Ruas do cortejo da Lavagem sorriram parra ACM Neto

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ARTIGO DA SEMANA

No Bonfim: Topada de Wagner, avanço de ACM Neto

Vitor Hugo Soares

Dia desses, o governador da Bahia, Jaques Wagner, deu uma topada, em Salvador, e fissurou um dedo do pé. O doloroso acidente se deu durante uma caminhada de preparação física do dirigente político principal do PT, no estado, para cumprir a regra local, segundo a qual, “quem tem fé vai a pé”, no trajeto de oito quilômetros entre o largo da Igreja da Conceição da Praia e a Colina Sagrada da maior devoção dos baianos. Está ali, a Basílica do Senhor do Bonfim dos católicos, poderoso Oxalá dos cultos de candomblé.

Nas escadarias do templo, na quinta-feira, 16, aconteceu a edição 2014 da famosa Lavagem do Bonfim. Bela e grandiosa manifestação de fé e sincretismo religioso. Espelho de diversidade cultural. Festa popular de rua. Com o correr do tempo, termômetro imbatível utilizado há décadas, pelos soteropolitanos, para medir o prestígio de políticos, candidatos e governantes antes de cada eleição.

Convidado pela presidente Dilma Rousseff para ser o coordenador principal, na região nordestina, da campanha governista que tentará garantir mais um mandato para a atual ocupante do Palácio do Planalto, Wagner não é candidato a nenhum cargo eletivo nas eleições quase gerais deste ano.

O “galego” (assim Wagner é chamado pelo amigo ex-presidente Lula) pretende, apenas, como tem proclamado – e isso não é pouca coisa no atual contexto local e nacional – contribuir para a reeleição de Dilma.

Faria isso, principalmente, funcionando como uma espécie de dique de contenção contra o avanço cada vez mais evidente (e preocupante para os atuais donos do poder no Planalto e seus aliados em conflito) do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, postulante socialista à Presidência, nos votos do Nordeste. Sufrágios decisivos nas vitórias de Lula (duas vezes) e Dilma, nos três últimos pleitos presidenciais no Brasil.

O governador da Bahia, é claro, parece decidido a “empenhar o canavial da sogra”, também, no esforço de eleger, para chefiar o governo baiano, aquele que, proclama-se nas hostes oficiais seguidoras de Wagner, seria o mais leal e fiel continuador do seu “legado político” e “projeto de gestão”, o secretário da Casa Civil, Rui Costa, amigo do peito e braço direito na administração. Nome que ele fez boa parte do PT e aliados engolir como candidato ideal à sua sucessão, mesmo sem vontade ou apetite.

Uma topada, nesta altura do campeonato, mesmo às vésperas do cortejo da Lavagem, poderia não representar um mal assim tão completo. Salvo, talvez, pelo incômodo do contundido precisar usar uma desengonçada bota ortopédica nos deslocamentos e ter de enfrentar sorrisos maliciosos de praxe, gozações dos noticiários e da língua ferina de alguns adversários políticos.

O pior desta história – para os petistas e aliados -, ou o melhor – para as oposições na Bahia e no País – é que Jaques Wagner tem na ponta oposta, da corda de comando político, o prefeito da capital, ACM Neto (DEM).

Este, ao contrário do governador, surfa atualmente nas ondas mais elevadas de prestigio e aprovação popular, embora também não seja candidato a nada nas eleições deste ano. O prestígio, registrado nas pesquisas de opinião que mostram Neto como o nome disparado na preferência dos baianos à sucessão do “galego”, ficou cabalmente demonstrado nas ruas da Cidade Baixa, esta semana. Ao longo de todo o cortejo multitudinário da Lavagem do Bonfim.

Ovacionado durante todo do percurso, do cortejo, abraçado, beijado, puxado e solicitado para fotos quase a cada passo, o neto de Antonio Carlos Magalhães recebeu uma consagração popular raramente vista na festa. Carlistas históricos, hoje espalhados nos blocos de apoio a Neto e a Wagner (a maioria no do governador) comentavam: o fato provavelmente teria surpreendido ao próprio avô, um dos mais notórios personagens da festa baiana, se vivo estivesse.

Ao lado do prefeito, no desfile, dois nomes da oposição estadual, nos quais Neto joga suas melhores fichas de apostas para bater o candidato petista à sucessão de Wagner: o ex-governador Paulo Souto (DEM), o segundo preferido nas pesquisas, depois de Neto, e Geddel Vieira Lima, do PMDB, o terceiro. Ambos bafejados pela brisa dos aplausos e aclamação ao prefeito de Salvador, além, evidentemente, do peso político específico de cada um deles.

Bem situada nas pesquisas, também, está a senadora do PSB, Lídice da Mata, ex-prefeita da capital (bem aplaudida no desfile), candidata socialista ao governo. Ao lado da firme e vigorosa ex-ministra do CNJ ( que não participou do cortejo de quinta-feira em Salvador) , Eliana Calmon, ela esquentará o palanque presidencial de Eduardo Campos na Bahia.

Wagner – em maré vazante de fim de governo – foi obrigado a interromper sua caminhada logo depois dos primeiros passos da largada.Teve de embarcar em um carro para “furar a marcha a pé” e ser conduzido ao adro da basílica para a tradicional cerimônia do banho de cheiro das “baianas”.

O governador (um judeu acostumado a frequentar, com naturalidade, terreiros de candomblé em Salvador), visivelmente, sofria com duplo incomodo: as dores da fissura no pé a cada passo da caminhada que ele sabia longa e desgastante, e o constrangimento pela baixa aceitação (e pouco (re)conhecimento) nas ruas na festa da Lavagem, ao candidato petista Rui Costa, que ele tenta empurrar para o seu lugar no Palácio de Ondina.

Em volta do grupo do governador, no cortejo, chegavam os gritos: “Otto para Governador!” (referência ao secretário Otto Alencar, atual vice de Wagner e um dos nomes mais poderosos e atuantes do governo petista. Ele deverá disputar vaga no senado. “Rui Costa para governador”, respondia até a exaustão a claque petista em torno do candidato do partido.

“A Bahia está viva, inda lá”, diz a música famosa de Caymmi. No jogo político e cultural da Lavagem do Bonfim, isto ficou mais que provado nas ruas da festa na Cidade Baixa. É cedo ainda para conclusões, mas é animador!

Salve Oxalá!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares 1@terra.com.br

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