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ARTIGO

Mandela saiu para pescar

Janio Ferreira Soares

Início da noite de quinta-feira, 05 de dezembro, começo a burilar meu penúltimo artigo do ano. Um calor infernal me embaça as ideias. Lembro de coisas soltas, como a história que Gil conta quando Caymmi ficou dias ajustando o seu ventilador até encontrar a distância certa para que o vento chegasse exato à sua poltrona em um Rio 40 graus, à época somente um purgatório da beleza, sem nenhum indício de caos. Na TV uma reprise do excelente Zoombido, programa apresentado por Paulinho Moska, mostra Antônio Carlos e Jocafi falando e cantando. Fico feliz em ver que o tempo fez bem ao grisalho Jocafi, mas nem tanto a Antônio Carlos que, cabelos e barba à graúna, parece mais um irmão gêmeo do boneco Falcon. E enquanto “o quadradismo dos meus versos vai de encontro aos intelectos que não usam o coração como expressão” me conduz a tempos de inofensivos amores, breguetes e que tais, fico sabendo da morte de Nelson Mandela.

Imediatamente mudo o rumo dos dedos e solicito às teclas mais detalhes sobre sua saída de cena, mas não tem jeito. Mesmo diante de dezenas de milhares de informações a respeito de umas das figuras mais emblemáticas da história recente (em tempo: nestes dias em que punhos cerrados foram erguidos fora do contexto, é um colírio vê-lo em tal atitude), a imagem que não sai da minha cabeça é a dele bailando o toyi-toyi , dança oriunda dos guetos e subúrbios africanos, com aquela elegância e a placidez característica que poucos conseguem ter (Paulinho da Viola, professor Milton Santos, Mãe Estela…), além de um sorriso escancaradamente sincero, ingênuo e franco, que remete ao daquele moço que saía pra pescar nas águas do Mucuripe e, ao voltar, colocava sua calça nova de riscado, o paletó de linho branco (que até o mês passado lá no campo ainda era flor) e ia namorar, nem aí pra saudade, nem com anseio de casar.

Agora só me resta abrir um belo pinotage de terras sul-africanas, colocar Manu Dibango na vitrola e pedir inspiração a mestre Caymmi para acertar o ponto do meu velho ventilador. Tim-tim, Madiba.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem Bbaiana do Rio São Francisco.

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