DEU EM O GLOBO

Morreu na manhã deste sábado, aos 78 anos, o produtor musical João Araújo. Segundo o G1, ele se recuperava de um acidente doméstico e faleceu em casa. Ele foi casado por 56 anos com Lucinha Araújo, com quem teve um único filho, o cantor Cazuza, morto em 1990.

O velório acontece a partir de 12h e o enterro está marcado para 17h, no cemitério São João Batista, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro.

Descobridor de talentos

O pai do Cazuza – muitas vezes, era simplesmente assim que João Araújo era chamado. Mas ele foi, de alguma forma, pai de muito mais gente na música brasileira. Ao longo de décadas de carreira na indústria fonográfica, o empresário e produtor foi o responsável por lançar artistas como Caetano Veloso, Djavan, Gilberto Gil, Novos Baianos, Lulu Santos e Nara Leão. Em novembro de 2007, ele conquistou um Grammy de Contribuição à Música (Life Achievement), na categoria produtor.

Na mesma época, ele fez um balanço de sua carreira, relembrando que resistiu a gravar o primeiro disco do filho e hesitou em reconhecer que Roberto Carlos, o Rei, tinha algum talento.

– Foi impossível não me lembrar do Cazuza – disse Araújo ao GLOBO logo após ter recebido o prêmio. – Ele teria feito alguma gozação, teria achado tudo ridículo, mas depois ia aplaudir e gostar de ver o pai ganhar esse prêmio. Cazuza não teve tempo de ter carreira internacional, ele morreu antes de ver o reconhecimento do seu trabalho fora do Brasil.

Sua história na música começou aos 14 anos. Na época trabalhava com o irmão, dono de laboratório, fazendo remédios. O adolescente não gostava nada do ofício e agarrou a oportunidade oferecida por um cunhado para trabalhar na Copacabana Discos, como auxiliar de imprensa. Seguiu dentro da indústria fonográfica ao longo da vida inteira – 38 anos a frente da Som Livre, que fundou em 1969.

Da Copacabana Discos, foi para a Odeon (hoje EMI) e, em seguida, para a Philips (hoje Universal), onde se tornou diretor artístico. Lá, montou um elenco histórico, contratando artistas como Gal Costa, Caetano e Jorge Ben. Ali, firmou seu nome como descobridor de talentos. Gostava de lembrar como acertou em suas apostas artísticas. Sobre Gil: “Conheci o Gil quando ele trabalhava numa multinacional, a Gessy Lever, e vivia de terno com uma pastinha embaixo do braço”.

De Caetano, ele lembrava que “o presidente da empresa em que eu trabalhava, a Philips, era francês e quando viu o Caetano, aquele rapaz magrinho, fraquinho, disse: ‘João, é bom gravar ele logo porque esse rapaz não vai resistir muito tempo'”. Djavan teve a ajuda dele para se firmar no Rio: “Ouvi e achei fantástico o trabalho dele no violão. Mas tinha um problema, ele tinha vindo de Alagoas e não tinha dinheiro para ficar no Rio muito tempo. Arranjei um trabalho para ele na boate 706, do Leblon, e ele conseguiu se manter”. Araújo recordava também a “invasão” dos Novos Baianos à sua casa: “O Caetano me ligou e disse que tinha uns baianos maravilhosos para eu conhecer. No mesmo dia, às onze da noite, chegaram todos lá em casa e ficaram tocando até cinco da manhã. O Cazuza era pequenininho e ficou animadíssimo. Eles dormiram espalhados pela sala. A Baby usava um espelhinho de dentista na testa”.

Seu faro falhara pouquíssimas vezes. A mais lembrada, com Roberto Carlos – ou ouvir o o cantor, em 1962, cravou que ele jamais faria sucesso. Anos mais tarde, já na Som Livre, quase deixara passar Cazuza, por motivos diferentes. Ele resistia a contratar o Barão Vermelho, banda do filho. O diretor artístico Guto Graça Mello conseguiu convencê-lo argumentando que seria pior se o filho dele estourasse em outra gravadora.

Era bom apostador também na mesa de pôquer, uma de suas paixões. Na sala de sua casa, tinha emoldurados os oito royal street flash – sequências do dez ao ás, todas do mesmo naipe – que fez na vida. O terreno em que a família construiu a casa na Fazenda Inglesa, em Petrópolis – um dos refúgios preferidos de Cazuza – foi ganho no jogo. Na música como no baralho, seguia a intuição, sem fórmulas. Costumava dizer que música era fotografia: podemos fazer um punhado de fotos, mas a que vai valer é sempre a primeira.

Ele costumava lembrar que quando começou na indústria fonográfica, gravava-se discos de cera: “Depois veio o vinil, em seguida a fita cassete, depois o CD… Eu passei por isso tudo e a cada vez que a indústria fonográfica mudava alguém vinha prever que a música brasileira iria acabar derrotada pela música estrangeira. Eu vi tudo passar na minha frente, bossa nova, jovem guarda, tropicália, rock Brasil, funk, axé… E a cada ano a música brasileira fica mais forte”.

Nome por trás de discos históricos da música brasileira, ele também tinha grandes números de vendagem em sua carreira, como Xuxa, que, ele ressaltava, vendeu mais de três milhões de cópias de um único álbum. Se como produtor e empresário trafegou por gêneros diversos, como ouvinte ele tinha um porto seguro, o álbum “Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim” (“o maior disco que foi gravado por um músico brasileiro”, classificava). E costuma se sefinir como um romântico, “meio bossa nova e samba-canção”.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura

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