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OPINIÃO POLÍTICA

Curas malditas

Ivan de Carvalho

Hoje não vou escrever sobre política. A palhaçada que está sendo feita para transformar em presos políticos os políticos presos no contexto do escândalo do Mensalão e, ainda mais, o absurdo de tentar na Câmara dos Deputados, contra a determinação STF, os condenados presos, sem direitos políticos, fazem a gente ficar quase sem ter o que dizer. A Câmara dos Deputados – sob influências corporativas e governistas em geral – intenta um golpe institucional com o STF como alvo direto e imediato e como alvo amplo e mediato a nação. É o que se pode dizer e já que o fizemos, vamos mudar de assunto, escrever de coisas sérias.

Conheço uma velhinha, pobre, humilde, sofrida, quase santa. Dona Lúcia. Quando ainda não era velhinha, teve Doença de Chagas. Exatamente. Ela teve – não tem mais – a incurável Doença de Chagas, provocada por um protozoário, o trypanosama cruzi, levado às pessoas pelo inseto conhecido como barbeiro, chamado nos antigos livros de escola primária do sertão nordestino de “barbeiro ou chupão”.

Uma doença tipicamente tropical identificada pelo cientista brasileiro Carlos Chagas. O inseto transmissor costuma ocultar-se em pequenos lugares escuros, a exemplo dos buracos de uma casa com paredes de taipa, sem reboco. A contribuição do programa Minha Casa, Minha Vida para nos libertar dessa doença ainda nada representa, na minha avaliação. E como é uma doença que não afeta o primeiro mundo, os laboratórios farmacêuticos não investiram em pesquisa (os governos do Brasil, como outros países afetados, fingiram que não era com eles), de modo que “não existe cura”.

No entanto, a agora velhinha, já com o efeito básico da doença em curso (ela faz inchar progressivamente o coração) ouviu ruídos da sabedoria popular, foi a Feira de Santana, visitou um cidadão que fazia uma “garrafada” para curar Doença de Chagas. Tomou a garrafada conforme as prescrições e até hoje, de quando em vez, faz um exame que mostra que ainda carrega a doença no sangue. Mas, conforme constatado, ela não causa mais dano algum a dona Lúcia nem ao seu coração. O homem que fazia a garrafada já morreu, mas não de doença de Chagas. E seu filho tem uma farmácia em Feira de Santana. Dona Lúcia não soube me dizer se ele faz a garrafada que o pai fazia – dona Lúcia não precisa mais dela.

Para não sair desses assuntos de doenças e curas, volto a um assunto de que já tratei antes neste espaço. A auto-hemoterapia. Consiste em retirar sangue – geralmente 10 ml – de uma veia e aplicá-lo imediatamente em um músculo adequado. Para a quantidade de sangue citada, seria o músculo glúteo. Sangue no músculo é reconhecido como “corpo estranho” e ouriça o sistema imunitário.

Esse tratamento é antigo e quando não existiam os antibióticos era um santo remédio contra infecções. Hoje pode servir na profilaxia das infecções hospitalares, reduzindo sua incidência a níveis talvez insignificantes (a bactéria de pega, seu sistema imunitário pega ela sem dar-lhe tempo a multiplicar-se) e para atuar em combinação com os antibióticos no combate a infecções instaladas. Um médico clínico do Rio de Janeiro, Luiz Moura, praticante da auto-hemoterapia, inclusive nele mesmo, cuidou de divulgá-la na Internet. A Secretaria de Saúde de Olinda, vendo o depoimento do médico em um DVD no Youtube, pegou o pião na unha: informou-se mais e criou um centro de auto-hemoterapia, que teve intensa demanda e êxito. Mas o mundo estava caindo sobre a antiga descoberta da medicina, hoje muito usada…na veterinária. Sorte dos bichos. A Anvisa (ah, como é desconfiável a Anvisa), emitiu uma “nota técnica” em 2007, dando conta de que não há “comprovação científica” da eficácia da auto-hemoterapia. Mas o governo do qual faz parte esqueceu-se de promover pesquisas que demonstrassem ou descartassem tal eficácia, empiricamente já provada.

O Conselho Federal de Medicina e o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro abriram processos contra o Dr. Luís Moura. O Cremerj absolveu o médico (ele tinha provas materiais e testemunhais de muitas curas), mas o proibiu de fazer proselitismo, sob pena de ter cassado o direito de exercer a profissão. O CFM não julgou o caso, alegando-o prejudicado ante a absolvição fluminense (acho que o julgamento federal ia fazer muito barulho, tornar a auto-hemoterapia mais conhecida e debatida).

