Domingo de barbárie na “Arena Joinville”
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…e o dia seguinte do ministro Rebelo, no Itaquerão(SP)

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ARTIGO DA SEMANA

Joinville e Itaquera: ovos de serpente no fim do ano

Vitor Hugo Soares

O ano de 2014 está chegando com promessas e combinações de eventos explosivos, carregados de paixões e interesses divergentes, na terra insólita de Macunaíma e no confuso resto do mundo: da campanha presidencial e de renovação dos governos estaduais, à disputa da Copa do Mundo em monumentais “arenas” conflagradas. Templos modernos de selvageria, cercados de suspeitas e acidentes mal explicados por todos os lados.

Além, evidentemente, de poço sem fundo do dinheiro do tesouro da “viúva”

Basta ter olhos para ver, cabeça para pensar, ou sangue nas veias e sentimentos que, ainda, levem à indignação. Esta (a indignação) necessária e insubstituível como elemento vital da sociedade e da nação. Indiferença e fuga, opções para alguns (inclusive no jornalismo, a minha profissão), são bem piores, porque em geral levam ao silêncio dos cemitérios e à cumplicidade.

O melhor, talvez, seja continuar atento. Escutar algumas palavraa e, principalmente, perceber ações e sinais essenciais em tempos temerários, como os emitidos pelo ministro presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa; do papa Francisco, a Personalidade do Ano da revista Time ; ou manter viva a memória de Nelson Mandela.

Vale, também, mesmo que nos acusem de românticos e sonhadores inveterados, seguir o mandamento da poesia do capixaba Geir Campos:

“Não faz mal que amanheça devagar/As flores não têm pressa, nem os frutos/e a vagareza dos minutos adoça mais o outono por chegar”.

Mas 2013 está aí, ainda. Vivinho da silva. Brigando ferozmente para não morrer. Produzindo encontros dignos do realismo fantástico de “Cem Anos de Solidão” e outros romances colossais do colombiano Gabriel Garcia Marquez, ou de “Histórias de Cronópios e Famas”, do argentino Júlio Cortazar. Um exemplo?: A incrível viagem da presidente Dilma Rousseff ao funeral de Mandela, em Joanesburgo, acompanhada dos ex José Sarney, Luís Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor de Mello.

Que travessia! Quem sabe uma daquelas moscas incômodas que costumam se esconder nas poltronas, em longos percursos, nos revele um dia, um pouco do tanto que terá acontecido nas conversas e silêncios dentro do Boeing presidencial na rota Brasil-África do Sul. Ida e volta.

Nos estertores, 2013 produz até ovos de serpente para deixar de “herança maldita” para o ano que chega daqui a duas semanas. Basta ver, e rever, as “cenas dantescas” (diria minha saudosa mãe se viva estivesse), registradas domingo passado na “Arena Joinville”, na última rodada do Brasileirão de futebol, sete meses antes da Copa do Mundo começar por aqui.

Um monumento de vergonha (ou falta de) nacional. Igualmente, um desses raros momentos que, pelo tamanho e gravidade inauditos, ainda conseguem indignar a sociedade brasileira e impactar o mundo. O fato em sí, na sua triste e perversa simbologia dos tempos da caverna, em confronto com o “tempo moderno” das espantosas tecnologias de construção e comunicação, e as suas repercussões.

Marcadas (as repercussões que os jornais e TVs anunciam) por desculpas esfarrapadas, mentiras de ocasião, falas e informações desconexas, desajeitados empurrões com a barriga, ou a mais pura e deslavada cumplicidade. Principalmente, no terreno da falta de medidas firmes e resolutórias, esperadas do poder público em todas as suas instâncias, mas em especial do governo federal.

Frustração é o que mais uma vez tristemente se constata.

Na segunda-feira, desta antepenúltima semana do ano, dia seguinte ao domingo de barbárie na “Arena Joinville”, a sociedade brasileira e a chocada opinião pública internacional cobravam a presença firme do poder público em Santa Catarina. O ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, do PC do B, no entanto, apareceu logo cedo em Itaquera, no bairro paulistano aonde se constrói, no estilo e ritmo ditado pela FIFA (mas com tempero bem local), a “Arena Corinthians”, programada para receber o jogo de abertura da Copa do Mundo no Brasil.

Com um capacete de proteção na cabeça, do tipo usado pelos engenheiros, mestres-de-obras e operários da empreiteira Odebrecht, responsável pela construção monumental e custosa. Há poucos dias, por lá, uma grua gigantesca desabara sobre as arquibancadas, matando duas pessoas e destruindo parte da obra. Caso ainda sob investigação e cercado de dúvidas.

Vindo dos festivos sorteios da Copa e da pressão de Blatter, da FIFA , na praia baiana de Sauípe, o ministro do governo Dilma parecia incomodado e pressuroso, durante a “visita de inspeção das obras do Itaquerão”. No fim, disse ter ficado aliviado ao constatar que agora tudo está nos trilhos, e “a obra ficará pronta a tempo de abrigar o grande espetáculo de abertura da Copa”, no meio do ano que vem.

Só bem depois, e por muita insistência de alguns repórteres, Rebelo alinhavou declarações improvisadas, confusas, dispensáveis mesmo, sobre os trágicos e criminosos acontecimentos da véspera na “Arena Joinville”. E foi em frente o representante do governo na área dos Esportes.

Nada do esperado pedido de desculpas, à população, pelas ausências e erros da véspera, e não só isso: Pífia cobrança de firme e séria apuração dos múltiplos crimes praticados dentro e fora do estádio de futebol; nem ao menos uma tentativa de mobilização das autoridades específicas, encarregadas das investigações, para identificar e punir todos os culpados; ou ações de liderança ativa ou anúncio de medidas e iniciativas concretas para separar joio do trigo e combater, sem tréguas, a a selvageria doente que se espalha e contamina daninha e devastadoramente.

Antes que os novos ovos espalhados em Santa Catarina produzam mais serpentes, que se espalharão pelo país inteiro no decisivo ano de 2014. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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