Campos:Gestão, avô, machismo e sucessão
na conversa com Jô.

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ARTIGO DA SEMANA

Campos no Jô: Sem Marina e sem Arraes

Vitor Hugo Soares

Salvo para notívagos irrecuperáveis, o horário do Programa do Jô é cruel. Começa tarde da noite na Rede Globo. Invariavelmente, envereda pela madrugada. Um desafio mesmo para aposentados ou estudantes de férias. Imaginem para quem tem algum compromisso logo cedo no dia seguinte: de trabalho, empresarial, político, de governo, ou puramente pessoal.

Ainda assim, o Jô consegue manter-se, ao longo de anos, na inabalável condição de maior e melhor “show de conversa” da televisão brasileira. Isto ficou cabalmente demonstrado, mais uma vez, na madrugada de segunda-feira desta semana, quando o principal entrevistado foi o governador de Pernambuco, presidente nacional do PSB e pré-candidato a presidente da República, Eduardo Campos.

É sabido: ninguém passa impunemente, ou incólume (para glória ou desgraça), pelo Programa do Jô: músicos, atores, escritores, jornalistas, cientistas, homens de governo, gente de oposição ou celebridades em geral. Sem apelações ofensivas ou agressões gratuitas ao entrevistado, ao auditório na TV Globo, e, principalmente, aos ouvintes ligados na atração no país inteiro, o apresentador preserva a marca permanente da graça e do bom humor em qualquer situação, por mais delicada ou dramática que seja ou possa parecer.

Sem perder o foco principal, que parece ser o ponto diferencial daquilo que se vê e se ouve por aí nas TVs, em outras atrações semelhantes do gênero: a pergunta inteligente, certeira, aplicada na veia. Em geral, surpreendente para o ouvinte e inesperada para o entrevistado, mas sempre em busca do alvo: uma nova e reveladora informação.

Não foi diferente na conversa com o socialista pernambucano, ex-ministro no primeiro mandato do Governo Lula. Também aliado decisivo no Nordeste na campanha que levou a petista Dilma Rousseff à presidência da República na eleição passada. Ultimamente, no entanto, ele confronta a ambos – “o amigo e a mandatária petistas”- em pré-campanha aberta para destronar a ocupante da principal cadeira de mando do Palácio do Planalto, nas eleições do ano que vem.

Neto de Miguel Arraes, figura legendária de político e administrador em seu estado e no País (principalmente no âmbito das chamadas esquerdas), Campos foi surpreendido quando ainda estava no auditório, à espera do convite para sentar-se na poltrona ao lado do apresentador.

Jô perguntou “de supetão”, como gostam de dizer os baianos, por que o filho de Ana Arraes não foi registrado no cartório civil com o sobrenome do avô? Ainda sem a famosa caneca com água do programa à mão, para dar tempo de se recompor do susto, o governador de Pernambuco “engoliu a seco” (outra expressão do gosto dos soteropolitanos), antes de conseguir engatar uma resposta.

Explicou: sua mãe e filha do ex-governador (ex-deputada e atual conselheira do Tribunal de Contas da União- TCU), Ana Arraes , quando casou com o escritor Maximiano Campos, em razão do “machismo” da época, adotou o sobrenome do marido. As perseguições contra Arraes e seus familiares, ainda presentes quando do nascimento de Eduardo, também pesaram na escolha. “Pelo menos, foi isso que me contaram”, revelou.

“Eduardo Campos, governador de Pernambuco e pré-candidato a presidente da República, venha para cá”, disse em seguida o apresentador, convocando o entrevistado a sentar-se na poltrona ao seu lado. Ainda assim, não estavam encerradas as atribulações do governador.

No começo da conversa – provavelmente por orientação de algum assessor ou marqueteiro – Campos evitava encarar seu lendário entrevistador. Preferia ficar girando a cabeça à procura do “olho” de uma câmera no estúdio. Imaginando, talvez, erradamente, que, assim, estaria falando mais diretamente com o telespectador ( principalmente o potencial eleitor).

