André Setaro
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DEU NO TERRA MAGAZINE E NO SETARO`S BLOG ( DO CRÍTICO DE CINEMA E PROFESSOR DA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO DA UFBA)

A Bahia, que já teve o seu Século de Péricles, nos anos 50 e 60, quando era um dos centros da vanguarda brasileira, vive atualmente em dolorosa regressão cultural. Os órgãos oficiais responsáveis pelo patrocínio dos eventos da cultura fecham os olhos para aqueles mais importantes para incentivar manifestações destituidas de significação. A Jornada Internacional de Cinema da Bahia viu-se, há dois anos, de pires na mão e, não aguentando a ausência de incentivos e de recursos, extinguiu-se.

Agora é a vez do Cine Futuro (Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual), que, tendo se iniciado em 2005, após 8 anos de atividades periódicas, não conseguiu ser realizado no ano em curso. Vale ressaltar que o Cine Futuro é o evento cinematográfico mais importantes que já se realizou na Bahia, com uma ampla programação e convidados notáveis do exterior (como se pode ver no texto abaixo). Os editais governamentais, que promoviam concursos de roteiros para a realização de filmes de longa e curta metragens, estão cada vez mais escassos e em via de desaparecimento. A miséria cultural baiana é um fato inconteste.

Por outro lado, se Salvador, em tempos idos, era uma cidade aprazível, boa para se viver, tranquila, atualmente, é uma metrópole enfartada, engarrafada, violentíssima, de difícil mobilidade. Basta dizer que o próprio comandante da Polícia Militar soteropolitano, semana passada, foi assaltado. A insegurança é a tônica da cidade e seus habitantes estão apavorados e angustiados.

A Bahia, outrora celeiro de talentos, virou uma terra folclórica (no sentido pejorativo da palavra). Nos anos 50, tínhamos um teatro do melhor nível, comandado por Martim Gonçalves na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia. O movimento literário era pulsante. O Seminário de Música, também da mesma universidade, contatava com nomes importantes da música eruditava internacional como seus professores, e os concertos na Reitoria fizeram história.

E havia um cinema baiano que se estabelecia como uma força na renovação da cinematografia brasileira com o Ciclo Bahiano de Cinema, a exemplo de filmes como Barravento, de Glauber Rocha, A grande feira e Tocaia no asfalto, ambos de Roberto Pires, Sol sobre a lama, de Palma Neto e Alex Viany, entre outros. Toda esta riqueza cultural (ao contrário da miséria reinante) pode ser consultada no livro A avant-garde na Bahia, de Antonio Risério (Editora Currupio).

Por falta de apoio, pela primeira vez em 8 anos o Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual (que mudou de nome paraCine Futuro) deixou de ser realizado neste ano de 2013. Embora não querendo fazer comparações com outros eventos meritórios que se realizam em Salvador, o fato é que o Cine Futuro se destacou como o maior evento cinematográfico que a Bahia já realizou. A ausência do seminário pode ser considerada mais um sintoma da miséria cultural que assola a velha província.

Reunindo centenas de pessoas (basta ver a imagem acima do Teatro Castro Alves totalmente lotado em seus mais de 1.500 lugares), com convidados da maior importância do ponto de vista do pensamento cinematográfico do exterior, o Cine Futuro naufragou na inépcia daqueles que, patrocinadores da cultura, não souberam dimensionar a sua importância e a sua relevância para a cidade atualmente tão desprovida de eventos culturais significantes. O que diz, por exemplo, a Secretaria Estadual de Cultura sobre a não realização do Cine Futuro? Há recursos, no entanto, para o patrocínio de festivais pelo Brasil afora (do ponto de vista dos patrocinadores federais), e, hoje, vê-se eventos em qualquer cafundó de Judas no grotões desse Brasil que está ficando cada vez menos varonil.

O idealizador e organizador do Cine Futuro, José Walter Pinto Lima, agente cultural, que, com sua gestão à frente do Departamento de Cinema (DIMAS) da Fundação Cultural do Estado da Bahia, programando a sala da Biblioteca Central nos anos 80, conseguiu dar, com a exibição de obras importantes da história do cinema, continuidade ao trabalho de Walter da Silveira ao proporcionar aos baianos a visão de filmes de alta qualidade. Apesar de não gostar de aparecer, o empenho de Walter Lima, à frente da promoção do bom cinema, é inegável, principalmente quando, em 2005, deu início aoSeminário Internacional de Cinema e Audiovisual, que, a princípio na Reitoria da Ufba, logo, no ano seguinte, passou a ser realizado no Teatro Castro Alves.

