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Ramona:Mais Médicos em xeque

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ARTIGO DA SEMANA

Brasil 40 Graus e A República das Abelhas

Vitor Hugo Soares

Quando a temperatura sobe ao mesmo tempo – meteorológica e politicamente falando – neste começo de verão brasileiro, carregado de eletricidade, raios, apagões e fatos estranhos, que explodem em série e com avassaladora rapidez, nada como ter um bom livro na cabeceira, ao alcance das mãos e dos olhos.

Melhor ainda se for algo como “Carlos Lacerda: A República das Abelhas”, o recém-lançado romance histórico de Rodrigo Lacerda. Uma daquelas leituras alentadas, atraentes, bem escritas e de impressionante atualidade e qualidade literária, cuja narrativa atravessa séculos sem cansar o leitor. Ao contrário: ajuda a enfrentar e até entender um pouco melhor e com a dose indispensável de humor, esta geléia do Brasil 40 graus deste começo de 2014, ano de eleições quase gerais, a começar pela sucessão presidencial.

Assim fica mais fácil, também, suportar o repuxo jornalístico, político e emocional de uma semana do tipo desta que estamos passando.

Vale registros pontuais dos fatos, para contextualizar esta salada tropical para dias de calor e chapa quente:

1 – Novo apagão elétrico na região Sudeste (e praticamente as mesmas desencontradas e complacentes explicações oficiais, em especial as do indefectível ministro Edison Lobão. Não faltou nem a velha “culpa do raio” no desligamento da rede, apesar da presidente Dilma Rousseff, uma especialista no assunto, afirmar reiteradamente que a nossa rede elétrica é protegida e imune contra este tipo de fenômeno natural e comum em praticamente todas as regiões do país. Em quem acreditar?

2- A médica cubana, Ramona Rodriguez, do programa “Mais Médicos”, do governo federal, afirma ter sido enganada na assinatura de seu contrato de trabalho. Com medo da Polícia Federal, foge do Pará, se abriga no gabinete do deputado Ronaldo Caiado, do DEM, no Congresso, em Brasília. Pede asilo no País e anuncia ação trabalhista em defesa de seus direitos sonegados. Embate político e diplomático dos mais quentes à vista em ano eleitoral. Dê no que der, está aberto um buraco sem tamanho na credibilidade do programa na área de saúde, no qual o governo petista de Dilma aposta as suas melhores fichas.

3- O ministro presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, relator do processo do Mensalão, retornou de viagem e adotou, sem demora, providências que deveriam ter sido tomadas pelos substitutos eventuais em sua ausência (os ministros Carmem Lúcia e Ricardo Lewandowski): assinou a ordem de prisão do ex-deputado e ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, condenado por corrupção. Este se entregou na Polícia Federal e está recolhido no presídio da Papuda. Simples assim, como deve ser nos regimes de justiça e democracia plenas.

4- A espetacular, inteligente e bem sucedida investigação multinacional (Brasil, Argentina, Espanha e Itália), que culminou com a surpreendente prisão na cidade italiana de Modena, de Henrique Pizzolato, único condenado fugitivo do processo do Mensalão. Foi preso com passaporte e outros documentos falsificados, do irmão morto há mais de 30 anos, e 15 mil euros em dinheiro vivo. Longo e largo fio de meada, que pode conduzir a muitas falcatruas mais do ex-diretor de Marketing do BB, e de outros próximos a ele, como se suspeita na polícia.

Se tudo isso não bastasse, tivemos ainda duas imagens marcantes e sintomáticas do Brasil destes dias temerários: o punho cerrado e levantado da bravata infantil e provocadora do deputado André Vargas (petista vice-presidente da Câmara), na desafortunada encenação (para usar uma expressão do gaúcho Leonel Brizola) ao lado do ministro Joaquim Barbosa. O simbólico gesto comunista de resistência política e ideológica, no passado, transformado em ato patético e lamentável de apoio e solidariedade a condenados por crimes de corrupção. Uma lástima, de repercussão internacional.

Agora um breve interlúdio.

Para falar de “Carlos Lacerda: A República das Abelhas”, livro referido no início deste artigo, que tenho lido, avidamente, nestes dias de Brasil 40 graus. No atraente e comovedor romance histórico de Rodrigo Lacerda, é o avô do autor, Carlos, que morto e enterrado, conta os bastidores da história pessoal de um dos mais controvertidos e brilhantes políticos do seu tempo, da história da sua família e do País.

Da Primeira República à morte de Getúlio, em agosto de 1954, misturam-se incríveis personagens familiares: republicanos, abolicionistas, liberais, socialistas, comunistas. “Explosivos, admirados, idealistas e destruidores sistemáticos, eles formam esta República das Abelhas”, brilhantemente descrita por Rodrigo.

Mais não digo, para não estragar o prazer da leitura de um livro que recomendo com entusiasmo. Destaco apenas, a título de aperitivo, o trecho em que o personagem central do romance assinala que o líder deve acreditar em si próprio como o Padre Vieira acreditava no Evangelho. Confiante em que o acerto do conjunto se sobrepõe às passagens de argumentos frágeis.

“O falso líder é fácil de achar. Ele não erra, porque não age. É o estadista do óbvio”, ensina o personagem da “República das Abelhas”. Mais não digo, nem comento, a não ser que o livro de Rodrigo Lacerda ensina muito mais e é muito agradável de ler. Confira.

Vitor Hugo Soares, jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 8 Fevereiro, 2014 at 7:47 #

Caro VHS

Aqui a imagem que traduz teu artigo:

https://www.youtube.com/watch?v=gmjQ9_95yiE

Ao mais, ela, Dona Dilma, é mesmo o arquétipo de pesadelo.
Quem mandou duvidarem que não existiria nada pior que FHC ou Lula?


Graça Azevedo on 8 Fevereiro, 2014 at 10:23 #

E para completar, aqui na província, o aumento extorsivo do IPTU.


luiz alfredo motta fontana on 8 Fevereiro, 2014 at 10:34 #

Caro VHS

Talvez da Bahia o panorama seja mais confortável, afinal o vento atende os chamados de Caymmi, e os atabaques abrem caminhos para os Orixás.

Talvez……..

Mas o abafar dos ares de quem pensa ter sobrevivido aos anos de chumbo, o desânimo de ter sonhado além de 1968, ter convivido com o apocalipse travestido de Médici, ter assistido Ulisses naufragar em noite escura, parece asfixiar de vez a poesia.

Líderes?

Para que?

Prefiro ainda ouvir o barulho da gente humilde tomando de vez as ruas, prefiro o cheiro do dênde invadindo as praças, prefiro o riso dos Exus e o encanto de Iansã, Xangô e Ogum decretando feriado nacional, Iemanjá e Oxum abrindo o desfile na avenida principal.

Quem sabe assim, esta minha geração ao dizer adeus, o faça sorrindo, quem sabe?

Caso contrário, o sorriso amareleceu, perdeu o viço, e o prazer escondeu–se numa esquina perdida.

Abraços!!!


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