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Estamos aí

Gilson Nogueira

Em vez de balões que incendeiam e matam, arraias, bailarinas de papel e madeira finos, voam nos céus da Cidade da Bahia. Uma dessas “criaturas”, que, lá fora, chamam de pipa, com uma mandala no centro e quatro estrelas de oito pontas em cada uma das suas quatro extremidades, na cor de araçá maduro, estava estendida no meu terraço, no final de tarde.

Ao vê-la, corri a acudí-la, a fim de evitar sua inutilidade.

Com cuidado, protegendo-a do vento forte, enrolei-lhe a rabada e parti a linha que a ligava a algum ponto na minha rua. Fiz de um galho seco o novelo, para aproveitar o fio, cujo tempero não oferecia risco de corte, fraco que era. Talvez, por isso, na “guerra”, travada nos ares de Salvador, sob o céu de novembro, a bichinha tenha sucumbido ao efeito de um aú de alguma rival empinada por mãos mais hábeis no ofício de fazer do céu soteropolitano espaço de sonhos infantis em poder cutucar as estrelas.

Nesse clima de dobrar a linha que sobrou da arraia ferida, e lembrar dos meus tempos de criança, vi a tarde ir embora, com a lua crescente lembrando-me cortar as unhas e colocar no meu micro system o novo CD de Os Cariocas, Estamos aí, nome de um programa que eu produzia e apresentava em uma rádio soteropolitana antes da chegada das emissoras FM, no final dos anos 1960.

E lá fui eu, nas asas da imaginação, voando de volta à cidade do Rio de Janeiro, de onde cheguei, terça-feira passada, após assistir, ao vivo, no Teatro Rival, no Dia de Finados, o show de lançamento do CD do maior grupo vocal do Brasil em todos os tempos e o mais antigo em atividade, até hoje (1946), Os Cariocas, de novo, Os Cariocas!!!

Formado, hoje, por Severino Filho, o único veterano na atual formação : primeira voz, piano e teclado; Fábio Luna: segunda voz, bateria, percussão e flautas; Neil Teixeira:terceira voz, baixo elétrico e baixo acústico, e por Eloi Vicente: quarta voz,violão e guitarra elétrica, o grupo dispensa longos textos, para defini-lo. Por isso, peço licença ao grande Ruy Castro, autor de “A onda que se ergeu no mar” e de outros sucessos lierários, para usar a frase, de sua safra de inteligência, que embeleza o encarte do CD Estamos aí, sobre Os Cariocas, diz ele:“ Não é um grupo vocal, mas uma constelação – que às vezes explode e ilumina a cena musical. Os Cariocas são assim.”

Realização da Biscoito Fino, com direção geral de Kati Almeida Braga e direção artística de Olívia Hime, Estamos aí é um presente de Natal antecipado. Papai Noel é Bossa Nova.

O meu exemplar do CD, com os autógrafos dos Cariocas, está, aqui, na minha estante, perto de uma foto de Batatinha e de outras peças valiosíssimas de meu santuário, de onde, vez por outra, despenca uma vontade de fazer o tempo voltar, para empinar lembranças sorrindo.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do BP

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