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OPINIÃO POLÍTICA

Dirceu em queda

Ivan de Carvalho

O ministro José Dirceu era, até poucos dias, muito poderoso, como tanto se diz que gosta, apesar de condenado pelo Supremo Tribunal Federal por corrupção ativa e formação de quadrilha (estando esta última condenação dependente do julgamento de um embargo infringente). Ele foi, aliás, apontado por ministros do tribunal como o chefe da quadrilha, o que talvez haja sido a injustiça contra ele cometida, uma vez que declarara que nada do que fez na chefia da Casa Civil foi feito sem o conhecimento do seu chefe.

Mas voltemos ao fio da meada. Não se pode dizer que há uma certeza, mas é grande a possibilidade de que, mesmo cumprindo pena, mantenha dose cavalar de poder, uma vez que o PT, seu partido, do qual já foi presidente, e que estará no governo pelo menos até 31 de dezembro de 2014. Especialmente se for absolvido no segundo julgamento pelo crime de formação de quadrilha, o que lhe pouparia o regime fechado e lhe permitiria experiência exclusiva no regime semiaberto, dando-lhe a oportunidade de exercer atividade política com desenvoltura.

O Jornal Nacional, da Rede Globo, edição de terça-feira, entregou ao público dados e informações que ampliaram e aprofundaram o que já era um escândalo – o emprego de R$ 20 mil por mês, para ser gerente administrativo, oferecido pela firma que administrava o Saint Peter, hotel situado no centro de Brasília (local muito adequado), valendo o registro de que o diretor geral do hotel tinha o salário de R$ 1.800,00.

As coisas não parecerão tão sem lógica se considerado o fato de que o hotel com tão mal pago diretor geral tinha, de fato, o controle de um ex-deputado, empresário importante na área de comunicações eletrônicas, com ênfase em televisão. E que, com a anuência técnica e legal da Anatel, uma agência que integra o governo federal, a torre de uma emissora sua conseguiu pular de Goiás para a Avenida Paulista, uma espécie de salto da China. Um dos sócios do hotel, Paulo Masci de Abreu, é irmão de José Masci de Abreu, presidente do PTN. O Partido Trabalhista Nacional apoiou a eleição de Dilma Rousseff em 2010.

Mais lógica ainda se põe a história quando o JN nota que o presidente da empresa administradora do hotel mora no Panamá, onde a reportagem o encontrou em uma área pobre, lavando esforçadamente seu automóvel na porta de casa. Ele trabalha como auxiliar de escritório em uma empresa de advocacia e, dizem os fruticultores panamenhos, é chegado a uma laranja.

Bem, em um hotel de uns 400 quartos, saguão amplo, não faltarão a José Dirceu tarefas a cumprir e pessoas a quem receber e com quem conversar, na sua faina diária. Mas pode não ser bem como ele pensa. A decisão de autorizar ou não o trabalho estafante de Dirceu no hotel cabe ao juiz da Vara de Execuções Penais e há muita desconfiança, no STF, de que o juiz Bruno Ribeiro não concederá o benefício do emprego no hotel a José Dirceu nem a Delúbio Soares o emprego que a Central Única dos Trabalhadores lhe ofereceu.

Como a confirmar isto, Marco Aurélio Mello, um dos ministros do STF, disse ontem que, como cidadão, “não vê com bons olhos” a informação de que o presidente da firma que administrava o hotel Saint Peter (que ofereceu o emprego a Dirceu) é um auxiliar de escritório de uma empresa de advocacia no Panamá. Segundo a reportagem do Jornal Nacional, o panamenho teria outras mil firmas ligadas ao seu nome, o que sugere seja ele, não um “laranja”, mas um laranjal.

Marco Aurélio disse ainda que cabem explicações (de alguém ligado a Dirceu) à sociedade. “Todos nós devemos contas à sociedade e cada qual adota a postura que é conveniente”.

