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Mandela na Praça Castro Alves e no Palácio de Ondina:
um heroi no coração da Bahia

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ARTIGO DA SEMANA

Mandela na Bahia: Dia para não Esquecer

Vitor Hugo Soares

“O que conta na vida não é o fato de termos vivido. É a diferença que fizemos para a vida dos outros.”

Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul, Prêmio Nobel da Paz, líder e herói das lutas pela liberdade e igualdade racial, que morreu quinta-feira, 5. Será sepultado dia 15.

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Conto nas linhas deste artigo semanal, uma das mais intensas e empolgantes experiências pessoais e profissionais de minha vida: o dia de Agosto de 1991, da visita de Nelson Mandela a Salvador, chamada “Roma Negra” do Brasil .

O dia do “Axé a Mandela”, tão marcante no processo da conscientização e participação política e social, quanto especial também no terreno da complicada atividade do pensar e fazer jornalismo. Data incrível, para recordar sempre, principalmente nesta semana triste da partida do líder e herói planetário, e de enorme reboliço no País.

Antes, no entanto, peço licença aos leitores para um registro factual mais próximo, que talvez não guarde muita relação com aquela visita única e histórica para a Cidade da Bahia e sua gente, da personalidade de tamanho imensurável que a África do Sul e o planeta acabam de perder.

Ou (quem sabe?), tenha tudo a ver com aquele memorável Agosto no Brasil.

Avaliem:

Na expressiva (e sentida) mensagem de pesar que concebeu, assinou e deu divulgação horas depois de confirmada a triste notícia da morte de Nelson Mandela , o ministro presidente da Suprema Corte de Justiça do Brasil , Joaquim Barbosa, foi sintético e emblemático.

As palavras escritas e divulgadas no calor da hora da grande perda mundial e, ao mesmo tempo, no meio dos graves abalos políticos, éticos, jurídicos e sociais no País, parecem destinadas a alcançar os dois alvos com uma flecha só: o interno e o internacional. A mensagem do presidente do STF fala de sentimentos pessoais e humanos profundos, ao tempo em que joga um foco de luz sobre o debate brasileiro nestes dias temerários de confrontos apaixonados.

Em alguns momentos, cada vez com mais intolerância e virulência de algumas áreas (incluindo a jornalística), isso tem ultrapassado as fronteiras do bom senso democrático e da inteligência a serviço da clareza e da verdade, para cair no terreno pantanoso da mentira e engodos deslavados, ou da pura e simples selvageria das agressões pessoais.

Na mensagem de condolências do STF, Joaquim Barbosa começa com terrível e verdadeira constatação: “A morte de Nelson Mandela torna o mundo mais pobre de referências de coragem, dignidade e obstinação na defesa das causas justas”. Em seguida, destaca que a vida altiva do morto “traduziu o sentido maior da existência humana”.

E conclui, o presidente da suprema corte de justiça brasileira, a sua mensagem, seguramente destinada a ser anotada agora, guardada em lugar de destaque, e lembrada sempre: “Seu nome (Nelson Mandela) permanecerá como sinônimo de esperança para todas as vítimas de injustiça em qualquer parte do mundo”.

Nada a acrescentar, a não ser um pedido de reflexão sobre o que está explicitamente dito nas linhas, e implicitamente consignado nas entrelinhas, para quem entende dos signos do poder e da lei.

Agora é hora de retomar o fio da conversa do início deste artigo: O dia da visita do gigante Mandela a Salvador:

Era 03 de agosto de 1991. Na época, Antonio Carlos Magalhães era quem voltava a mandar na política da Bahia, pouco tempo depois da retumbante e consagradora vitória eleitoral de Waldir Pires sobre o Carlismo. Feito brilhante transformado em frustração, dois anos depois, quando Pires renunciou ao governo e entregou o comando do Estado a Nilo Coelho, para se candidatar a vice na chapa do MDB, encabeçada pelo deputado e presidente da Câmara, Ulysses Guimarães, à Presidência da República. Mas essa é outra história. Ou não?

O dia se revelaria especial logo no desembarque de Mandela. Milhares de soteropolitanos se comprimiam nas dependências internas e nas áreas próximas do então Aeroporto 2 de Julho. Governantes, políticos, militantes da lutas dos negros pela igualdade racial, líderes dos terreiros de candomblé, representantes dos famosos e poderosos blocos afros do carnaval baiano – destaque para o Ylê Aiyê e Olodum – artistas de todas as tendências musicais e políticas que então dominavam a cena baiana e nacional nas artes.

Mandela, com 71 anos, acabara de ser libertado, depois de 27 anos de prisão política e resistência em vários presídios de seu país. Eleito para comandar o partido do Conselho da União Africana (CNA), decidiu realizar um périplo por vários lugares do mundo que ele avaliava com importância nos embates por sua libertação. O Rio de Janeiro e a Bahia figuravam como pontos de destaques no roteiro pela América Latina.

Salvador, citada sempre como a capital mais negra do Brasil, mantinha laços profundos e reconhecidos com os ideais do ícone sul-africano das lutas pela liberdade de expressão e contra o racismo. Laços mais profundos, ainda, com os integrantes do movimento negro, dos blocos afros, dos poetas, intelectuais, autores e cantores, como Gilberto Gil (autor e intérprete do sucesso mundial “A Batina do Bispo Tutu) e Margareth Menezes, entre tantos outros que gritavam aos quatro ventos a defesa da liberdade do ativista negro que morreu anteontem.

