=============================================================

CRÔNICA / EUSÉBIO

O ídolo dá o lugar ao herói

Washington de Souza Filho

(Direto de Covilhã, em Portugal)

Mais do que fazer justiça a importância de Eusébio como jogador de futebol, a comoção vista em Portugal estabelece o seu lugar como ídolo, em um momento em que o país vive a expectativa da escolha de Cristiano Ronaldo como o melhor de 2013 pela Fifa. Sem qualquer polêmica, o que ocorreu em Lisboa nesses dias, desde o comunicado da sua morte, na manhã de domingo, 5, e o sepultamento, nesta segunda, faz relembrar de episódios vistos no Brasil, por exemplo, quando morreram Tancredo Neves e Ayrton Senna.

Eusébio, apesar de uma recente internação, estava fora de cena. Ele morreu, aos 71 anos, em consequência do agravamento da saúde, depois de um AVC. A presença nas ruas de Lisboa, em dias de chuva e frio, representou para os portugueses o reconhecimento do que ele fez pelo país como jogador.

A sua maior marca foi a participação na Copa do Mundo de 66, disputada na Inglaterra. A Seleção de Portugal, da qual era o destaque, derrotou o Brasil, eliminado na primeira fase, quando tinha o título de bicampeão mundial. Três a um, com dois gols marcados por Eusébio. A vitória estabeleceu no imaginário do futebol mundial uma comparação, nunca alcançada, com Pelé.
Eusébio foi um grande jogador. Um atacante muito veloz, técnico e capaz de chutes com bastante força. A sua importância para o futebol português foi tão grande, que o ditador Oliveira Salazar, a quem ele chamava de padrinho, impediu que aceitasse jogar na Itália, pela Internazionale de Milão. O atacante ganhou o prêmio de melhor jogador da Europa, com o status de melhor do mundo, e foi duas vezes o maior artilheiro do continente na década de 60. Ganhou incontáveis títulos em Portugal, jogando pelo Benfica. No fim da carreira, como Pelé, jogou nos Estados Unidos.

Sem nenhuma convicção, com a ajuda da memória, considero que a vitória na Inglaterra foi a mais significativa que ele alcançou em partidas contra Pelé. Nas referências feitas pelos meios de comunicação portugueses, é a partida da Copa do Mundo, realizada na cidade de Liverpool, dos Beatles, que é citada. Um pouco antes, em uma disputa direta, entre o Santos de Pelé e o Benfica de Eusébio, o time brasileiro venceu e conquistou o que seria o segundo título mundial interclubes. No tempo em que a disputa pelo título era em partidas entre o campeão da Libertadores e o da Europa.
A comoção demonstrada pelos portugueses com a morte de Eusébio demonstra, porém, que é na disputa interna, mesmo com a idolatria dedicada a Cristiano Ronaldo, que tem importância o reconhecimento recebido, concedido pelo povo. Após a morte de Eusébio, o jogador do Real Madrid fez uma manifestação através de uma rede social, quase protocolar. O tom era diferente de outra, antes do fim do ano, depois de superar em Eusébio no número de gols pela Seleção Portuguesa.

Cristiano Ronaldo reagiu à crítica do antigo jogador, de que “os gols marcados por ele, não tinham sido feitos em seleções como a de Luxemburgo”. Eusébio, naturalmente, fez uma observação, na qual teve a intenção de ressaltar que o futebol do tempo em jogou, sem a globalização atual, tinha outra dimensão, inclusive no campo.
A reverência do povo português a Eusébio deixou marcas. A estátua do jogador, em frente ao estádio da Luz, virou uma espécie de memorial, coberta por cachecóis, com as cores do Benfica, flores e objetos, depositados por portugueses anônimos, de todas as idades e sem paixão por clubes. A morte dele vai se transformar em um tema do parlamento português. Antes do enterro foi lançada a proposta para a transferência dos restos mortais de Eusébio, sepultado em um cemitério de Lisboa, para o Panteão Nacional, onde estão ex-presidentes e personalidades. Até agora, a única exceção é a cantora Amália Rodrigues. A única questão é quem vai pagar a conta de centenas de milhares de euros.

Eusébio, nascido em Moçambique, quando ainda era colônia portuguesa, assistiu de Portugal a independência do país de nascimento, quando o futebol, ao lado do fado e o culto a Nossa Senhora de Fátima, era um dos símbolos do país. Entre os diversos comentários sobre a sua morte, um estabelece o sentido do reconhecimento visto. O de que ele representa a figura de um herói, uma referência que o país precisa para enfrentar os desafios que a situação econômica estabeleceu, no ano, em que a Revolução dos Cravos completa, 40 anos, no mês de abril – o mesmo do Golpe de 64, no Brasil, que faz 50 anos.

Washington de Souza Filho, jrnalista, professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, vive em Covilhã, na Serra da Estrela, em Portugal, onde cursa doutorado em Comunicação

Be Sociable, Share!

Comentários

Olivia on 7 Janeiro, 2014 at 12:48 #

“Quando vos deixar, quero dar uma volta no Estádio da Luz.” Linda homenagem a Eusébio. Triste, lembro a despedida do craque Nilton Santos, ele merecia um Maracanã lotado, mas o brasileiro não tem memória, nem reverencia seus verdadeiros ídolos, veja: pic.twitter.com/s0Ev7XNNXq.
Bacana, Washington.


Olivia on 7 Janeiro, 2014 at 12:51 #

Olha aí a foto do velório de Nilton Santos: https://pbs.twimg.com/media/BdYgcXVCEAAe0NT.jpg


Humberto Sampaio on 8 Janeiro, 2014 at 16:58 #

Fantástico texto do Professor Washington.
Incrível é perceber que as semelhanças entre Pelé e Eusébio estrapolam seus desempenhos nas quatro linhas. Negros, nenhum dos dois usou usou do prestigio que dispunham para combater o racismo em seus paízes. O apreço dos dois por ditaduras é outro ponto convergente das personalidades dos dois craques


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos