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Luiza no Manhatta: boas perguntas e boas respostas

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ARTIGO DA SEMANA

O copo de Luiza no Manhattan Connection

Vitor Hugo Soares

Está bem, eu confesso meu senhor: Tornei-me, de uns tempos para cá, um ouvinte assíduo, assumido e quase inveterado do programa Manhattan Connection, transmitido aos domingos em canal privado de televisão.

Três entrevistas, mais recentes, foram decisivas para aumentar ainda mais o meu interesse – de telesespectador comum, e tambem jornalista, em busca de programas fora do circuito ramerrão quase padronizado e demente que prolifera como praga na TV brasileira – pela atração do canal privado Globo News no ar todo domingo, a partir das 23 horas.

Refiro-me às conversas com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na última edição de 2013; um pouco antes a de José Bonifácio Sobrinho, o Boni, craque em televisão, doublê de gourmet internacional; e, é claro, a surpreendente entrevista com a empresária Luiza Trajano, domingo passado.

Esta última segue ainda espalhando brasa nos comentários, debates e análises na mídia em geral, mas principalmente nas chamadas redes sociais – Twitter e Facebook à frente.

Nos três casos citados, a confecção com base na antiga receita e fogões onde em geral se produzem e são cozinhadas as melhores entrevistas jornalísticas: Boas perguntas e boas respostas, temperadas com sal, pimenta a gosto e inteligência aguda dos dois lados.

Mesmo que em um dos lados não esteja uma rematada figura de sábio, artista ou intelectual, a exemplo do ocorrido domingo, durante a conversa com a dona do Magazine Luiza, a “rainha do varejo no Brasil”.

O Manhattan Connection vem de longe, como dizia Leonel Brizola. Desde as polêmicas encarniçadas de Paulo Francis com Caetano Veloso. Ultimamente, o programa parecia conformado e satisfeito em ir tocando adiante o seu tom blasé. Conversas sustentadas mais na base do incenso, do atiçamento das fogueiras de vaidades, dos embates intelectuais de egos inflados. Ao lado de atitudes abertamente arrogantes de estrelas da companhia: Um certo jeito colonizado e de pouco caso em relação aos fatos, pessoas e coisas fora do circuito de interesses nova-iorquino. Descaso especial com o acontecer das bandas do hemisfério sul.

De repente o sopro de renovação.

Creio até que a data da ruptura foi aquela noite de domingo em que foi anunciada ao mundo, desde a Casa Branca, a morte de Bin Laden. O programa estava no ar, com estúdio magnificamente situado nas vizinhanças das Torres Gêmeas (em reconstrução depois de transformada em escombros mortais da grande tragédia dos Estados Unidos). As emissoras de Radio e TV não falavam em outra coisa, enquanto Manhattan Connection discutia as virtudes das camisarias de Nova Iorque.

A Globo News retirou o programa abruptamente do ar, para entrar com o noticiário da morte de Bin Laden. Um vexame!

Mas são águas passadas. De lá para cá, o Manhattan, sem perda das suas características mais emblemáticas, a partir DA inimitável introdução sonora, começou a se renovar positivamente.

Mistura, não raramente de forma corrosiva – nada bem comportada para os padrões da casa -, política com arte, cultura e variedades, tudo somado a excelentes dicas semanais de turismo, comportamento e inovações. Primeiras críticas dos lançamentos do cinema, teatro, novidades da Broadway. Música de primeira qualidade e bom gosto, integra ainda a saborosa salada de conteúdo internacional, servida de Nova Iorque, Veneza, Miami e São Paulo.

Tudo ancorado com bom humor, elegância e alguns escorregões de memória, pelo jornalista mineiro, Lucas Mendes (que semana sim outras não exibe um clássico relógio, creio que um Cartier, sonho de consumo que Margarida,minha mulher e também jornalista, ao meu lado, elogia sempre). Ainda direto de sua famosa e plasticamente bem situada poltrona instalada no estúdio de Nova Iorque. Ao seu lado, o jornalista Caio Blinder e agora mais raramente, “o melhor guia de New York”, Pedro Andrade, no corre-corre que divide o seu trabalho entre a ilha de Manhattan e Miami.