Finalmente, atendendo a interesses corporativos e à pressão de poderosos e óbvios lobbies, os conselhos federais de Medicina, Farmácia e Enfermagem proibiram, em 2011, seus integrantes de prescrever ou aplicar a auto-hemoterapia. Joaquim Barbosa, presidente do STF, que, afirma-se, se beneficiou dela na Alemanha, onde é um tratamento normal, talvez, se trocar o STF pela política, possa levantar essa bandeira

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Comentários

Fetha on 22 novembro, 2013 at 9:48 #

Auto-hemoterapia. Parecer analítico documentado. Um guia para pesquisas.

Videos disponiveis no YouTube.
http://www.youtube.com/worldautohemotherapy


jader on 22 novembro, 2013 at 18:23 #

Como a auto-hemoterapia pode elevar a compaixão e a generosidade ? Luis Nassif responde :
Política
Joaquim Barbosa e a face tenebrosa da maldade

sex, 22/11/2013 – 17:39 – Atualizado em 22/11/2013 – 17:57

Luis Nassif
A disputa política permite toda sorte de retórica. Populistas, insensíveis, reacionários, porra-loucas, o vocabulário é abrangente, da linguagem culta à chula.

Em todos esses anos acompanhando e participando de polêmicas, jamais vi definição mais sintética e arrasadora do que a do jurista Celso Antônio Bandeira de Mello sobre Joaquim Barbosa: “É uma pessoa má”.

Não se trata se julgamento moral ou político. Tem a ver com distúrbios psicológicos que acometem algumas pessoas, matando qualquer sentimento de compaixão ou humanidade ou de identificação com o próximo. É o estado de espírito que mais aproxima o homem dos animais.

O julgamento da bondade ou maldade não se dá no campo ideológico. Celso Antônio Bandeira de Mello é uma pessoa generosa, assim como Cláudio Lembo, cada qual com sua linha de pensamento. Conheci radicais de lado a lado que, no plano pessoal, são pessoas extremamente doces. Roberto Campos era um doce de pessoa, assim como Celso Furtado.

A maldade também não é característica moral. O advogado Saulo Ramos, o homem que me processou enquanto Ministro de Sarney, que conseguiu meu pescoço na Folha em 1987, que participou das maiores estripulias que já testemunhei de um advogado, nos anos 70 bancou o financiamento habitacional de um juiz cassado pelos militares. E fez aprovar uma lei equiparando direitos de filhos adotados com biológicos, em homenagem ao seu filho.

A maldade é um aleijão tão virulento, que existe pudor em expô-la às claras. Muitas vezes pessoas são levadas a atos de maldade, mas tratam de esconde-los atrás de subterfúgios variados, com o mesmo pudor que acomete o pai de família que sai à caça depois do expediente; ou os que buscam prazeres proibidos.

Joaquim Barbosa é um caso de maldade explícita. Longe de mim me aventurar a ensaios psicológicos sobre o que leva uma pessoa a esse estado de absoluta falta de compaixão. Mas a natureza da sua maldade é a mesma do agente penitenciário que se compraz em torturar prisioneiros; ou dos militares que participavam de sessões de tortura — para me limitar aos operadores do poder de Estado. Apenas as circunstâncias diferem.

A natureza o dotou de uma garra e inteligência privilegiadas. Por mérito próprio, teve acesso ao que de mais elevado o pensamento jurídico internacional produziu, a ciência das leis, da cidadania, da consagração dos direitos.

Nada foi capaz de civilizar a brutalidade abrigada em seu peito, o prazer sádico de infligir o dano a terceiros, o sadismo de deixar incompleta uma ordem de prisão para saborear as consequências dos seus erros sobre um prisioneiro correndo risco de morte.

Involuntariamente, Genoíno deu a derradeira contribuição aos hábitos políticos nacionais: revelou, em toda sua extensão, a face tenebrosa da maldade.

Espera-se que nenhum político seja louco a ponto de abrir espaço para este senhor.


jader on 22 novembro, 2013 at 18:25 #

Lilyane on 22 novembro, 2013 at 21:29 #

Fazer Justiça agora virou maldade. Vai entender o raciocínio de algumas pessoas, ainda por cima, já tendo alcançado a idade da razão. Vai ver já estão ‘passados’.


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