jan
18
Postado em 18-01-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 18-01-2014 11:45

====================================================

====================================================

Se Deus cantasse um blues

Janio Ferreira Soares

Começo de 2014, algum lugar do Brasil. Refastelados na atmosfera de uma alucinante Aurora Boreal importada da Finlândia unicamente para o momento, Jesus e Pedro conversam ouvindo Milton Nascimento e Nana Caymmi cantando Sentinela (se você tiver o disco e quiser ouvir essa canção enquanto continua a leitura deste parágrafo, fique à vontade). Visivelmente emocionado com a melodia perfeita para ocasião tão surreal, Ele diz: “que lugar maravilhoso, hein, seu Pedro? Tinha tudo para dar certo. Veja só como essas partículas de vento solar e poeira espacial se harmonizam com as matas, as montanhas e essas vozes que, deixa eu respirar um pouco, se equiparam aos sons mais celestiais que já entraram nesses ouvidos cansados de reverberar as dores do mundo. E que coral é esse, meu pai eterno!”.

“Por falar em seu pai, você deve se lembrar do que Elis Regina vivia dizendo por aí. Ela sempre falava que, se Deus cantasse, teria a voz de Milton”, diz Pedro, alisando a vasta e prateada barba. “Ou de Ana Carolina”, brinca Jesus, arrancando uma gostosa gargalhada do bom e velho porteiro do Céu, numa clara demonstração de que o humor, embora muitos discordem, também faz parte do divino.

“Agora falando sério, ela estava coberta de razão. Imagine a maravilha que seria se o meu Pai se permitisse uns solfejos à capela enquanto, por exemplo, escolhia os tons que compõem o indescritível degradê das penas do beija-flor, ou então se fizesse um vocalize num estilo meio gospel, meio rhythm and blues, bem no momento em que decidia que o sabor da manga rosa chupada no instante em que é tirada do pé (de preferência de manhãzinha, com a casca levemente orvalhada), seria sutilmente diferente daquela que jaz numa fruteira sobre uma mesa de fórmica com pernas de metalon no centro de uma cozinha qualquer. Poderia também ter dado sequência ao belo assovio na hora em que chamou os ventos e ordenou-lhes que criassem vários caminhos invisíveis lá perto das nuvens, para que as aves de grande porte, como urubus, águias e afins, pudessem usá-los sem a necessidade do açoite de suas lentas asas. Mas infelizmente o meu criador sempre foi muito na dele, não relaxava nunca e realmente foi uma pena não ter aproveitado essa imensa arena sem plateia e sem celulares piscando (ó, glória!), para soltar sua voz num mundo ainda feito de brisa”.

“Por falar em seriedade, como o Brasil anda chato, hein, meu Mestre? As pessoas estão cada vez mais carrancudas e caretas, se irritando com qualquer coisa que fuja desse padrão coxinha que está se estabelecendo por aqui como se fora um primoroso modelo de convívio social quando, na verdade, trata-se de um enorme retrocesso e um péssimo exemplo, principalmente pra essa meninada que está crescendo achando que Justin Bieber e rolezinhos são sinônimos de rebeldia e que músculos e barrigas trincadas à custa de bombas e suplementos são mais importantes que flácidos neurônios viciados em leituras e liberdade de expressão. Outra coisa que me chama a atenção é constatar que a maioria daqueles que se dizem seus fiéis seguidores não herdaram nem um pouquinho do seu bom humor.”

“Você disse tudo, meu querido Pedro. E o pior é que essa turma continua usando meu nome em vão. Agora mesmo os meninos que fazem o Porta dos Fundos inventaram uma brincadeira comigo que eu até achei engraçada, mas que está provocando uma confusão danada justamente no meio daquelas pessoas que só porque vão a missa e me recebem em comunhão com aquelas caras de Madalena arrependida, pensam que meu corpo se desmanchando em suas bocas é o suficiente para livrá-los dos pecados cometidos assim que descem o adro sagrado. Ah, se elas soubessem o Maranhão que lhes espera!”.

Rapaz, já tinha até me esquecido desse problemão. Dessa vez não amoleça o coração diante da turma do ancião de bigode com aquele risinho de Mona Lisa do Calhau. Mas antes ainda dá pra relaxar um pouco. Quer ouvir o quê?”.

“Meu Pai Grande”.

“Tudo a ver. Mudo as cores da Aurora?”.

“Deixe quieto, aumente o grave e vamos imaginá-lo em silêncio.”

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco

Be Sociable, Share!

Comentários

PEDRO MANOEL DE CARVALHO BACELAR on 7 Março, 2014 at 21:59 #

texto primoroso, delicado no contexto, leve e solto, não destoa dos demais (quinzenalmente na TB) o autor sabe esgrimar com sutileza e imaginação fértil os mais variados temas.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos