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Postado em 15-12-2013
Arquivado em (Artigos) por vitor em 15-12-2013 19:32


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DEU NO PÚBLICO, DE LISBOA

Jorge Mourinha

O ator britânico Peter O`Toole morreu em Londres aos 81 anos, poucos meses depois de ter anunciado a sua retirada da representação. Foi nomeado oito vezes para o Oscar da Academia de Cinema de Hollywood sem nunca ganhar, mas é por Lawrence da Arábia que o recordamos.

Durante o serviço militar obrigatório no Exército britânico, um oficial teria perguntado a Peter O’Toole, filho de irlandeses criado na cidade inglesa de Leeds, se tinha alguma ambição na vida. Respondeu que gostaria de tentar a poesia ou a representação.

Da sua poesia (se a escreveu) não reza a história, embora tenha publicado dois volumes autobiográficos muitíssimo bem recebidos (com um terceiro à espera de edição). Quanto à representação, estamos conversados: Peter O’Toole, falecido no sábado, 14 de Dezembro, aos 81 anos de idade, tornou-se num dos grandes atores de uma geração britânica que não foi parca em talento. Mas continua a ser por Lawrence da Arábia (1962), o seu primeiro grande papel no cinema, que é recordado.

Foi por Albert Finney ter recusado o papel de Lawrence que o realizador David Lean foi buscar O’Toole. Há aqui alguma ironia, porque Finney e O’Toole foram colegas na lendária Academia Real de Artes Dramáticas londrina, na qual se inscreveu depois do serviço militar – do mesmo ano de inscrição fazia igualmente parte Alan Bates, e esta “turma” foi “a mais notável que por lá passou alguma vez”, nas palavras do actor (embora o seu talento não tenha na altura sido reconhecido pela direcção, que os considerava a todos “maluquinhos”).

Continua a ser por “Lawrence da Arábia” (1962), o seu primeiro grande papel no cinema, que é recordado.

Nos anos antes de Lawrence, O’Toole dedicou-se ao teatro (diria numa entrevista, anos mais tarde, que foi essa experiência que lhe deu a “bagagem” necessária), passou pela televisão e teve alguns papéis no cinema. Mas foi o épico de Lean que o tornou conhecido mundialmente, abrindo-lhe as portas para uma carreira que, apesar do arranque em força, nem sempre cumpriu as expectativas.

Em parte, essa decepção deve-se aos papéis que O’Toole foi aceitando; tal como Michael Caine, que sempre admitiu escolher filmes por questões de sobrevivência (que os atores também têm de pagar renda), dificilmente encontraremos na carreira de mais de 50 anos de O’Toole um papel que faça sombra a Lawrence. No entanto, deve-se também à reputação que o precedia, de boémio e bon-vivant – o seu casamento tempestuoso com a atriz Siân Phillips, que durou 20 anos, foi marcado pelo ciúme e acessos de alcoolismo.

Mas, depois de uma operação delicada que viu o pâncreas e parte do estômago serem-lhe cirurgicamente retirados em 1976, e de uma doença sanguínea em 1978, O’Toole deixaria de beber. Os excessos eram, contudo, indissociáveis da geração da qual fez parte – o ator foi igualmente contemporâneo de Richard Burton, Richard Harris, Tom Courtenay, Oliver Reed ou Terence Stamp, alguns dos quais igualmente conhecidos pelos seus apetites maiores que a vida.

O’Toole acabaria por ser oito vezes nomeado para o Óscar de melhor actor, a última das quais em 2006, sem nunca receber a estatueta, no que é um recorde negativo na história dos prémios. Para além de Lawrence da Arábia (pelo qual ganhou o prémio BAFTA da Academia Britânica), foi nomeado por Becket (1964), de Peter Glenville, contracenando com Richard Burton;O Leão no Inverno (1968), de Anthony Harvey, contracenando com Katharine Hepburn (que ganhou o Óscar neste filme); Adeus, Mr. Chips (1969), de Herbert Ross; A Classe Dominante (1971), de Peter Medak; O Fugitivo (1978), de Richard Rush; O Meu Ano Favorito (1982), de Richard Benjamin; e Vénus (2006), de Roger Michell.

O Oscar e a carreira

Mas o único Oscar que levou para casa foi um galardão honorário pelo conjunto da sua carreira, entregue em 2003. Então, pediu à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que esperasse pelo seu 80.º aniversário: “Ainda estou em jogo e sabe-se lá se ainda não ganho o fulano [o Oscar] até lá.”

A Academia não quis esperar – e O’Toole até teve razão, porque foi três anos mais tarde que recebeu a sua última nomeação. Ganhou igualmente três Globos de Ouro (por Becket, O Leão no Inverno e Adeus, Mr. Chips) e um Emmy de a tor secundário pela sua participação na série televisiva Joan of Arc (1999). Outros títulos da sua carreira incluem Lord Jim (1964), de Richard Brooks, baseado em Joseph Conrad, O Que Há de Novo, Gatinha? (1967), de Clive Donner, escrito por Woody Allen, O Homem de la Mancha (1972), de Arthur Hiller, adaptação musical de D. Quixote onde contracenou com Sofia Loren, ou O Último Imperador (1987), de Bernardo Bertolucci.

O cinema acabaria por “travar” a sua carreira teatral, q ue se tornou muito mais esporádica, e só na década de 1980 regressaria aos palcos, numa encenação de Macbeth que foi um grande sucesso público e um fracasso crítico.

Nos últimos anos tinha-se igualmente dedicado à televisão, surgindo na série Os Tudors no papel do Papa Paulo III, e deu a voz ao crítico gastronômico Anton Ego na animação da Ratatui (2007). Há poucos meses, havia anunciado a sua retirada da profissão, alegando “já não ter gosto” por ela. “A paixão deixou-me e já não vai voltar.”

Peter O’Toole nasceu em 1932, filho de um corretor de apostas irlandês e de uma enfermeira escocesa; para algumas fontes, nasceu em Junho em Connemara, na Irlanda, para outras em Agosto em Leeds, para onde os pais se haviam mudado.

Morreu em Londres a 14 de Dezembro de 2013, na sequência de doença prolongada, segundo revelou o agente do ator (sem, contudo, especificar a causa da morte), aos 81 anos. Deixa duas filhas do seu casamento com a atriz Siân Phillips e um filho da relação com Karen Brown.

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