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OPINIÃO POLÍTICA

Onde estão os nervosinhos

Ivan de Carvalho

Por decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom), a taxa básica de juro, a Selic, teve ontem o seu sétimo aumento consecutivo, numa progressão de alta que agora atingiu 10,5 por cento. Segundo anúncio do Banco Central, a decisão de acrescer 0,50 ponto percentual à taxa, que estava em 10 por cento ao ano não contém viés. Como se sabe, isso significa que a autoridade monetária não dá indicação de tendência para novo aumento, para redução e, como é óbvio, também não garante permanência no percentual alcançado.

Os especialistas explicam – mas nem seria preciso, na atual conjuntura, que dessem tal explicação – que o Copom vem, com os sete aumentos consecutivos da taxa, tentando conter a inflação, que vem apresentando resistência a um arrefecimento.

A elevação da Selic foi avantajada, 0,5 por cento. Isto sugere certo nervosismo da autoridade monetária. Parece que os “nervosinhos” a que se referiu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao gabar-se de que o governo alcançou o superavit primário que fixara e o ultrapassou em R$ 2 bilhões, não estavam no “mercado” nem entre os adversários políticos do governo, mas dentro do próprio Banco Central.
A gabolice do ministro Mantega se revela um tanto ridícula, não só porque os “nervosinhos” de que falou pejorativamente, apareceram afinal dentro da própria estrutura do governo – embora em área relativamente autônoma, e bota relatividade nisso, o Banco Central – como porque, como todos se recordam, o superavit previsto foi alcançado graças à “contabilidade criativa”, ou mais do que isto, graças a manobras como as feitas com as plataformas de petróleo “exportadas” que não saíram do país e a emissão de ordens de pagamento tão no final de 2013 que o desembolso só poderia ocorrer no início de 2014. Assim, o dinheiro “virou o ano” no caixa do governo, embora já não fosse dele. Mais do que criativa, contabilidade enganosa para fazer propaganda idem.

Voltando à razão do aumento de ontem, de 0,5 ponto percentual na Selic, tenta-se com tal elevação conter o consumo, provocando uma elevação dos juros ao consumidor e assim reduzindo a demanda de produtos e também de certos serviços, o que faria cair o preço deles, ou melhor, reduzindo a intensidade do aumento de preços. O futuro dirá de essa redução da escalada dos preços acontecerá e será efetiva. Isto porque o Executivo federal dificilmente conterá seus gastos em ano de eleições presidenciais, para o Congresso e para os governos e Assembléias Legislativas estaduais. E, quando o governo gasta mais do que tem, fabrica inflação.

De qualquer modo, é certo que a economia já está com um crescimento miudinho e que o aumento da Selic, reduzindo o consumo e elevando os juros para as atividades econômicas, tende a desacelerar ainda mais esse crescimento que assumiu a velocidade dos quelônios terrestres, ou, no popular, dos jabutis.

Quanto à Selic, os especialistas se dividem. Uns acreditam que o percentual se manterá em 10,5 por cento até o fim de 2014 e outros preveem que são prováveis novas altas – concentradas no primeiro semestre –, podendo chegar a 11,25 por cento. Ninguém está fazendo previsão de qualquer redução da Selic este ano.

DE VERDADE – Bem perto do final do seu pontificado, que terminou pela renúncia, o papa Bento XVI resolveu higienizar o Instituto de Obras da Religião, IOR, também conhecido como o Banco Vaticano e do qual havia suspeitas de ocorrência de graves irregularidades altamente patrocinadas. Então, em 16 de fevereiro de 2013, mudou a direção do IOR e nomeou uma comissão de cinco cardeais para supervisionar o instituto e propor reformas que julguem adequadas. Ontem, o Vaticano informou que o papa Francisco substituiu quatro dos cardeais da comissão, entre eles o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, o italiano Tarcisio Bertone, ex-secretário de Estado do Vaticano, maior autoridade no Vaticano depois do papa e muito criticado por sua gestão na Cúria romana, o indiano Telesphore Toppo e o italiano Domenico Calcagno. Dos cinco só ficou o francês Jean-Louis Tauran. Quatro cardeais foram nomeados para as vagas: o atual secretário de Estado do Vaticano, o italiano Pietro Parolin e um austríaco, um espanhol e um canadense.

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