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OPINIÃO POLÍTICA

Estratégia ou imprudência
Ivan de Carvalho

Pode até ser que dê certo, que esteja correta a escolha de 30 de novembro para anunciar o candidato do PT (e, consequentemente, dos governos estadual e federal) a governador da Bahia. Mas é uma data imprudente, um tanto açodada.
Ontem mesmo surgiu informação, a confirmar, mas com firme aparência de verdade, que a ministra do Superior Tribunal de Justiça e ex-corregedora nacional de Justiça – função que exerceu brilhante e corajosamente no Conselho Nacional de Justiça, enfrentando os “bandidos que se escondem atrás das togas” – vai se filiar ao PSB e concorrer por este partido, na Bahia, a um mandato eletivo no ano que vem. Presume-se que ao de senadora.
O site Política Livre, que divulgou a informação obtida nos bastidores políticos de Brasília, refere que ela culminou articulação pessoalmente conduzida pelo presidente nacional do PSB, governador de Pernambuco e candidato a presidente da República, Eduardo Campos.
O PSB e o Democratas vinham trabalhando há algum tempo pela adesão da magistrada baiana Eliana Calmon e o fato de que a ministra tenha em seu pensamento, desde os tempos de faculdade de Direito (fui seu colega de turma na UFBa) o que se poderia chamar de um moderado “viés de esquerda” haja sido talvez o principal fator a conduzi-la ao PSB, ao invés do DEM, cujo ideário segue caminho democrático diverso.
Caso entre mesmo na disputa pela cadeira que estará em jogo nas eleições para o Senado, Eliana Calmon é considerada uma candidata com amplas possibilidades, havendo muitos políticos na oposição que a consideram “imbatível”. Se é mesmo imbatível só as urnas dirão, mas que é forte, dúvida não há. E aí é que nos lembramos da opinião explicitada pelo vice-governador e secretário estadual de Infraestrutura, Otto Alencar, presidente estadual do PSD e tido por muitos (até porque ele mesmo fica dizendo que é o que quer) como candidato governista a senador.
A opinião de Otto Alencar – uma liderança de forte peso eleitoral no governismo – expressa antes dessas últimas informações sobre Eliana Calmon, mas certamente já a incluindo como um dos numerosos fatores do contexto político-eleitoral, é de que o anúncio do nome do candidato a governador (e possivelmente da chapa completa às eleições majoritárias, com os candidatos a Senado e vice-governador) não deveria ocorrer no dia 30 próximo, mas seguir a tradição baiana de ocorrer depois do carnaval. Até lá já estariam mais evidentes os personagens presentes no cenário, suas respectivas alianças e a receptividade do eleitorado, do qual já se poderia sentir com mais consistência do que agora as vontades.
Pode muito bem ser que Otto Alencar (cuja advertência não incluiu muitos dos detalhes da interpretação que lhe dei) se torne apenas “a voz que clamou no deserto” e o açodamento em curso, cujos planejadores presumem estratégicos, prossiga impávido – para a vitória ou para as trapalhadas.
Inicialmente o governismo contava com o PSB em sua coligação e hoje está confrontado com a candidatura da senadora Lídice da Mata, presidente estadual deste partido (não importa muito se entusiasmada ou constrangida) a governadora. E então consolida-se a hipótese do reforço de Eliana Calmon ao PSB. Um segmento importante da chamada “esquerda” – sem embargo do cheiro de mofo que, a meu ver, as palavras esquerda e direita hoje exalam na política – desgarra-se da enciclopédica miscelânea “ideológica” governista. No segundo turno, caso o PSB não esteja nele, pode voltar ao ninho antigo, pela inclinação dominante local – ou até não. Eduardo Campos, o presidente nacional do PSB, conversa muito bem com Aécio Neves, do PSDB e não é simpático a um papo com o PT, do qual sensatamente considera haver descoberto que apenas o estava enrolando ad aeternum.
Bem, e não está claro como vai terminar o arranca-rabo PP-PDT pela candidatura governista a vice-governador nem como procederá o PDT na Bahia, que “não aceita ser humilhado com a exclusão da chapa” às eleições majoritárias, segundo seu presidente regional Alexandre Brust disse ao governador. E como procederá o PDT nacional ao tratamento que lhe der o governo do PT até junho? E as oposições tradicionais disputarão o governo com o democrata Paulo Souto, o peemedebista Geddel Vieira Lima ou quem?
Ora, afinal, a “voz que clama no deserto” pode ter razão. Nos registros bíblicos, tem. No mundo profano da política, como diria Caetano, pode ter. Ou não.

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