nov
20
Postado em 20-11-2013
Arquivado em (Artigos) por vitor em 20-11-2013 23:06


——————————————————————

===========================================================

A gata Furreca no dia de Zumbi

Cida Torneros

Chego em casa de manhã, depois de passar a noite com minha mãe, e encontro meus gatinhos saudosos, que costumam me saudar com volteios e miados. Dois deles logo me acolhem, carinhosamente. Mas e a Furreca? É a mais agitada e estranho seu silêncio. Passeio meus olhos pela sala, lá está a pequenina, no alto de uma cristaleira, instalada ao lado de uma negrinha namoradeira que eu trouxe de uma das viagens a Minas Gerais.

Lembro então do feriado de hoje, em que homenageamos Zumbi, o lider do Quilombo dos Palmares, defensor resistente da luta contra a escravidão do povo que veio da Africa, para as Américas, em situação de humilhante desrespeito aos direitos humanos.

Minha gatinha Furrequinha parece se solidarizar à memória da gente escravizada e não sai do seu posto, como se ali fizesse guarda a um monumento na sala da minha modesta casa em Vila Isabel. Eu me confronto com sentimentos de uma vida inteira. Busco as lembranças de leitura que me marcou demais, quando cursei Direito, nos anos 70, por alguns semestres, e o professor de Sociologia nos indicou e cobrou a pesquisa do maravilhoso “casa grande e senzala”, obra do emérito escritor Gilberto Freyre, publicada em 1933, com inúmeras reedições.

Recomendo a todos os jovens como um livro indispensável para o entendimento da formação sociocultural brasileira e as seqüelas de discriminação ou de integração racial que avançaram por séculos em nossa história brasileira.
Nas escolas, costumam ensinar às crianças sobre as heranças da miscigenação, na música, nas comidas, na linguagem, no sincretismo religioso, nos sentimentos de segregação ou nas lutas pela igualdade de oportunidades que resultam em politicas de quotas raciais em universidades, por exemplo.

Minha pele reflete a origem ibérica mas meu coração brasileiro é amorenado, muitas vezes meu paladar é delicioso com gosto de feijoada carioca, e minha alma tem Cartola na poesia, Cruz e Souza no lamento, Seu Jorge na Cadência, Jovelina Pérola Negra, na emoção.

Sorrio pela constatação da negritude cantada por Vinicius que se intitulava “o branco mais preto do Brasil”, e busco minhas namoradeiras gêmeas, trazidas de Mariana, a pretinha e a branquinha, loura, companheiras de janela, sonhadoras de igualdade, amansadas ou afogueadas em amores mixtos.

Amo as canções da Martinalia e seu pai Martinho, meu vizinho de bairro, nunca esquecerei a lenda do negrinho do pastoreio, aprendi que a consciência negra, pelo menos, em mim, começa e termina no amor a esses seres invadidos, cujos ancestrais vieram trabalhar sob a egide da chibata, mas cujo coração nos entranhou de amores, nos enricou com um país miscigenado e sambeiro, ritimado, comilão, cocadeiro, amante da sobrevivência na senzala, amante na noite da casa grande, trabalhador na lavoura da cana, cantador nas madrugadas de banzo traiçoeiro, fugitivo nos quilombos da resistência, sob a liderança de Zumbi.

Quando a abolição da escravatura completou 100 anos, em 1988, escrevi matéria de pesquisa sobre o jornalista José do Patrocínio, o tigre da Abolição, para um caderno especial da Gazeta de Noticias, jornal carioca centenário e defensor da Lei Áurea, editado, na época pela amiga saudosa Antonieta Santos.

Percebo que a intuição da minha gatinha Furreca é coisa de ser que convive bem no lar onde nasceu, filha que é da minha outra gata, veludosa, a arisca e carinhosa Pretinha. Hora de ouvir Simoninha, cantando seu pai, Simonal, ” se eu sou negro de cor”, e me emocionar só mais um pouquinho!

Maria Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro. Edita o Blog da Cida, onde o texto foi originalmente publicado

Be Sociable, Share!

Comentários

Cida Torneros on 21 novembro, 2013 at 7:12 #

Bom dia, Vitor e toda a turma do BP, Furreca agradece a fama! Rs, bjs


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • novembro 2013
    S T Q Q S S D
    « out   dez »
     123
    45678910
    11121314151617
    18192021222324
    252627282930