====================================================

Foi o professor Cid Teixeira quem nos ensinou que o primeiro monumento ao Dois de Julho por pouco não desapareceu entre os descartes da Limpeza Pública de Salvador. O belo chafariz encimado pela cabocla fora transformado na primeira metade do século XX em sucata e, salvo de inglório destino, foi reedificado no Largo dos Aflitos e hoje é mantido com zelo e respeito pela Polícia Militar. Essa história foi contada na manhã no dia 13 de dezembro, no plenário da Assembleia Legislativa, durante a sessão especial em que ele e o professor Luis Henrique Dias Tavares receberam do Poder Legislativo, por iniciativa do deputado Zé Raimundo (PT), a Comenda Dois de Julho.

Essa lembrança do professor Cid Teixeira foi também uma homenagem a um dos que resgataram o chafariz, o então secretário-geral do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), professor Conceição Menezes, a quem ele continua ligado por laços e afeição e gratidão. Em seu pronunciamento, o professor Cid Teixeira também refere-se à edição especial do Diário Oficial em 02 de julho de 1923 e lamenta que não haja uma edição fac-similar dessa importante obra. Em verdade, o fac-símile da obra foi publicado em 2004 pela Fundação Pedro Calmon, quando o poeta e editor Claudius Portugal dirigia essa unidade da Secretaria de Cultura do Governo do Estado da Bahia.

O professor Cid Teixeira agradeceu ao Poder Legislativo em seu nome e em nome do professor Luis Henrique dias Tavares e exibiu não apenas prodigiosa memória como a respeitosa tese de que o povo é, ao fim e ao cabo, quem decide tudo. Eis abaixo a íntegra do discurso pronunciado da sessão especial de 13 de dezembro passado.(Luiz Guilherme)

==========================================================
O DISCURSO

“Exmº Sr. Deputado José Raimundo que preside esta sessão e autor da indicação que resulta nessa homenagem ao meu querido colega e amigo Luís Henrique Dias Tavares, da qual faço parte. Permitam-me que eu comece não saudando nominalmente todos os presentes, todos se tenham, por favor, incluídos na saudação inicial desse discurso.

“Eu não sei, na história do Brasil, na total história do Brasil, do descobrimento até agora, de data que mereça maior respeito do que o dia 2 de Julho. (Palmas). Santos Barreto, autor da letra, e Santos Titara, autor da música – o retrato de um está no Instituto Histórico, ele com os óculos na testa, o retrato do outro está no Rio de Janeiro, em poder dos herdeiros do professor Pedro Calmon – tanto um como outro definiram de maneira insuperável o que é o dia 2 de Julho. Nasce o sol a 2 de Julho, Brilha mais que no primeiro! Isto, o sol do nosso entusiasmo pela independência é mais forte do que o sol do Fiat Lux, o sol do Gênesis, o sol da criação do mundo. Esse foi objeto da nossa admiração. E vai adiante: num dístico que deve ser aquele que forma o nosso comportamento, pessoal, comportamento político, comportamento profissional: Nunca mais o despotismo regerá nossas ações, Com tiranos não combinam, brasileiros corações!

“Essas duas frases, esses dois versos do Hino ao 2 de Julho, são, no meu entender, o mote que deve inspirar o comportamento de todos nós que nascemos no Brasil e tivemos a felicidade e o privilégio de nascer na Bahia. “Nunca mais o despotismo regerá nossas ações, com tiranos não combinam, brasileiros corações”.

A Cidade do Salvador foi pródiga em homenagear aquela gente que lutou em Cabrito, lutou em Pirajá. Não esqueçam que a independência formal, aquela que o país comemora todos os anos no dia 7 de Setembro, foi um ato de coragem política do príncipe D. Pedro, mais tarde Imperador Pedro I. Mas, isso ocorreu em 1822, setembro de 1822, o 2 de Julho é Julho de 1823. O conformismo pela independência por parte dos homens de Portugal não se fez lá no Ipiranga, não se fez com o grito de Pedro I, mas aqui na Bahia.

“Cabrito, Pirajá, Largo do Tanque, em suma, todo o espaço ocupado pela lutas da Independência, muito bem analisado pelo professor Luís Henrique. O seu trabalho sobre a Independência do Brasil, na Bahia, prolongou-a por mais um ano até quando as tropas entraram, na Cidade do Salvador, no dia 2 de Julho.

