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CRÔNICA

Graciliano não soltava beagles

Janio Ferreira Soares

Em meio a tantos gases lacrimogêneos e insurreições de velhos baianos contra monarcas de cabelos chapeados, lá vou eu a mais de 120 por hora rasgando asfaltos e desviando de restos de raposas que bobearam durante a noite. O relógio marca 5 da manhã e embora seja a hora de Luiz Gonzaga, a voz que me acompanha é a de Harry Nilsson cantando Everybody’s Talkin’, canção perfeita para se ouvir cruzando estradas enquanto esboços de arco-íris matizam sem pressa o cinza pré-sol.

Depois de descer a lombada do trevo que dá a alternativa de embocar em terras alagoanas ou seguir rumo a solos pernambucanos, surge em minha frente uma caatinga lindamente branca como se fora um encantamento provocado por caboclinhos em festa. Paro o carro, desligo o som e demoro um pouco a perceber que a visagem são os pés-de-jurema que floresceram depois das últimas chuvas de outubro. Poesia pura.

De longe vem um latido que me remete aos beagles que foram resgatados pelos defensores de animais. Aproveito que estou em seu condado e me lembro de Graciliano Ramos, que na época em que era prefeito de Palmeira dos Índios mandou matar dezenas de cães, cujos donos não cumpriram sua determinação de prendê-los. Fosse hoje, veja a ironia, o escritor que humanizou a cadela Baleia dando-lhe uma das mais belas mortes da literatura brasileira, seria friamente crucificado pelos artistas/ativistas e por participantes de programas de TV que opinam a respeito dos mais variados assuntos com os pés em posição de yoga sobre pufes e sofás vermelhos.

A propósito, fala-se demais no Brasil. Parece até que é imperativo ter uma opinião sobre tudo. De idiotizados Black Blocs com suas máscaras negras (apesar de também sê-los, é bom não confundi-los com os mil palhaços de Zé Kéti) a tolos defensores de utopias primaveris, o importante, citando de novo Raul, é protestar. Sendo assim, eu, como um velho rapaz latino-americano que já passou por Elvis, Mr. Bob Dylan e que tais, quero mais é que Tony Ramos tenha uma bela infecção depois de comer uma maminha Friboi.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

regina on 9 novembro, 2013 at 14:00 #

Ha ha ha ha ha, gostei, Janio, gostei muito, riu e também quero chorar….. Enquanto olho de frente as folhas que caem langdamente das árvores que amarelaram e avermelharam no meu quintal num outono californiano, fico imaginando sua visão: “uma caatinga lindamente branca como se fora um encantamento provocado por caboclinhos em festa. Paro o carro, desligo o som e demoro um pouco a perceber que a visagem são os pés-de-jurema que floresceram depois das últimas chuvas de outubro. Poesia pura.”….
De resto nos sobra a música, sempre um alivio, um sopro de esperança, um empurrão… pois elas ficarão, mesmo que seus compositores se percam no caminho…. BOM DIA!!!!!


Janio on 9 novembro, 2013 at 19:03 #

Beijos, Regina. Só me resta ouvir California Dreamin’.


regina on 9 novembro, 2013 at 21:21 #

Carlos Volney on 10 novembro, 2013 at 16:06 #

Que bom que temos o bahiaempauta. Sempre, diária e sistematicamente, há coisas que nos enlevam.
A crônica do Jânio, que já havia lido em A TARDE – fã dele que sou -, é belíssima. E o comentário de Regina é transcendental.
vou me permitir imitar o mestre Victor Hugo, TIM TIM!…


regina on 10 novembro, 2013 at 21:40 #

Volney, meu lindo, vc me toca sempre!!!!
Gostaria de corrigir o “riu”, seria eu rio, certo??? Além disso, uma vírgula aqui e ali, vcs sabem, eu sou uma emocional e vou mandando brasa sem ter muito cuidado de planejamento…. TIM TIM!…


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