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JORNAL COMENTADO

“Amor à Vida”:Muito além do beijo gay

Tony Pacheco

“Amor à Vida” mostra que pais podem criar filhos-monstros
(na Rede Globo, ontem e hoje, 21 horas)

O beijo na boca entre dois homens na novela “Amor à Vida”, sem dúvida é um marco na capacidade de inspirar tolerância que uma obra de arte pode ter, mas para lá do simbolismo sociológico e antropológico, a mensagem fundamental da novela gira em torno da CAPACIDADE DE REDENÇÃO das personagens principais, vividas pelo ator Mateus Solano (o “Félix”) e “Dr. César”, o médico pai de “Félix”, vivida pelo co-protagonista Antonio Fagundes. A relação entre os dois também deixa uma mensagem clara: BOA PARTE DOS MONSTROS DO MUNDO SÃO CONSTRUÍDOS PELOS PAIS DENTRO DE CASA.

Não é preciso ser freudiano (Sigmund Freud, “Pai da Psicanálise”) para entender que se os pais não dão amor, atenção, inspiração e uma base sólida aos filhos, elevando sua auto-estima, os filhos com certeza não terão forças para enfrentar as dores do mundo. Muitas correntes da Psicologia, da Psiquiatria e da Psicanálise quiseram desmontar a premissa básica dos estudos de Freud sobre a importância do passado no presente e no futuro de todos os seres humanos. Mas não conseguiram. E “Amor à Vida” foi uma boa reflexão sobre isso: em boa parte, não somos os únicos responsáveis pela construção de nossas personalidades. O entorno familiar é capaz de destruir o lado Bom de um ser humano e o jogar no lado Mau, como única arma para enfrentar a rejeição e o desprezo dos pais.

DESTRUIÇÃO DE UM FILHO

A personagem “César” na novela mostra um pai que leva uma vida como a maioria dos homens leva: casado, mas cheio de mulheres. Mas, a vida de profunda entrega ao prazer do pai, convive, paradoxalmente, com uma homofobia cruel em relação à orientação sexual do filho, que prefere homens, em vez do sexo oposto. O pai humilha “Félix” desde criança e não perde uma oportunidade de lembrar ao filho que PREFERIA QUE ELE NÃO TIVESSE NASCIDO. O efeito devastador de uma afirmação dessa só pode ser avaliado por um profissional da área psicológica ou pela própria vítima do preconceito. Saindo de casa num clima de anulação de sua personalidade, “Félix” não encontra forças para lutar contra o mesmo preconceito nas ruas e vê como única saída para enfrentar a selva que é o mundo, a adesão ao “lado negro da Força”, parodiando George Lucas em sua “Guerra nas Estrelas”.
O dramaturgo Walcir Carrasco foi muito feliz na construção da personagem “Félix”, modelando o ódio que um filho desprezado pode ter pelo mundo ao seu redor se não encontra nenhum amor em casa. E mais correto foi ainda mostrando a personagem do pai, “César”, como um devasso sexual que não permite ao filho ter uma orientação sexual diferente da sua, repetindo a máxima de que “POR TRÁS DE UM PRECONCEITUOSO HÁ SEMPRE UM DEVASSO”.

PARABÉNS À GLOBO!

Agora, embora combatida por uma certa elite intelectual, temos que registrar que somente a Globo poderia exibir um folhetim como este. Tão denso, TÃO CHEIO DE VIDA REAL. Nenhum personagem é totalmente bom, nenhum é totalmente mau, como, aliás, acontece NAS NOSSAS VIDAS.
Walcir Carrasco não economizou em nenhum dos preconceitos que a sociedade alimenta em nós, o que também só a Globo poderia ter dado liberdade a um autor para fazê-lo: tem mulheres idosas que se apaixonam por jovens sensuais, tem médico que se envolve com enfermeiras, tem casal de idosos que resolvem retomar a vida sexual, tem gente com AIDS, tem gente que começou bandido(a) na novela e terminou bandido(a), como as personagens “Dra. Amarilis” e “Dr. Jackson”, pois Walcir mostrou que NEM TODO SER HUMANO PERSEGUE A REDENÇÃO, muitos gostam mesmo de viver do “lado negro da Força”. Há até um drama que foge às fronteiras brasileiras, dando um ar de extraterritorialidade corajosa, ao mostrar o amor de uma médica judia por um médico árabe-palestino que fez atentados terroristas contra Israel.
Repito, só a Globo tem coragem de enfrentar a ignorância mediana do público brasileiro e mostrar que a TOLERÂNCIA é, enfim, a mais edificante das humanas características, como dizia John Locke.

* tonY Pacheco é jornalista-radialista formado pela UFBA, psicanalista formado pela SPOB e estudou Economia nas universidades federais de Juiz de Fora e Bahia.

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Comentários

Rosane Santana on 2 Fevereiro, 2014 at 18:02 #

Caro Tony Pacheco,
A capacidade de redenção do ser humano,proporcionada pelo amor, no caso de “Amor a Vida” da vida como ela e’, lembrando Nelson Rodrigues, e’ uma prova de que o presente modifica o passado, que não há determinismos comportamentais provenientes do meio familiar ou qq outro e que a ortodoxia freudiana não faz sentido. Bjs, com admiração.


Rosane Santana on 2 Fevereiro, 2014 at 18:03 #

Correção: no caso de Amor a Vida e da Vida como ela e…


Rosane Santana on 2 Fevereiro, 2014 at 18:15 #

Os pais não podem responder sozinhos pelas bitolas, mas as instituições em geral, além da família, como a escola, a igreja etc.


Rosane Santana on 2 Fevereiro, 2014 at 18:19 #

O que não significa que o ser humano não possa, por determinação própria, transcender essas limitações.Exemplos disso existem aos milhões na humanidade. Mais uma prova de que o presente modifica o passado. Os pais são alvo fácil,mó lado mais fraco e vulnerável e Tb a justificativa para aqueles que não “crescem” , assumindo riscos e responsabilidades pelos próprios atos.


Rosane Santana on 2 Fevereiro, 2014 at 18:23 #

“Eu sou o resultado de meus próprios atos, herdeiro de meus próprios atos; os atos são meu parentesco; os atos recaem sobre mim; qualquer ato que eu realize, bom ou mal, eu dele herdarei. Eis em que deve refletir todo homem e toda mulher.”
?Buda


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