Pontal do Peba, Alagoas: rio e mar
na foz do São Francisco
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CRÔNICA/ANDANÇAS

Tatus-bola e Rivotril

Vitor Hugo Soares

Depois de mais de 10 anos sem ir ao Pontal do Peba, estive lá por esses dias. Para quem nunca ouviu falar desse lugar de nome estranho, trata-se de uma praia do litoral alagoano, na divisa com Sergipe, que além de belíssima tem o privilégio de ser a última estação na longa e sofrida peregrinação do Rio São Francisco antes de ele se jogar no mar.

A propósito desse espetacular encontro entre águas de diferentes sabores e procedências, gosto de imaginar que ali na foz existe algo além da simples mistura de líquidos. É que eu sempre achei que a principal função de todo rio é abastecer o seu respectivo mar com as informações e episódios dos lugares por onde ele passa. Usando uma linguagem atual, rios seriam espécies de sites que alimentam os mares e oceanos de tudo que pegam pelo caminho, já que os mesmos, apesar de gigantes, não passam, como diz um amigo, de enormes barreiros salobros que pouco sabem do que rola fora dos limites de suas penínsulas, estreitos e falésias.

É por isso que eu acho que no momento mágico em que Minas desemboca em Alagoas, de alguma forma lá está Graciliano Ramos, na proa de um barco à vela, dando boas-vindas a Drummond; ou Djavan e Hermeto Paschoal na sombra de um cajueiro, aguardando Wagner Tiso para um sururu de capote regado a sanfonas e polifonias; ou Teotônio Vilela assoviando Coração de Estudante, calmamente esperando Tancredo para uma rolezinho de jangada; ou Cacá Diegues, dirigindo Zaira Zambelli naquela inesquecível cena em que ela toma um banho de rio em Bye, Bye, Brasil.

E já que o lugar permite, divago mais um pouco e penso se algo de mim, por acaso, também não chegou naquele pedaço de mar levado pelo saofrancisco.com.br/velhagloria, nos tempos em que ele ainda zunia solto por entre serras e caatingas sem barragens pra lhe segurar. Mas já resolvi. Da próxima vez que eu for ao Peba, vou catar umas conchas enterradas nas dunas da foz, só pra ver se eu escuto dentro de alguma o som distorcido das risadas da meninada, do modo que eu as ouvia quando ficava mergulhado nas águas do rio que, além de santo, agora é Papa.

Falando em peba, lembrei de outro assunto que tem a ver com um parente seu. É que ao contrário do baiano Nizan Guanaes, que num rasgo de otimismo feladamãe colocou o dele na reta ao publicar nos jornais um texto cheio de onda relatando sua total confiança no sucesso dessa Copa, Fuleiro, um respeitado tatu-bola morador do Raso da Catarina (e sugestão fonética perfeita para uma dupla sertaneja com Fuleco) anda à base de Rivotril.

Como se não bastasse a invasão de maridos corneados em perseguição a Cauã Raymond bem no seu quintal, ele teme que, com essa verdadeira esculhambação que anda rolando nas sedes dos jogos, a imagem de Fuleco – legítimo representante da classe tatubolística e único souvenir que restou depois do monumental episódio das caxirolas voadoras -, fique totalmente queimada diante do mundo e, por tabela, todos os seus companheiros sofram algum tipo de bulling, principalmente por parte dos fanáticos colecionadores de mascotes de copas, que existem aos montes e costumam exibi-los às visitas geralmente na companhia de fotos e slides – até a Copa de 82 –, de fitas VHS – até a de 2002 -, e de imagens digitais, nas mais recentes. Deus me livre e guarde!

Numa de suas últimas conversas, muito nervoso, Fuleiro falou do seu medo de, futuramente, quando um argentino for contar suas aventuras dessa Copa aos hermanos durante uma parrilada regada a quilmes lá no bairro da Recoleta, pegue Fuleco pelo rabo, balance-o como se ele fora um velho rói-rói sem som e diga: “este es el maricon do tatu-bolita, el mascote de una copa de mierda!”, jogando-o em seguida num cantinho atrás de uma vuvuzela com a cara de Mandela impressa no bocal, e de um sombreiro com uma foto de Pelé, sob a frase: “Viva el Rei e Viva Zapata”. Já Fuleco, coitado, ficará para sempre jogado às traças, completamente órfão de padrinhos e madrinhas superpoderosas, apesar de uma mão com quatro digitais impressas no seu casco.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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