De vez em quando aparece um prefeito, um vereador, que resolve mudar o nome daquela rua que vai do largo do Tanque até o Largo da Lapinha. Não adianta, bota o nome de gente, tira o nome de gente, mas está de tal maneira entranhada na vida baiana o nome daquela rua que até hoje continua sendo a Estrada da Liberdade. Ninguém botou o nome, não há ato, não há decreto, não há expressão burocrática alguma que dê àquela rua o nome de Estrada da Liberdade. Deve ter o nome lá de alguma pessoa muito importante, naturalmente, mas Estrada da Liberdade é que nos dá a real dimensão do que significa o ingresso das tropas

vencedoras na Cidade do Salvador.

“A Estrada da Liberdade vai até desembocar no Largo da Lapinha, onde, com justiça, colocou-se o busto do General Pedro Labatut. Há quem faça pernosticismo de dizer Pedro ‘Labati’, mas acho uma demasia. Não precisa demonstrar que sabe francês. Ali, meus senhores, passado o tempo, construiu-se um pavilhão que abriga os carros emblemáticos que todo o ano desfilam pela cidade. Ora, sou testemunha ocular, eu era um quase menor, empregado do Instituto Histórico e bem me lembro da recuperação daquilo.

“Vou contar para não se perder. Os carros, primeiro o do caboclo, depois o da cabocla, se recolhiam, desde que começaram os desfiles, no Liceu de Artes e Ofícios no Solar do Saldanha. Depois passaram para o Solar do Ferrão. Quando houve a iniciativa de Bernardino José de Sousa de comprar uma casa e construiu o que se chama hoje o Pavilhão da Lapinha, onde estão guardados os carros emblemáticos. Saíam dali e iam até o Terreiro para simbolicamente se recriar o Te Deum da entrada da tropa. Do Terreiro voltavam para o Largo da Lapinha numa festa muito pouco, digamos, organizada. Mas que demonstrava a euforia baiana pela Independência.

“Até hoje, quando alguém quer fazer alguma coisa apressada e apaixonadamente diz: ‘Toca o carro para a Lapinha!’ Acho que toda a gente aqui já ouviu essa expressão. (Palmas) Não é por acaso. Sem querer, aliás, às vezes até sem saber, quando usa esse ditado está evidenciando aquela gente que começou a homenagem com a ida do carro do Solar do Ferrão até a Lapinha, de volta para ser guardado lá.

“Mais tarde, por um plebiscito, por uma consulta pública, escolheu-se o Campo Grande para uma homenagem aos heróis do 2 de Julho. Antes, já havia uma homenagem.

“Quando se colocou a água encanada na cidade do Salvador, foram distribuídos alguns chafarizes por esta cidade. Com a euforia da água encanada domiciliar, fizeram uma farra, destruíram os chafarizes públicos. Salvou-se a estátua de Cristóvão Colombo, que está no alto de uma coluna numa praça do Rio Vermelho, que de Largo da Mariquita, passou-se a chamar Praça Colombo.

“Havia, entretanto, um chafariz que foi poupado, que estava no Largo Dois de Julho. O nome dele foi a homenagem primeira que a cidade prestou aos heróis. O chafariz esteve ali até quando a euforia urbanística baiana desmontou a homenagem, desmontou o monumento. Ele foi encontrado – eu estava presente –, jogado no capim, na sujeira, atrás de um depósito da Limpeza Pública, nas Sete Portas.

“Felizmente, graças a Deus, graças à memória dos heróis do Dois de Julho, ele estava intacto. Dois homens, o Cel. Antenor Zeferino Cocenza – acredito que alguém se lembre deste nome nesta Casa –, e o professor Francisco da Conceição Menezes resgataram o chafariz no depósito das Sete Portas, e o repuseram com as homenagens devidas. Não mais no Largo Dois de Julho – porque os feirantes, e seus respectivos eleitos estavam preocupados em não afetar os negócios de varejo ali –, foi levado ao Largo dos Aflitos, defronte do quartel da Polícia Militar, por intermédio, por vontade do Cel. Antenor Zeferino Cocenza.

“Nessa altura, já estava lotado no Campo Grande o monumento ao Dois de Julho, monumento esse encomendado na Itália e colocado ali com todas as festas, com tudo que poderia ter. Para simbolizar a independência, foi escolhido, como já havia sido antes no Largo Dois de Julho, a figura do índio do Dois de Julho encimando a coluna do Campo Grande.

“Isso fez com que, ao redor da coluna, fossem colocadas figuras simbólicas, palavras do Dois de Julho. O Campo Grande também não assimilou o nome de Praça Dois de Julho. Formalmente ele se chama Praça Dois de Julho, mas todos o chamam de Campo Grande. Não tem mais monumento no Largo Dois de Julho, mas continua sendo o Largo Dois de Julho.