Bem, se o Mensalão reduziu o poder de Dirceu, mas não o extinguiu, esse escândalo do hotel tende a reduzi-lo um pouco mais, ainda que muito sobre.

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Comentários

jader on 5 dezembro, 2013 at 9:04 #

jader on 5 dezembro, 2013 at 12:44 #

Denúncias
A lógica torta da Globo no caso de José Dirceu
publicado em 4 de dezembro de 2013 às 21:28
http://www.viomundo.com.br/denuncias/a-logica-torta-da-globo-no-caso-de-jose-dirceu.html

por Luiz Carlos Azenha

Dezenas de milhares de presos brasileiros, que cumprem pena em regime semiaberto, trabalham.

Não é nenhum privilégio: está previsto na legislação. Assim como está prevista a remissão de pena, ou seja, a redução da pena em função dos dias trabalhados.

Não há nada de excepcional nisso.

Pergunta básica sobre um preso hipotético: José da Silva é responsável pelas ações daquele que o emprega?

Se a empresa que acolheu José da Silva for condenada por tráfico de drogas, se sonegar Imposto de Renda ou se for de propriedade de um laranja, José da Silva deve pagar também por isso?

Resposta óbvia: não.

Qualquer tentativa em sentido contrário significa punir por associação.

Diz, com razão, o advogado de José Dirceu:

“A constituição societária do hotel St. Peter não diz respeito a meu cliente. Por que 400 pessoas podem trabalhar no hotel e o ex-ministro não? Esse hotel é antigo em Brasília, tradicional, mas para alguns parece que foi inaugurado ontem. Juntamos toda a documentação necessária para que meu cliente possa trabalhar e espero a decisão da Justiça”.

O que o Jornal Nacional está tentando fazer é “punir” um hotel que ofereceu um emprego a José Dirceu. É punir o preso por práticas supostamente ilícitas do hotel, o que é um absurdo jurídico.

Ou isso, ou a Globo está tentando lançar no ar uma ilação: José Dirceu seria o dono oculto do hotel que pretende empregá-lo, através de um laranja num refúgio fiscal, o Panamá.

Mas, aí, eu também posso fazer uma ilação: José Dirceu comprou parte da Abril, com o objetivo de calar Victor Civita.

Sim, porque como revelou um sítio, a mesma empresa do “laranja” envolvido com o hotel Saint Peter — que ofereceu emprego a José Dirceu — comprou parte da TVA, da Abril.

Já pensaram nisso? José Dirceu compra a Veja para torná-la uma publicação esquerdista!

Por falar em ironia, o blogueiro Mello desafiou a Globo a ir fundo não apenas no Panamá, mas também nas ilhas Virgens Britânicas, onde uma certa Globo Overseas comprou os direitos de transmissão das copas de 2002 e 2006 usando uma empresa de fachada. A palavra não é minha, é da Receita Federal.

O que a Globo está tentando fazer no caso de Dirceu equivale ao Mello pedir que William Bonner seja punido por eventual sonegação fiscal dos empregadores dele, os irmãos Marinho!

Hoje, a Globo mobilizou três pessoas para fazer valer sua tese de que o escândalo diz respeito ao preso José Dirceu: Álvaro Dias e “ministros” do Supremo Tribunal Federal. Nem Gilmar Mendes, nem Marco Aurélio Mello, ouvidos, foram assim tão enfáticos. Mello, aliás, lembrou que não falava como juiz do caso. Por motivos óbvios: a decisão de permitir ou não que José Dirceu trabalhe não tem relação alguma com o fato de o hotel pertencer a um laranja ou a marcianos.

O que a Globo quer é vingança. É evitar que José Dirceu tenha os mesmos direitos de dezenas de milhares de outros presos que cumprem pena em regime semi aberto. Direito ao trabalho. À ressocialização.

A Globo não quer que a lei seja cumprida. Ou quer que ela seja cumprida seletivamente. É isso o que se esconde por trás do “jornalismo” do Ali Kamel.


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