Nenhum outro evento realizado na Bahia conseguiu, em toda a sua história, diga-se de passagem, trazer do exterior nomes importantes como Costa Gavras, Alain Bergala (o maior especialista em Godard, Professor da Universidade Paris III, ex-redator da revista Cahiers du Cinema), Celine Scemama (Mestre em Estética da Universidade Paris I), Lucrecia Martel (realizadora premiado de O pântano, um dos filmes argentinos mais insólitos dos últimos tempos), Michel Marie (ensaísta francês com diversos livros publicados), Antoine de BaeCque (autor da excelente biografia de François Truffaut e de extensas exegeses sobre a obra de Tarkovski), Charles Tesson (Professor de Estética da Universidade de Paris III), Robert Stam, Miguel Littin (o famoso realizador chileno responsável por Dawson – que foi produzido por Walter Lima – e que deu uma excelente oficina num dos seminários), Arlindo Machado, João Carlos Teixeira Gomes (Joca), Gilberto Vasconcellos, entre muitos outros.

Segundo José Walter Pinto Lima, “o Festival Cine Futuro tem como base conceitual a apresentação de uma visão ampla sobre o fazer e o pensar da área cinematográfica; promovendo a convivência com realizadores, pensadores, críticos e técnicos; apresentando mostras de grandes cineastas e das recentes produções inéditas no país; estimulando a criação, premiando o melhor filme nacional e baiano de curta metragem, além de promover cursos e oficinas de formação profissional”

Vejam bem: fazer e pensar o cinema. Nos dias que correm, com o boom digital, faz-se muitos filmes sem, contudo, pensá-los. E um filme sem uma estruturação anterior às filmagens tem muitas chances de dar errado. A maioria dos filmes digitais que é apresentado nos eventos cinematográficos faz concorrência para a lixeira dos tempos. O que faz pensar, atualmente, é demodée, ultrapassado, já era,como uma jovem que ria o tempo todo na projeção de Um corpo que cai (Vertigo), de Hitchcock, em cópia luminosa e restaurada promovida pela Panorama que ora acontece na capital baiana.

O Professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia, Jorge Nóvoa, editor da prestigiada revista O Olho da História (http://oolhodahistoria.org) assim se manifestou sobre o descalabro reinante. Vejam abaixo, e abrindo as devidas aspas:

“Cheguei há pouco mais de 15 dias à Salvador (depois de passar quase um ano fora), e é com pesar, tomo conhecimento da não realização este ano do SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE CINEMA – CINE FUTURO, evento cultural e científico da maior importância para Salvador, para a Bahia e, porque não dizer, para o Brasil. Ele nos orgulhava exatamente porque víamos nele, também, a superação do “complexo de pobre” que parece sempre permear a maioria das realizações do tipo que se realizam na nossa capital. Pele primeira vez, sentíamos que não precisávamos ir para São Paulo ou Rio de Janeiro para participarmos de um evento legitimamente de porte internacional. Mas ele “não existe” mais!

Temos enorme dificuldade de compreender tal situação. Se não queremos imaginar que seja fruto de ciúmes, parece inevitável admitir uma tremenda miopia das nossas autoridades municipais, regionais, estaduais e nacionais, das mais diversas áreas, mas sem dúvida, daquelas que planejam o futuro! Esta situação me faz lembrar a fórmula célebre do “enigma baiano”. Aplicada, sobretudo, à economia, ela se tornou uma expressão metafórica de nossos pensadores quando se “curvam” diante da dificuldade de explicar o porquê de a Bahia ser pioneira em tantos domínios, sem, contudo, conseguir ser hegemônica em nenhum deles. Na Terra de Todos os Santos é complicado se afirmar que “santo de casa não faz milagre”, mas quando vemos a situação da cidade, o estado de descalabro em que ela se encontra há décadas mudando de mão em mão, é fácil se encontrar argumentos que consideram o “cinema” e suas teorias, coisa supérflua. E assim o fazendo, o poder “público” faz suas escolhas e ainda usa a justificativa de que na Bahia não existem talentos empreendedores.

Mas aí está a explicação: a Bahia, como outras regiões do Brasil, não se torna hegemônica em seu conjunto! Porém frações dominantes dela sim se tornam. Associam suas prioridades àquelas das frações dominantes nacionais e internacionais! Ao proceder assim, o poder “público”, mostra, de fato, o quanto ele é privado e o quanto a democracia vira uma “espécie jogo de alternância” no poder, como naqueles esquemas de “licitação pública” lastimavelmente já célebres.

Acredito ser necessário que todos que participaram do Seminário que expressem suas solidariedades. Que este gesto seja o início de uma nova luta para mudar tal situação e que o SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE CINEMA – CINE FUTURO retome o lugar que é seu no cenário nacional e internacional. Creio ser esta a única forma real para reconhecer e agradecer aos seus idealizadores e empreendedores pelos serviços que prestaram à educação e à cultura deste país.”

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