“Eduardo, desculpe e não me leve a mal, mas prefiro que a gente converse com você olhando diretamente para mim. Senão vai ficar parecendo uma conversa de dois cegos”, brincou Jô. O governador, postulante a presidente, entendeu o recado e o conselho. “É, como a história dos dois políticos que queriam conversar, mas não queriam ser vistos por ninguém. Então um deles sugeriu que a conversa se desse no Instituto de Cegos”, devolveu Campos, e a entrevista entrou no ritmo e ganhou ainda mais consistência quanto ao conteúdo e interesse geral.

Valeu à pena ficar acordado para ver o dirigente socialista mostrar o melhor de suas habilidades de articulador político e de competente e premiado gestor público à frente do governo de seu Estado, com invejável aprovação nas pesquisas de opinião.

No primeiro caso, com impressionantes características herdadas do avô, na arte da conversa ao pé de ouvido, da argumentação inteligente e bem humorada para aliviar a tensão (mas implacável naquilo que defende e quer).

A historia do vereador traído pela mulher, com o amigo taxista em que ele mais confiava, ao ponto de pagar para ele levar a esposa nas viagens a Recife, foi de matar de rir. E Campos ganhou o auditório, como Arraes fazia em seu tempo e o neto continua a fazer nos comícios e palestras.

No segundo caso, também herdou muito do velho Miguel Arraes. Mas acrescentou jeito, nuances e talento próprios de gestor moderno, antenado e com foco nacional e internacional, que o avô nunca teve, ou talvez jamais tenha pretendido. A entrevista, e suas repercussões seguem rolando na Internet e gerando preocupações e polêmicas não só em Pernambuco, mas em outras estradas abertas e gabinetes fechados: da Bahia à Brasilia, de Minas à São Paulo.

Briga boa à vista. Dura normalmente, mas agora bastante reforçada depois da aliança com a ex-senadora e também ex-ministra de Meio Ambiente do Governo Lula, Marina Silva. Ela, que semanas antes brilhara intensamente no Programa do Jô, mesmo ausente, teve sua sombra projetada o tempo todo no programa de segunda-feira.

Depois de ter recusado pela justiça eleitoral o pedido de reconhecimento do partido Rede Sustentabilidade, na mesma semana em que o STE reconheceu dois partidos mais parecidos com balcões de trocas eleitorais, Marina ingressou no PSB, na jogada de mestre do ano na política brasileira.

“Para o que der e vier no futuro”, afirmou Eduardo Campos no Programa do Jô.

Vale a pena conferir os vídeos que rolam na WEB.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Omar Torres on 16 novembro, 2013 at 10:38 #

Moro em Pernambuco e não sou filiado a nenhum partido. Acompanho a administração Eduardo Campos e vejo nela coisas boas e ruins. Sobre a entrevista no Jô Soares: As 29 Secretarias de Estado aumentadas por ele ou utilizadas para aniquilar a oposição são, proporcionlamente, um problema muito maior que os 39 Ministérios. E só agora no fim do mandato é que ele enxerga a necessidade de diminui-las. Destacou sua trajetória vitoriosa de líder estudantil, deputado estadual e federal, ministro e governador, mas não falou na Secretaria da Fazenda e os precatórios. Falou o mais do mais. Ainda não sei em que vou votar.


Lilyane on 16 novembro, 2013 at 15:57 #

Nem eu Omar.


Lucas Santos on 3 junho, 2014 at 15:19 #

Pessoal nem os canalhas da Veja usam isto dos ‘precatórios’

“”Em 2003, foi inocentado das acusações de falsidade ideológica e crime contra o Sistema Financeiro Nacional pela Justiça. Foi ministro de Ciência e Tecnologia do governo Lula. Hoje é o governador de Pernambuco.””

http://veja.abril.com.br/infograficos/rede-escandalos/perfil/eduardo-campos.shtml?scrollto=conteudo-rede


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