nov
23


==========================================================

CRÔNICA/CONVERSAS

Uma turma nem aí pra Zé Dirceu

Janio Ferreira Soares

Dias depois da prisão de Zé Dirceu e companhia, lá ia eu por caminhos de terra quando uma moto, andando meio de banda como no carimbó de Pinduca, para em minha frente. Afino o olhar e vejo que o homem escanchado sobre ela é seu Vaco, batizado José Pereira da Silva, cujo apelido o acompanha desde os tempos em que sua enorme gagueira não lhe permitia se dizer vaqueiro. Depois de abraços e tentativas de frases atravancadas, resolvemos colocar o papo em dia num quiosque à beira-rio.

Ele me conta, entre caretas e pálpebras descompassadas, que a maioria dos filhos já casou e lhe deu uma ruma de netos; que agora só bebe jurubeba, pois o doutor lhe receitou vinho à pinga; que nunca mais tocou sua gaita; e que uma dor danada nas costas é o motivo dele guiar de lado. Indago sobre o destino do velho jumento que o levava dos bares à sua casa deitado em decúbito ventral sobre seu lombo e ele diz que, graças ao Bolsa Família, trocou-o por “essa motinha” e também comprou uma TV “das fininhas”. Em breve, uma lavadora de roupa dará um descanso aos dedos engelhados da patroa. Deus lhe preserve.

Enquanto um cantor berra “vai, Riquelme!”, dou uma beliscada num tucunaré e puxo o assunto do mensalão. Ele já ouviu falar, mas não quer nem saber. Cito Dirceu, ele dá de ombros; pronuncio Delúbio, ele pede um limão; falo Genoíno, ele vai ao banheiro; digo Pizzolato, ele sugere calabresa. Desisto de mencionar Barbosa, pois certamente ele vai achar que eu quero papo sobre a Copa de 50.

O bar está repleto de jovens igualmente nem aí pro tema. Eles tomam vodca ice e cantam um atentado sonoro de nome forró romântico, que diz: “Eu vou parar meu carro na frente do cabaré, vai ter muita mulher, vai ter muita birita. Todo puteiro me conhece, eu sou o cara que alugou um caminhão pra encher de rapariga”. Peço a conta, me despeço de seu Vaco e desejo boa sorte aos adolescentes que logo serão o futuro do sertão, mas no momento estão interessados mesmo é numa carona na boleia ou na carroceria desse animado caminhão. “Vai, meu batera!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • novembro 2013
    S T Q Q S S D
    « out   dez »
     123
    45678910
    11121314151617
    18192021222324
    252627282930