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Livro de Buñuel e presos do Mensalão e
Joaquim Barbosa:importância da memória
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ARTIGO DA SEMANA

Presos do Mensalão, Buñuel, e a Memória

Vitor Hugo Soares

Na abertura de “Meu Último Suspiro”, seu livro de memórias, o cineasta espanhol Luis Buñuel recorda: sua mãe, nos dez últimos anos de vida, começou a perder a memória. Chegou ao ponto de não mais saber quem eram seus filhos ou quem era ela mesma.

Ele entrava em casa, beijava-a, passava um tempo a seu lado. Depois a mãe (cuja saúde física se mostrava intacta) se afastava. Retornava em seguida e recebia o filho com o mesmo sorriso, pedia para que ele se sentasse, como se o estivesse vendo pela primeira vez, já não sabendo nem mais seu nome.

Nas primeiras páginas do livro referencial, o cineasta, ao falar da mãe, recorda também do seu tempo de garoto no colégio em Saragoza, quando era capaz de recitar de cor a lista completa dos reis visigóticos, as superfícies e populaçõesde todos os países europeus, “e muitas outras inutilidades”.

Buñuel fala, também, do primeiro esquecimento do antigo garoto espanhol tido como um “Memorion”, e dos esquecimentos seguintes. “Com esse esquecimento, e outros esquecimentos que não tardarão a apresentar-se, começamos a compreender e a admitir a importância da memória”, diz o mago do surrealismo no cinema.

“É preciso começar a perder a memória, ainda que se trate de fragmentos, para perceber que é esta que faz toda a nossa vida. Uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência sem possibilidade de exprimir-se, não seria uma inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela não somos nada”, conclui Buñuel. Magnificamente!

Os grandes artífices da escritura que me perdoem o tamanho da citação, mas a julgo absolutamente essencial neste momento estranho e desmemoriado que o Brasil atravessa. Em outros escritos, em outros momentos, ou em outras ações pessoais já me socorri dela.

Diante da verdade (bela e terrível ao mesmo tempo) contida na citação e nas páginas de “Meu Último Suspiro”, devo seguir na trilha das lembranças. “Enquanto é tempo”, como recomendava Raimundo Reis, outro autor da minha predileção, já no título de um de seus livros. Exatamente seu livro de memórias.Raimundo, ex-deputado pessedista de renome na história de seu partido (PSD) e do parlamento de seu Estado foi, acima de tudo, um notável cronista do cotidiano da Bahia e escritor de muitos livros publicados, nascido nas barrancas do São Francisco, o rio da minha aldeia.

Recordemos, então: Corriam os primeiros meses de 1969 quando aconteceu, na Bahia, a estranha história que, espero, sirva para contextualizar melhor este artigo de opinião. Pode, a princípio, parecer uma “coisa antiga”, sem sentido ou significado maior para alguns. Mas (quem sabe?), pode ser que guarde expressão e relevância factual e interpretativa, jornalisticamente falando, em relação aos tumultuados e explosivos dias que correm na política, na justiça e na vida social brasileira em geral.

Em especial, se a narrativa for comparada com histórias, atos, fatos e aspectos da feroz controvérsia que envolve os condenados, pelo Supremo Tribunal Federal, no processo criminal do Mensalão. E o barulho causado pelo recolhimento dos 11 primeiro deles (homens e mulheres) às dependências do Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal. José Dirceu, José Genoino (ontem internado em um hospital do DF, para exames sobre o seu efetivo estado de saúde, autorizado pelo presidente do STF, Joaquim Barbosa) e Delúbio Soares. Figuras referenciais da história do PT e, no caso dos dois primeiros, da própria história política e social brasileira recente.

Era começo daquele ano (1969), ainda sob as sombras e reflexos kafkianos de 1968, o incrível “ano que não terminou”. Em meio, também, aos desdobramentos terríveis da aplicação das implacáveis medidas ditatoriais do AI-5, que atingiam com braço de ferro desde a atividade política à vida educacional nos colégios e nas universidades públicas.

Neste ambiente cavernoso, começava o ano letivo, quando a Faculdade de Direito da UFBA foi cercada e invadida por agentes da Polícia Federal (PF). À frente da operação, inédita na vida da Bahia, o chefe da instituição policial no estado à época. Quase uma dezena de alunos da tradicional escola baiana de ensino jurídico, integrantes de uma relação de quase 50 estudantes com matrículas “cassadas” na UFBA, pelo AI-5, foram retirados algemados da sala de aula, sob as vistas de diretores, professores, alunos e funcionários da Faculdade. Entre eles, o autor deste artigo, que acabara de ser diplomado em Jornalismo e se preparava para cursar o último ano de Direito.

Na Bahia e no País, só um jornal registrou a invasão da Faculdade de Direito da UFBA e a prisão dos estudantes em sala de aula: O Estado de S. Paulo, graças à coragem do jornal paulista e de sua correspondente em Salvador, na época: jornalista Zilá Moreira

Depois de um dia de identificação, entre a sede da PF e o Quartel General do Exército, em Salvador, fomos todos dormir em uma cela no Quartel do 19º Batalhão de Cavalaria, no bairro do Cabula, que, com o correr dos dias de março, ficaria cheia de outros presos: Estudantes, profissionais liberais, dirigentes sindicais, vereador da capital, prefeito de cidade grande do interior do estado.
“Gente de esquerda e gente de Andreazza”, como fazia questão de frisar o vereador, um líder portuário do antigo PTB, quando queria estabelecer as diferenças políticas, ideológicas e pessoais dos prisioneiros na cela do 19 BC. Quando isso não se mostrava suficiente, ele chamava a “turma de esquerda” em um canto, e fazia o alerta mais direto e explícito:

– Olha, não esqueçam: o prefeito é gente boa, todos nós sabemos. Inteligente, culto, psiquiatra competente, intelectual de boas leituras, joga xadrez muito bem, é simpático e amigueiro. Mas é preciso não esquecer: “Nós estamos presos aqui por subversão, mas o prefeito está preso por corrupção”, encerrava o vereador, referindo-se às ligações do político com “o ministro dos Transporte da ditadura”, que então começava “a cair em desgraça no regime”.

Mais não digo. Ou melhor, faço apenas outra citação. Esta da preferência dos franceses, da qual também gosto muito e repito sempre que preciso e a memória permite:”Que seja amaldiçoado, quem pensar mal destas coisas!”

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Cida Torneros on 23 novembro, 2013 at 9:24 #

Parabéns, Vitor, como sempre, você escreve intenso e sabe que a história conta, reconta, reinventa e nos dá muitas versões plausíveis como direito múltiplo de memorizar ou esquecer, ou até lembrar distorcendo fatos. É a novela da vida!


Mariana Soares on 23 novembro, 2013 at 10:47 #

Não precisa dizer mais nada, meu irmão, você já disse tudo! Só falta mesmo é as pessoas, que insistem em crucificar Joaquim Barbosa, que apenas cumpre dever de ofício, entenderem a diferença entre a história desses políticos, hoje presos na Papuda, e os crimes cometidos por eles, julgados e, agora, punidos, como deve ser em qualquer lugar do mundo.
Quantos aos excessos cometidos, por um e por outros, também não concordo! É preciso tb serem reprimidos enfaticamente. Mas, mandar e manter na cadeia quem comete crime, seja lá quem for, deveria ser regra indiscutível, ou não?


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