“Isso é uma prova da insistência e do poder de mandar que tem o povo. Esse poder de mandar tornou-se ainda mais evidente quando, na década de 1940, em 1943, restaurou-se o préstito do caboclo, porque, na década de 20, a insensibilidade de alguns políticos no poder, emperraram a saída dos caboclos para sociedade. Havia festas, palma de palha de coqueiro amarrada nos postes, mas não havia carro.

“Foram os mesmos paladinos – a palavra é pomposa mas é verdadeira –, Antenor Cocenza e Conceição Menezes que restauraram o préstito, saindo do Largo da Lapinha, fazendo a parada tradicional do primeiro percurso até o Terreiro de Jesus, e à tarde indo até o monumento novo, no Campo Grande.

“É impressionante depor como estava viva, como estava acordada, como estava importante a lembrança dos festejos do Dois de Julho. Mal se anunciou que os carros voltariam a desfilar, começou a ser procurado o Instituto Histórico – eu era menor e boy, para saber como seria e tal – e por iniciativa própria, por iniciativa pessoal e particular, não foram poucas as casas do Largo da Lapinha até o Terreiro de Jesus que ornamentaram as suas fachadas com palmas, com enfeites de papel, bandeirolas etc. Alguns nomes se destacaram nesse processo de recuperação dos festejos do Dois de Julho que dá nome a esta Comenda que temos aqui.

“Quero citar aqui o nome do coronel Álvaro de Oliveira e Silva, morador da Baixa de São José, das duas ladeiras, que vai para a Estrada da Rainha, ele foi o primeiro a ornamentar a sua casa de uma maneira, posso dizer, espetaculosa, quando chamava a atenção de toda a gente para a passagem do cortejo. Lá, na rua dos Perdões, um velho senhor cujo primeiro nome não sei, o senhor Almeida Gouveia, fez também uma ornamentação na rua toda dos Perdões para a passagem do Dois de Julho. E ele chegou ao Campo Grande para o Te Deum e mais tarde foi levado para o Campo Grande tal como ocorre até hoje.

“Essa festa, meus senhores, não era oficial. Foi preciso que recentemente uma deputada estadual, não sei se ela está presente, infelizmente, não a conheço pessoalmente, a senhora Alice Portugal, desse feriado, transformasse em data pública formal o dia Dois de Julho.

“Era um feriado conquistado, era um feriado público, era um feriado sem nome formal em Diário Oficial nenhum, era um feriado que vinha do sentimento dos baianos da Cidade de Salvador.

I”sso parece importante porque é a continuidade do processo histórico que se fez por mais de um século. Em 1923, o Diário Oficial do Estado publicou uma edição especial com mais de 500 páginas, que hoje é uma raridade bibliográfica que requer, Sr. Presidente, quem sabe, uma reedição que coloca ao alcance das novas gerações a história do Dois de Julho vivida no século 19, e ali se fez. Foi então que o Instituto Histórico que mantém a guarda, a propriedade, não é bom que se diga o carro do Dois de Julho é meu, é seu, é da cidade, é de toda a gente. O Instituto Histórico mantém a guarda, o cuidado, mantém o pavilhão da Lapinha que é aberto de vez em quando para visita e no mês de julho, sobretudo, é colocado para a visitação pública.

“Então, os senhores vejam: quando a Assembleia Legislativa cria uma Comenda com o nome Dois de Julho ela está se incorporando àquilo que desde o dia 2 de julho de 1823 é imanente, é presente, é entranhado no ser baiano: Nasce o sol a 2 de julho, brilha mais que o primeiro, é sinal que neste dia até o sol é brasileiro. Quem disse isso foi Ladislau dos Santos Titara.

H”avia uma escola como o nome Ladislau dos Santos Titara, ali no Rio Vermelho, na linha de baixo, na Vasco da Gama. Não sei se ainda está lá, não vejo mais a placa, não sei se a cidade tem a lembrança de Santos Barreto, além do retrato que está no Instituto Geográfico Histórico da Bahia.

“Esses dois nomes merecem da nossa parte, quando comemoramos o Dois de Julho, uma lembrança específica, uma lembrança nominada, para que o lembremos que independe do Poder Público. Este entra nisso como um aderente da coisa mais importante, que é a própria estrutura mental do baiano ter a honra daquela data.

Muito obrigado”.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos