro, abraçou seu filho Carlitos, que foi sua inspiração na vida, junto das filhas, da família, dos amigos e da arte.

Viveu 90 anos, para nossa sorte! Viveu para nos contar sobre a esperança e sobre a lua que o uniu ao filho perdido na cordilheira andina, onde aconteceu o milagre do reencontro.

Cida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Cida

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Comentários

Cida Torneros on 28 Fevereiro, 2014 at 6:11 #

O nome do livro: ” Entre meu filho e eu, a lua”.


Graça Azevedo on 28 Fevereiro, 2014 at 10:12 #

O por de sol na casa/museu é um espetáculo inesquecível. Como ele.


regina on 28 Fevereiro, 2014 at 15:13 #

Cidinha, sinto que o prato tá cheio e já não da mais pra engolir…


Claudeti J. Dysasz Silveira on 6 Abril, 2014 at 17:16 #

Tive o privilégio de conhecer e ter um quadro seu autografado, em uma viagem que fiz ao Uruguai. Realmente sua obra é um espetáculo inesquecível.


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