A gente de Salvador respondeu à altura. No desembarque no aeroporto, no almoço oferecido no Palácio de Ondina por ACM, com a presença do cardeal arcebispo e Primaz do Brasil, na época, Dom Lucas Moreira Neves, políticos e personalidades das mais diferentes plumagens, partidárias e ideológicas, juntas no preito de honra a Mandela.

Mas a apoteose foi mesmo no grande espetáculo político e popular realizado, no final da tarde, na Praça Castro Alves. Multidão calculada em mais de 100 mil pessoas tomou o centro inteiro da capital. Alegria, vibração e lágrimas, tudo misturado na mesma emoção, como era comum se ver nas grandes festas cívicas e sociais baianas. A cada discurso, a cada abraço, a cada canção por Mandela e sua luta. Quando o herói visitante falou, praticamente todo mundo, mesmo o mais duro entre os presente, se entregou à emoção.

Ninguém me contou. Eu vi. Estava na Castro Alves, na área do destruído restaurante Cacique, ao lado de Raimundo Lima (amigo e ex-parceiro na redação da sucursal do Jornal do Brasil, hoje na ponte Angola-Salvador), que então comandava o Sindicato dos Jornalistas da Bahia, o cantor e compositor Gerônimo (Essa cidade é de Oxum), que presidia a Fundação Gregório de Mattos, Margarida (minha mulher e também jornalista), outros amigos e um sósia do líder sul-africano que desfilava nos blocos do carnaval, que Raimundo Lima apelidou de “Nosso Mandela”. Ele virou uma atração à parte na memorável celebração.

Na partida de Mandela, como esquecer a força dos sentimentos que brotavam da sua presença em Salvador? Responda quem souber, enquanto eu guardo a emoção.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta.

E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Graça Azevedo on 7 dezembro, 2013 at 9:41 #

Eu estava lá e a emoção permanece.


regina on 7 dezembro, 2013 at 16:43 #

Ele, Nelson Mandela, ou melhor, como foi sempre conhecido na sua África do Sul, entre o povo Xhosa,que vive na região do Transkei onde ele nasceu, Madiba, foi uma presença inesquecível de muitos de nós que tiveram a grande honra de estar no menos recinto que ele.
Eu também tive esse privilégio, durante a visita de Mandela aos Estados Unidos, meses depois ser liberado em Fevereiro de 1990 encerrando 27 anos de prisão. Era um Sábado de Junho, “Celebration Saturday”, 58.000 + de californianos encheram o Colizeu de Oakland, não cabia mais nem mesmo um alfinete, para ver Nelson Mandela e ajudar, de alguma forma, a acabar com o regime vergonhoso de apartheid na África do Sul.
Mandela havia sido liberado cinco meses antes e saio pelo mundo para agradecer a solidariedade dos povos que com ele compartiam o ideal de um mundo mais justo e mais igual para todos.
Eu fui com um grupo de colegas de trabalho e amigos, sentamos no sol à pino do meio dia, o coração saltando de alegria e entusiasmo pela causa e pelo personagem que tomava forma em frente de mim como saindo de um conto, uma historia que tomava corpo, que era palpável!!!
Em seu discurso ele disse ter vindo à as cidades de Oakland, Berkeley e San Francisco, por ter sido umas das primeiras a adotarem o boicote das companhias americanas que mantinham negócios com a África do Sul e impedir que cargas de lá fossem desembarcados no porto de Oakland. Estávamos em momentos importantíssimoos para acabar com o injusto status daquele país e não íamos voltar atrás. Mandela disse que apesar dos seu 71 anos, ele se sentia naquele dia com 35, “uma velha bateria que teria sido recarregada” e que assim se sentia por causa do apoio do povo que viera lhe saudar.
Mandela nos confidenciou naquele dia que nós todos íamos juntos mudar o rumo da historia, quatro anos depois apartheid chegou ao fim e ele, Madiba, foi eleito presidente da África do Sul.

https://www.youtube.com/watch?v=NtiIkA2oGD4


Carlos Volney on 7 dezembro, 2013 at 21:05 #

Acho até que já falei isso aqui. Mandela foi o único ídolo que tive. Para mim ninguém fez mais pela humanidade que ele. Só o fato de conseguir acabar com um dos crimes mais hediondos que se praticou conta a humanidade, faz ele imortal. Quisera ter tido a ventura de chegar perto dele e me curvar pedindo para beijar sua mão. Não consegui, mas valeu a intenção e vontade, fica pra próxima…
Esse, sim, para mim foi Deus.
Hoje, silenciosa e emocionadamente tomei um gole em sua homenagem.
Valeu, Madiba, como valeu…


douglas dourado on 8 dezembro, 2013 at 21:56 #

Quisera eu ter o dom Jornalistico e acresentar mais algo a esse artigo, más vejo que ele está completo e que eu acresentar será mera formalidade. Parabens Vitor, e vamos lembrar sempre com força do nosso Mandiba


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