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OPINIÃO POLÍTICA

Desfecho inevitável

Ivan de Carvalho

O desfecho inevitável. A Irmandade Muçulmana foi declarada pelo governo do Egito uma organização terrorista. A decisão foi tomada ontem pelo Conselho de Ministros e anunciada pelo vice-primeiro-ministro Hosam Isa, por intermédio da agência oficial de notícias Mena.

A Irmandade, uma organização fundamentalista islâmica fundada no Egito à época do regime ditatorial do presidente Gamal Abdel Nasser, mas presente hoje em muitos Estados de maioria muçulmana e com representação em dezenas de países, conquistou a presidência do Egito em eleições quase inteiramente livres promovidas sob uma administração controlada pelos militares após a Primavera Árabe haver derrubado o regime autoritário do presidente Hosni Mubarack.
No entanto, o presidente Mohamed Mursi, que na rápida campanha eleitoral procurara parecer um moderado e em acordo com as regras legais adotadas, pouco após assumir o cargo começou a meter os pés pelas mãos. A maior investida de Mursi contra o regime democrático, que fora a reivindicação básica da Primavera Árabe no Egito (como pareceu ser em outros países e acabou revelando uma face diversa ao assumir o poder, quando assumiu), foi editar algo bem semelhante a um Ato Institucional (daquele tipo que o regime militar brasileiro se utilizara).

Por esse ato, Mursi se colocava acima do Poder Judiciário, de modo que seus atos não podiam ser apreciados (e eventualmente anulados no todo ou em parte pela Corte Suprema). E, na sequência, passou a assumir poderes que só reforçavam a característica ditatorial que aquele primeiro golpe político (de sobrepor-se ao Judiciário) imprimiu ao novo regime.

Mursi não traiu a Irmandade Muçulmana. Esta e Mohamed Mursi traíram a Primavera Árabe e, com isso, traíram o próprio Egito. O país, seu povo, com um imenso movimento popular e nas eleições que se seguiram, optara por um Estado democrático e laico. Mursi, eleito sob estes pressupostos já inscritos na Constituição sob a qual tomou posse do cargo de presidente, tentou impor à mais importante e mais populosa nação árabe um Estado ditatorial e teocrático.

Creio que vale lembrar que diante dessa conduta do presidente eleito, centenas de milhares de pessoas voltaram às ruas outra vez para protestar contra Mursi e a Irmandade Muçulmana como antes o haviam feito contra o regime de Hosni Mubarak, que passara três décadas no poder. Surgiu um claro impasse entre o governo de Mursi e as manifestações pela democracia, até que a situação foi levada a um ponto (até pela indisposição de Mursi e da Irmandade Muçulmana de cederem na usurpação de poderes que praticaram) em que o Exército deu prazo de 48 horas para eles “se entenderem”, do contrário – era um ultimato – interviria.

Não houve entendimento algum, a essa altura nem mesmo os manifestantes estavam a fim de uma conversa e com uma boa razão – Mursi e a Irmandade Muçulmana já haviam tirado as máscaras, haviam se revelado não merecedores de confiança de quem quer que desejasse democracia e um Estado laico. O tempo se esgotou e, como havia anunciado, o Exército extinguiu o impasse.

Mursi foi destituído e detido. E então a Irmandade Muçulmana, que havia sido convocada por ele a fazer contra-protestos, chochos nos últimos dias de Mursi no poder, crescendo após sua queda, mas sem demora com uma ação policial devastadora na Praça Tahrir, no centro do Cairo e que havia sido ocupada por adeptos de Mursi. O Exército deu um prazo (curto) para que os manifestantes esvaziassem a praça e, como eles não o fizeram, a polícia foi fazer o serviço – e usou violência ilimitada.

Daí em diante, a Irmandade Muçulmana viu-se cada vez mais vigiada e limitada em suas atividades ostensivas, como ocorrera em várias fases de sua história no Egito (sob os governos de Nasser, de Anwar Sadat (menos), de Mubarak (que ao assumir libertou alguns membros da Irmandade que estavam presos), que acabou não conseguindo conviver bem com a organização, que se lhe opunha. Após a queda de Mursi e a impossibilidade de abalar o novo governo com manifestações de rua, a Irmandade Muçulmana voltou à sua estratégia recorrente – o terrorismo. A decisão do Conselho de Ministros foi consequência do ataque a bomba de terça-feira contra um prédio da polícia, quando morreram pelo menos 14 pessoas e cerca de 140 ficaram feridas.

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