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OPINIÃO POLÍTICA

Monitoramento, o debate

Ivan de Carvalho

Os jornais The New York Times e The Guardian – o primeiro, o mais importante dos Estados Unidos, o segundo, um dos mais importantes do Reino Unido e ao qual Edward Snowden entregou documentos sobre o monitoramento eletrônico e cibernético praticado em todo o mundo por um grupo de agências de espionagem lideradas pela americana NSA – afirmaram ontem, em editoriais, que Snowden merece tratamento brando do governo dos Estados Unidos por ter revelado a espionagem de dados de internet e telefone. Na quarta-feira, The Guardian já havia pedido o perdão presidencial de Obama para Snowden.

Edward Snowden vem sendo considerado um traidor pelo governo dos Estados Unidos, que o acusa de haver prejudicado a segurança do país, do que até agora nenhuma prova foi apresentada. Houve, até onde se sabe, apenas aborrecimentos para o governo Obama, irritando, por exemplo, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, a chanceler alemã, Angela Merkel, o governo do importante aliado Israel, alguns dos alvos revelados do monitoramento.

Snowden, claro, não é um traidor, mas um denunciante de práticas ocultadas aos cidadãos americanos, em primeiros lugar, e aos cidadãos e governos de muitos outros países, quase certamente de quase todo o mundo. É um dos principais heróis deste século – renunciando ao conforto, relações familiares, tudo o que tinha, arriscando inclusive a liberdade e a vida, para fazer a grande denúncia.

Denúncia que abriu um debate ainda inacabado sobre o enorme esforço para a extinção da privacidade e para o monitoramento completo que levaria e pode levar e tende a levar, no seu último grau, ao controle de toda a sociedade humana – desde entidades como Estados, empresas, organizações religiosas até as pessoas naturais.

Nesse grau extremo, que é o objetivo e para o qual as maiores potências mundiais insistirão em continuar a marchar (Putin, na Rússia, que deu asilo provisório de um ano a Snowden, justificou o monitoramento e disse ter inveja de Obama, pelo que este fez), quem não aceitar o controle passará automaticamente, se sobreviver, a ser um marginal da civilização. Terá de se colocar fora dela e tornar-se praticamente um fugitivo para evitar a detecção, o consequente monitoramento e o controle.

O The New York Times afirmou em seu editorial, ontem, que a maior contribuição de Snowden foi a de que, graças a ele, agora os americanos sabem como são monitorados seus dados confidenciais. Por isto, Edward Snowden mereceria uma pena “substancialmente reduzida”. “Considerado o enorme valor da informação que revelou e os abusos expostos, ele merece mais que uma vida de exílio, medo e fugas. Ele pode ter cometido um crime ao fazer isso, mas ele prestou um grande serviço ao seu país”, diz o jornal, mas sem assinalar que o governo Obama não mudou de rumo e vai manter, com ligeiras maquiagens para enganar os tolos e dar supostas satisfações a presidentes como Dilma Rousseff. Nota, pelo menos, o jornal, que a espionagem da NSA foi declarada inconstitucional por dois juízes federais.
Certamente é complexa essa situação de haver cometido um crime por denunciar e provar que uma agência do governo se dedica a prática considerada – pelo menos por enquanto – inconstitucional pela Justiça.

Edward Snowden considera-se pessoalmente realizado, vitorioso, porque, segundo explicou, seu objetivo ao fazer a denúncia de enorme e não esgotada repercussão mundial não era o de acabar com o monitoramento que pode extinguir a privacidade e, com ela, a liberdade, mas provocar um debate pelo qual a sociedade (e seus componentes) decida ela mesma se quer submeter-se ao monitoramento ou se prefere a privacidade e a liberdade.

Em outras palavras, eu diria: se as pessoas querem ser escravas ou livres. Parece uma decisão muito fácil, mas há fatores, na conjuntura global, que a tornam bem difícil. A preferência pela escravidão não é descartável, ao contrário, tem grande chance de prevalecer.

Em tempo, para os mais curiosos ou mais prudentes, sobre monitoramento e contro

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