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OPINIÃO POLÍTICA

Alianças eleitorais

Ivan de Carvalho

A aliança do PSB com a Rede Sustentabilidade, imediatamente após esta ter negado seu registro partidário pelo Tribunal Superior Eleitoral graças a um golpe cartorial relacionado com as fichas de filiação, suspreendeu o país. Foi a maior surpresa política no Brasil em 2013. E implicou numa mexida importante no cenário da sucessão presidencial.

Ante a negativa do TSE de conceder o registro de partido à Rede, este cenário marchava para um embate de apenas dois contendores – a presidente Dilma Rousseff, do PT, pleiteando a reeleição, o senador Aécio Neves, presidente do PSDB e ex-governador de Minas Gerais, como um dos desafiantes e talvez o presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, como o segundo desafiante, mas, em princípio, numa posição político-eleitoral fraca.

A surpreendente aliança com a Rede e principalmente, claro, com Marina Silva, que se filiou ao PSB, encorpou a candidatura de Eduardo Campos, embora inicialmente instalando uma dúvida sobre se afinal seria ele ou Marina a disputar pela legenda socialista a presidência da República.

Hoje, no entanto, está ficando muito claro que o candidato socialista será mesmo Eduardo Campos, bem como está se delineando cada vez mais fortemente que Marina Silva vai figurar na chapa como candidata a vice-presidente. Esta é, aliás, a formulação ideal para o PSB e, de um modo geral, para as oposições, que precisam montar para o primeiro turno das eleições um cenário que leve as eleições para o segundo turno, quando então se juntariam o PSB e o PSDB, além de outros partidos oposicionistas, em um esforço final de produzir uma alternância que já tarda no quase todo poderoso Executivo federal. O PT no final de 2014 já completará 12 anos na presidência da República e se conseguir a reeleição de Dilma Rousseff partirá para 16 anos ininterruptos de poder federal.

Note-se que Dilma Rousseff, em termos de cumprir certas propostas do programa do PT, está sendo razoávelmente moderada e que isto se explica facilmente pela necessidade de não entrar em conflito mais vivo com importantes setores da sociedade que poderiam dificultar seriamente sua reeleição.
No entanto, conquistado o segundo mandato presidencial e na impossibilidade constitucional de obter o terceiro, a presidente Dilma Rousseff estará muito mais liberada politicamente para cumprir certos pontos mais ousados do programa do PT e de suas ideias – exemplo de um desses pontos de adoção conjunta PT/Dilma é a da descriminalização total do aborto, isto é, da permissão para que se matem inconsequentemente as pessoas que, ainda não tendo nascido, estão vivas, ao abrigo (que se tornaria câmara da morte) do ventre de suas mães.

Isto sob o incrível argumento de que a mulher tem o direito de fazer o que quiser com o corpo dela. Não sei se tem, talvez não lhe seja reconhecido o direito ao suicídio (afinal, sempre que possível tentam de tudo, incluindo a força, não raro praticada por agentes do Estado, para impedi-lo) e ninguém de bom senso protesto contra esse embaraço. Mas, como dizia Genoíno, “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. No suicídio, a mulher (ou o homem) atenta contra o próprio corpo e a própria vida. No aborto, o atentado é contra o corpo e a vida de outra pessoa, não da mulher adulta que a carrega provisoriamente no ventre.

Bem, após essa digressão sobre um dos pontos de concordância notórios entre o programa do PT e as ideias da presidente Dilma, retomemos o fio da meada. Marina dá toda ênfase ao fato de que a Rede é “programática”, mas alianças eleitorais, o PSB sabe como qualquer outro partido, devem ter, sim, o máximo possível de coerência programática, mas sem perder de vista que essas alianças têm que ser pragmáticas também, já que, se limitadas a serem “sonháticas”, sem atenção ao um pragmatismo sadio, correto, mandarão para o lixo o sonho de ganharem eleições e produzirem um fenômeno que toda democracia e a liberdade precisam tanto quanto nós precisamos do ar que respiramos – a alternância no poder. Sem esta, toda democracia, em algum momento, resvalará para um regime autoritário, ditatorial, ainda quando preserve uma máscara democrática.

Está claro que Marina precisa, se quer prestar um serviço ao país, equilibrar os pratos da balança em que põe suas ações

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