De Veneza, pontua Diogo Mainardi, com sua incrível e inesgotável capacidade de provocar e causar polêmicas. De São Paulo, no lado sul da linha, o comentarista econômico Ricardo Amorim, o mais jovem, mas não menos inteligente, com brilho próprio, e que não foge das provocações do veterano Mainardi.

Em ambiente assim, não raramente o inesperado faz surpresas, principalmente nas entrevistas. É bem o caso do domingo passado, quando a dona do Magazine Luiza foi levada ao estúdio do Manhattan na capital paulista, para uma conversa na qual, a princípio, poucos apostariam um tostão furado, incluindo o jornalista que assina estas linhas.

Recém chegada de uma mega-convenção de varejistas do mundo inteiro em New York, Luiza começou vendendo seu peixe. O fazia com a retórica verde e amarela e ufanista, carregada na singeleza e praticidade dos bons comerciantes. Discorria sobre as maravilhas do ano de 2013, e até contava vantagem, comparativamente com os Estados Unidos, atribuindo o sucesso nacional à qualidade do atendimentos dos vendedores patrícios nas lojas. “Em NY o vendedor nem olha para a sua cara. Aqui lhe carregam nos braços”, disse Luiza Trajano, cheia de entusiasmo.

De Veneza Diogo Mainardi entrou para falar do “aumento da inadimplência” ano passado. Disse que bons preços, como os praticados nas lojas dos Estados Unidos e da Europa contam mais que bons vendedores. Não satisfeito, futucou: ”Acho que a senhora, empresária de sucesso, está enfeitando seu peixe para vender por melhor oferta O Magazine Luiza ao grupo Amazon”.

A entrevistada foi para cima. Desmentiu os dados da inadimplência jogados no ar por Diogo, prometeu mandar via e-mail para Veneza os números corretos que ela tinha nas mãos e falou da metáfora do copo e a imprensa no Brasil: ”nossos jornalistas sempre mostram mais a parte vazia que a parte cheia do copo”.

Nascia aí um rico debate, inclusive do ponto de vista político, que seria a grande surpresa da noite. E que nos dias seguintes incendiaria as redes sociais e levaria até à criação de fãs clubes da empresária país afora. Algo que raros políticos e governantes brasileiros conseguem e que, seguramente, ainda renderá panos pra manga na mídia e nos palanques em 2014. A conferir.

Paulo Francis deve ter vibrado na cova. Salve a Luiza, do Magazine. Parabéns ao Manhattan! Queremos mais.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Mariana Soares on 25 Janeiro, 2014 at 7:15 #

Ótimos texto e análise! Adorei também o programa e a batalha que se seguiu. Ninguém enfrenta Diogo Mainardi e por isso ele se tornou esta criatura insuportavelmente amarga e rançosa.
Também quero mais!


vangelis on 25 Janeiro, 2014 at 10:40 #

TEM BOBO PRA TUDO
Caro VHS, sem de deixar de elogiar o seu texto, vejo com outros olhos esse episódio.
Em matéria de teoria conspiratória, situações como essa tendem a me deixar curioso.
Jornalista experiente fazer entrevista com uma empresária de grande porte sem a devida munição; apenas na base do chutômetro ou do chiste?
Não creio, posso estar errado.
Muitos sabem que entrevistas desse tipo rola o granulário da publicidade, pois é ela quem sustenta a grade da programação.
Ainda mais que o jornalista, autor do questionamento à comerciante, ser filho do publicitário Ênio Mainardi, quem sabe se a pergunta não foi dirigida exatamente para a madame vender o seu peixe?
Marketeiro é bicho danado consegue fazer até com que o capeta faça publicidade…
http://www.youtube.com/watch?v=SGtUihTMypU


Graça Azevedo on 25 Janeiro, 2014 at 10:53 #

Nem preciso dizer mais nada. Mariana já disse tudo.


rita lelis on 25 Janeiro, 2014 at 15:23 #

vangelis, dona arrogância às vezes leva cada susto!!!


vangelis on 26 Janeiro, 2014 at 10:37 #

E por falar nessa senhora que não conheço, relembrar o falecido que “deve ter vibrado na cova”…

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_verdade_sobre_a_morte_de_francis


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