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O cronista e artista na pizzaria no Rio
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CRÔNICA

Caetano e o velho do rio

Janio Ferreira Soares

Meus filhos gostam de me chamar de velho do rio. É que durante mais de 20 anos moramos num sítio às margens do São Francisco, onde os três vagabundearam horrores entre patos, goiabeiras e vozes baianas, mineiras e inglesas cantando doras, clarices, pablos e micheles, enquanto eu e a mãe deles varávamos madrugadas caçando satélites e luzes de aviões – que em noites de breu mais pareciam vagalumes descompassados numa endiabrada rave no meio do sertão sem fim. Hoje, crescidos e compromissados, ficou mais difícil juntá-los para uma farra movida a risadas e lembranças dos tempos de trovoadas, quando ficávamos todos agarradinhos no escuro do quarto contando em voz alta a distância entre o clarear do relâmpago e o efetivo estouro do trovão. Saudade danada.

Pois bem, depois de muita confusão para conciliar agendas e providenciar logística, este old from San Francisco pegou seus quatro afluentes e desembocou num outro Rio que se chama de Janeiro e que, presumo, desde Estácio de Sá serve como uma espécie de remanso para velhos baianos que nos deram réguas, compassos, budas e coisas e tais, mas que desde sempre ancoram seus barcos e vapores baratos em águas leblonianas, enquanto vagueiam pelos entornos protegidos por um esperto São Sebastião, que sempre anda na companhia de Senhor do Bonfim, já que santo de casa não costuma obrar milagres. Em frente.

Quinta-feira pós Natal, final do musical Elis, eu e minha tropa resolvemos comer uma pizza. No restaurante meio vazio já estávamos sentando numa mesa quando o maitre, talvez pelo nosso sotaque e pelos meus cabelos igualmente prateados sugere, com um risinho meio sacana no canto da boca: “vocês não preferem ficar naquela mesa ali do lado de Caetano Veloso?”. Ainda meio zonzo pelo desempenho quase visceral da baiana Laila Garin – que jogou na minha caixa dos peitos trejeitos e agudos quase tão perfeitos quanto os da Elis real -, olho lá no canto e vejo o velho baiano tomando uma taça de vinho e conversando animadamente com uma simpática jovem que, de soslaio, lembrava o semblante das meninas sertanejas em noites de quermesse no pátio da igreja de Santo Antônio da Glória. Acatamos a tentadora sugestão e, ainda atordoado pelo direto no fígado de uma Laila quase Regina, me vejo a menos de um metro do camarada que tantas vezes foi personagem dos meus artigos e que de há muito é um dos senhores feudais que manda e desmanda no prato devoluto da minha velha vitrola. Em frente.

Pizza e vinho a rolar, quando meus filhos, percebendo certa confusão no meu semblante, dizem: “deixa de frescura, painho, e vai logo falar com ele”. De imediato descartei a ideia, até para manter a minha coerência no que diz respeito a tietagens explícitas. Explico. Durante anos como secretário de turismo de Paulo Afonso, fui o responsável pela contratação de dezenas de artistas dos mais variados calibres (de Gil a Ivete, de Lulu Santos a Claudia Leite, de Paralamas a Skank) e jamais fui ao camarim ou ao hotel de nenhum deles para me apresentar e tirar fotos, por um motivo bem simples. É que eu acho que realmente não vale a pena posar com alguém que 5 minutos depois vai passar por você e não vai lhe dar a mínima. Agora, se pintar uma oportunidade de um papo numa mesa de bar, como aconteceu com os meninos do 14 Bis e da Cor do Som, aí é outra história. Mas voltemos ao chianti, a mozzarela e ao resumo da opereta que, segundo um velho amigo, bem poderia chamar-se: “Ah! bruta flor do querer, ah! bruta flor, bruta flor!”.

Final. Creio que levado pelo vinho e pela noite em si, capitulei e mandei às favas princípios e coerências. Fui até ele, trocamos rápidas palavras e lhe perguntei se podia (“oh! seu vendilhão!” diria o mesmo amigo) tirar uma foto. E assim como Pelé disse “love, love, love”, ele disse “pode, pode, pode”. Pra terminar, a fotografia até que ficou bem bacana. Eu, é que talvez tenha queimado o meu filme e umas duas páginas da minha biografia. Ou não, como diria lá ele. Vá que ela seja autorizada e escrita por uma mão amiga…

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

Mariana Soares on 4 Janeiro, 2014 at 12:21 #

Que maravilha de crônica e de encontro! Rolou algumas lágrimas agora no meu rosto…Também achei Laila visceral e sensacional…Orgulho desta baianinha e de vc, também, Caro Janio, outro baiano de ouro, sem esquecer de Caetano, poeta e cantador de primeira linha!
Enquanto lia a crônica, aguardava apenas a chegada de Laila para dar o tom do encontro, única ausência presente!
Viva! E que Elis, querida e saudosa, promova outros encontros memoráveis como este!


Olivia on 4 Janeiro, 2014 at 15:53 #

Beleza de artigo, Janinho. O mesmo aconteceu comigo ano passado, encontrei o mestre Elton Medeiros numa padaria do mesmo bairro, Leblon. Perdi a vergonha e fui conversar, inesquecível. Bjs e feliz 2014.


regina on 4 Janeiro, 2014 at 15:54 #

Caro Janio, vc me fez lembrar um fato semelhante ocorrido comigo lá no Porto da Barra em Salvador.
Estava de ferias e havia levado minha filha e neta (esta na sua primeira viagem à boa terra) para passar o Natal e reveillon com os parentes. Último dia das ferias sentadas nas areias quentes do Porto, ninguém queria arredar o pé… De repente chega Caetano com Moreno e um(uma) netinho(a) nos braços e armaram seu espaço bem juntinho de onde eu me encontrava.
De repente veio a imagem dos anos 70 à minha mente, pois ali mesmo muitas vezes dividi o território com Caetano, Dédé e Moreno, pequenino, como o(a) neto(a), tempos em que éramos muito novos para imaginar o que nos estaria reservado para o futuro…
Como eu ia dizendo, ao perceber a sua presença descontraida e familiar, chamei minha neta e pedi:
-Vai chamar sua mãe (tudo em inglês pois como são nascidas nos Estados Unidos, onde resido há 40 anos, na hora do nervosismo é a língua que funciona).
-O que foi que eu fiz dessa vez, minha filha chegou reclamando….
Apontei na direção do Caê e disse:
-Oi ele ali!!! (aqui cabe explicar o detalhe que minha filha havia manifestado a decepção por não ter tido a oportunidade de ver o Caetano Veloso durante nossa viagem várias vezes…)
Fomos falar com ele, é claro, e entre inglês e português ou a mistura dos dois, ele ficou sabendo que aquela Gabriela (minha filha) tinha ouvido falar dele, e escutado seu canto, desde o tempo em que descansava na minha barriga, esperando pra vir descobrir a vida.
Vitor Hugo deve se lembrar desse fato pois o imortalizou numa linda crônica de ano novo que escreveu enquanto tomávamos o avião de volta à terra do Uncle Sam, era o ano de OXUM, se bem me lembro…..


Janio on 4 Janeiro, 2014 at 19:06 #

Maravilha, Mariana, Olivinha e Regina. Beijos


Luiz do Campo Grande on 14 Março, 2014 at 16:14 #

Não faltava mais nada para acontecer com este Janinho de Zé da Silva! E vivam os dois para sempre na arte de mem escrever e cantar.


Luiz do Campo Grande on 14 Março, 2014 at 16:16 #

Eu quisera dizer: de bem escrever e bem cantar. Amem


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